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Ciência e Cultura

On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol.55 no.2 São Paulo Apr./June 2003

 

Exposição

PINTURA DE ECKHOUT FUNDA ICONOGRAFIA

 

 

Gigantescas telas retratando danças de indígenas, mulheres negras e mamelucas, frutas, plantas e animais compõem o retrato do Brasil do século XVII nas pinceladas de um europeu. Mais precisamente um holandês, o pintor Albert Eckhout, que integrou a expedição científica do conde Maurício de Nassau, governador geral dos territórios holandeses no Brasil (1637-1644) durante a ocupação holandesa, que foi de 1630 a 1654. O olhar do artista, registrado em telas que chegam a ter 3 metros de largura, como em Dança dos Tapuias, pode ser visto em uma exposição rara iniciada em setembro em Recife, passando por Brasília e chegando à capital paulista, onde ficou exposta de janeiro a março deste ano na Pinacoteca do Estado e seguindo para o Rio de Janeiro, no Paço Imperial no Rio de Janeiro, onde ficará até 25 de maio. Nas primeiras três cidades, a exposição foi vista por aproximadamente meio milhão de pessoas.

Pela primeira vez, o acervo completo com as 24 obras de Eckhout, produzidas entre 1637 e 1644, saiu do Museu Nacional da Dinamarca para uma mostra itinerante como essa. Quadros isolados do pintor já puderam ser vistos em 1991, no Masp e alguns deles compuseram a Mostra do Redescobrimento, em 2000. O cuidado se justifica: trata-se de uma das coleções mais valiosas do planeta, pois as obras, doadas por Nassau ao rei Frederico III, em 1654, jamais foram comercializadas e não se conhecem outras telas do pintor.

Para a pesquisadora Elly de Vries da Fundação Oscar Americano, com mestrado sobre o pintor na Holanda e coordenadora de pesquisa e texto da exposição, a obra de Eckhout pode ser considerada o primeiro contato visual real de como era a população, a fauna e a flora brasileiras no século XVII, e influenciou os modos de ver, representar e pensar o continente americano, inaugurando nossa iconografia e um novo imaginário. Segundo ela, as representações sobre o Brasil, existentes até então, eram as fantasiosas gravuras provenientes dos relatos das expedições no país de Hans Staden (1547 a 1554) e Jean de Lèry (1556 a 1558). "Muitas dessas gravuras procuravam chamar a atenção para o grotesco e o primitivismo, enquanto que Eckhout tinha um grande compromisso com a realidade", diz Elly.

 

 

A precisão da pintura do artista holandês transformou-o em fonte para a comunidade científica européia da época, que pôde registrar e classificar plantas e animais brasileiros. Até na atualidade a pintura de Eckhout continua tendo esse papel. Dante Luiz Martins Teixeira, zoólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é um exemplo disso: pôde identificar, por meio da observação dos quadros de Eckhout, algumas espécies que desapareceram. Por essa característica, Elly acredita que é possível entender a obra do pintor pensando no limiar entre arte e ciência.

Cada uma das exposições no Brasil teve uma organização diferente. Pieter Tjabbes explica que, em Recife, cenário que inspirou a obra de Eckhout, a exposição tinha menos informações textuais, focalizando características visuais de forma mais regionalizada. "Na primeira sala, por exemplo, um cenógrafo fez um trabalho multimídia para abordar a obra de Eckhout", explica Tjabbes. De acordo com ele, em Brasília houve maior interação entre textos e imagens com uma proposta educativa de arte, assim como em São Paulo.

Elly de Vries acrescenta que na Pinacoteca do Estado o objetivo foi o de resgatar a obra do artista, que ganhou maior visibilidade nos últimos 25 anos no contexto da História da Arte. Além dessa contextualização, a primeira sala da exposição em São Paulo também procurou situar historicamente o espectador através de mapas e livros do século XVII, da coleção de José Mindlin, além de ilustrações de Frans Post, pintor que também integrou a comitiva de Nassau. A recuperação de alguns desenhos de Eckhout, perdidos até 1979 e presentes na mostra, possibilitou o surgimento de novos estudos sobre o pintor.

 

Marta Kanashiro