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Ciência e Cultura

On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol.55 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2003

 

 

Mundo atual e subjetividade: um desafio ao psicanalista
Marcio de F. Giovannetti

 

 

O que é o mundo atual? Difícil de definir, o mundo. Mas a palavra atual nos coloca de chofre no centro da problemática de hoje. Em que momento começa algo como o 'mundo atual'? No assassinato do arquiduque em Sarajevo? Na Revolução Russa? No Reichstag? No ataque a Pearl Harbor? Na bomba de Hiroshima? Na chegada do homem à lua, coincidindo com a revolução sexual do Ocidente e os movimentos feministas? Na conquista do espaço cibernético? Na queda do muro de Berlim? Na globalização econômica? Na clonagem da ovelha Dolly? Em 11 de setembro de 2001?

Se há algo que permanece hoje em nosso mundo é a idéia de pós. Tudo o mais parece extremamente provisório. A palavra atual parece significar hoje e apenas hoje. Aqui e agora. Ou melhor, apenas agora, pois a própria idéia de "aqui" é absolutamente questionável diante da internet ou de um aparelho de televisão. Noite e dia parecem ser coisas de outros tempos, com todas as conseqüências que isso traz para o animal humano, sonhador e dependente que é de seus sonhos, conforme nos mostrou Freud no início do século XX. Não por acaso, surge alguém como Paul Virilio, um estudioso da velocidade, que trabalhando com as questões relacionadas às catástrofes, acaba por criar o conceito de estética do desaparecimento para caracterizar a perspectiva desse momento histórico. Em uma palavra, poderíamos dizer que o que há de mais característico no mundo de hoje é o desaparecimento da permanência. Tudo se volatiliza. Tudo é descartável. Mas, paradoxalmente, há um aumento da expectativa do tempo da vida humana. Quanto mais tempo vive o homem, menor o tempo de cada uma de suas coisas, sejam elas artefatos, produções culturais ou conceitos científicos. Ser estranho esse, o homem...

 

 

Temos algo que se aproxima a uma idéia, a uma definição de mundo atual: é o mundo cujo criador é o homem. Começa-se a escrever um "Novíssimo Testamento". Por isso a proliferação de novas religiões e uma reafirmação fundamentalista das antigas. Por isso o aparecimento diário de novos profetas sejam eles à moda antiga ou travestidos de ídolos televisivos ou de filósofos da pós-modernidade. Quando Walter Benjamin contrapôs a notícia do jornal à narrativa histórica, não tinha a mínima idéia de que hoje a narrativa jornalística, por ter a duração de 24 horas, chega a ser quase que clássica se comparada aos noticiários "ao vivo" de nossas TVs e às notícias de última hora da internet. Em minutos, criamos e destruímos um pedaço deste novo mundo, admirável como o nomeou Aldous Huxley. Mas apenas admirável: uma miragem impossível de ser usufruída, digerida. Pois as alucinações só satisfazem os desejos e as necessidades por um curto período de tempo.

Desse ponto de vista, causa mesmo estranheza que as torres gêmeas de Nova York tenham durado três décadas: 30 anos são sempre um tempo demasiado longo para toda e qualquer alucinação. O cartão postal de Nova York jamais será o mesmo depois de 11 de setembro de 2001. Mas era apenas um cartão postal, é necessário enfatizar. Nunca encontramos na vida real as imagens de cartão postal, isso já o sabíamos. Ela é sempre mais feia, mais dura que nossos sonhos. Há sempre que questionar as fachadas dos sonhos, nos alertou Freud. Há sempre que ver o seu reverso. Mesmo assim, há sempre o seu umbigo, aquele ponto no qual sua capacidade representacional da vida de cada um de nós se perde na vida grupal e, para mais além, na vida da espécie. Animal estranho o homem, esse bípede que apóia uma perna em seu narcisismo e a outra em seu socialismo, uma em sua ontogênese e a outra em sua filogênese; que começou sua vida num ambiente aqüoso e a continua em um ambiente terrestre. Mas sempre visando aos céus, lugar das certezas.

Como no reverso de um parto de gêmeos, onde um aparece primeiro e depois o outro, aqui se tratava do desaparecimento de um e depois, do outro. Foi a seqüência inicial do filme 2001: Uma odisséia no espaço filmada ao reverso. Realizado no final dos anos 1960, no filme de Kubrick o ano de 2001 nos era apresentado pela transformação de uma ossada atirada ao alto por um macaco em uma nave espacial. O 2001 real nos foi apresentado com a transformação da nave em uma arma de guerra. E o fundo musical não era Strauss. O vozerio humano de 2001 não era muito diferente das emissões sonoras dos macacos do início da civilização ao se depararem com o monolito negro do filme de Kubrick. O contraste: lá e então se tratava do nascimento da civilização. Agora se tratava do confronto explosivo de nossas culturas.

Menos de um mês depois, novas imagens tão chocantes quanto aquelas: clarões provocados por mísseis de US$ 2 milhões cada, explodindo sobre um terreno desértico, rochoso. Muito parecido com o terreno filmado por Kubrick do ano zero da civilização. Nunca foi tão evidente que o homem é como uma rocha, resistindo sempre à castração simbólica. E que se mutila desenfreadamente, sendo ainda a mais letal das armas de guerra, a mais eficiente delas, seja ele ocidental ou oriental, fundamentalista religioso ou ateu.

A primeira bomba atômica, jogada sobre duas cidades gêmeas, Hiroshima e Nagasaki, em 1945, encerrou todas as guerras. As radiações por ela emitidas deram início a um novo estilo de violência que se tem manifestado em diferentes formas, locais e registros. Esse foi o alerta que Alain Resnais nos fez, ainda no início dos anos 1960, ao chamar seu mais polêmico filme de Hiroshima, mon amour, impactando a nós todos com a justaposição das palavras Hiroshima e amor, significantes tão antitéticos e ao mesmo tempo tão reveladores de nossa estética e de nossa ética modernas.

Neste mundo atual, do "Novíssimo Testamento", tudo é provisório. Permanente mesmo é a miséria humana. Estranho animal o homem: andando sempre em círculos, desgovernado, explodindo rochas e cidades, exilado de fronteira alguma, expondo suas feridas sem o menor pudor, encontrando sempre uma forma de transformar seu bem maior, suas culturas, em ferramentas de guerra e de terror. Só há uma palavra para nomear nosso sentimento diante de nossa própria imagem: perplexidade.

Nossos tratados de psicopatologia pouco nos servem agora. Como falar de sanidade e loucura neste aqui e agora? Tampouco nos são de muita ajuda nossos tratados legais, nossos códigos de leis. Como legislar sobre a família e os parentescos ou sobre as doações de órgãos de um indivíduo para outro é a questão de ordem para advogados e juízes do mundo todo. Sem falar no debate intenso girando em torno das clonagens. O escravagismo assumiu também outras formas: a quem pertence um determinado corpo humano é questão central emergente neste momento em que determinados órgãos já podem ser permutados. Ou vendidos. Em que o útero de uma mulher pode ser utilizado para receber embriões fecundados in vitro ou criados a partir de uma célula epidérmica.

Qual a subjetividade para o século XXI? Se no início século XX, Freud chocou o mundo científico ao descrever o homem sendo movido por suas paixões inconscientes, conceituando o sujeito desejante e enfatizando a natureza traumática de sua sexualidade e de sua identidade, é fundamental que o psicanalista de hoje possa repensar, a partir do contexto atual, a subjetividade emergente neste novo século. Como fica a teoria dos sonhos clássica quando a mais natural das fronteiras, aquela entre o dia e a noite, está apagada pelo uso sistemático da internet? Como fica a problemática da identidade e do sujeito quando as fronteiras geográficas se diluem no espaço cibernético? O achatamento do imaginário decorrente do excessivo bombardeio imagético a que toda pessoa é submetida configura o trauma do novo sujeito: não mais sexual, o trauma fundador da nova subjetividade é informacional.

Se há 100 anos o foco da psicanálise era colocado na sedução traumática constitutiva do sujeito, hoje é necessário que ele se desloque para o impacto traumático provocado pelas imagens midiáticas na constituição de todo sujeito. Se Hanna Arendt nos alertava nos meados do século XX para a "banalização do mal", o alerta que deve ser lançado agora diz respeito à banalização tout court: com a diluição das fronteiras e com a inundação imagética, a espessura e a densidade necessárias à constituição de uma identidade singular e privada desaparecem na mesma proporção em que a velocidade das trocas efetuadas entre o mundo externo e o mundo interno é feita.

Portanto não é de se estranhar que os correspondentes clínicos atuais da neurose de antigamente sejam a anorexia, a bulimia, a depressão difusa e a indefinição de metas de vida. Todos eles denunciando que os mecanismos de troca entre um interior e um exterior estão afetados ou impossibilitados de existir.

Nós, psicanalistas, temos alguma experiência em trabalhar com a provisoreidade dos conceitos, com o aqui e o agora, em que nem o aqui é necessariamente o lugar onde estamos nem o agora é o tempo marcado pelo calendário. Portanto, é mais do que hora de sairmos de nossos consultórios e levarmos um pouco da experiência aí adquirida para o mundo de fora. Não para diagnosticá-lo, nem tampouco tratá-lo. Mas para tentarmos pensá-lo. Juntamente com os demais ramos das humanidades. Pois nunca ficou tão evidente quanto agora a estranheza do homem e do mundo.

 

Marcio de F. Giovannetti é psicanalista e presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.