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Ciência e Cultura

On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol.55 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2003

 

Viagens do imperador

ACERVO DE FOTOS INÉDITAS DE D. PEDRO II "VEM À LUZ "

 

Ao deixar o Brasil em 1889 após a proclamação da República, o imperador D. Pedro II doou à Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro seu acervo pessoal com cerca de 25 mil fotografias. Mais de cem anos depois, em 1990, a divisão de iconografia da biblioteca iniciou um trabalho de identificação e recuperação das imagens, tendo como apoio nessa empreitada o Instituto Cultural Banco Santos. Parte desse acervo, com 220 fotos e retratos pintados a óleo pertencentes à família real, integram a exposição De volta à luz, na sede do Banco Santos, na capital paulista, onde fica até 31 de outubro, viajando posteriormente por algumas cidades brasileiras, num roteiro ainda em elaboração.

Além de ser o primeiro brasileiro a tirar uma fotografia na primeira metade do século XIX, com o recém-inventado aparelho de daguerreotipia, o imperador D. Pedro II instituiu no Brasil o título de "Photographo da Casa Imperial", concedido a partir de 1851 aos melhores fotógrafos do país, uma iniciativa que precedeu em dois anos a da rainha Victoria, que fez o mesmo na Inglaterra. Sempre acompanhava o imperador em sua comitiva um especialista em temas locais e um fotógrafo para registrarem suas viagens.

 

 

Tais registros nunca antes haviam sido expostos em uma mostra para o público, e estiveram longe do contato com a luz desde o fim da monarquia. "Por isso o nome De volta à luz, que traz em si a idéia de que as fotos não são apenas achados, mas imagens de grande relevância e valor em seu tempo, e nos permite capturar a impressão de um passado que nos moldou", diz Marcello Dantas, responsável pela concepção, desenho e montagem da exposição.

O primeiro dos três módulos da mostra reúne fotografias, documentos e objetos ligados ao círculo familiar do imperador, pertencentes a coleções pessoais de membros da família Orleans e Bragança. No mezanino está o segundo módulo, com dez painéis de vidro que trazem textos informativos e projeções digitais de coleções do imperador, mostrando seu interesse pela ciência e por novos inventos, como o aparelho de daguerreotipia. Em 1840, com apenas 14 anos e prestes a ter sua maioridade antecipada para que pudesse assumir o Império, ele foi o primeiro brasileiro a adquirir o aparelho, que conheceu em uma demonstração pública no centro da Rio, feita pelo abade francês Louis Compte. Essa parte da mostra também conta um pouco da história da fotografia no século XIX e o processo de recuperação das fotografias que inspiraram o nome da mostra.

As estrelas da exposição, batizadas de "enroladinhas", estão no terceiro módulo. Ficaram armazenadas em caixas metálicas de flandres, por mais de um século, nos arquivos da Biblioteca Nacional. Joaquim Marçal, chefe da Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional e um dos curadores da exposição, explica que tais imagens são cópias fotográficas em papel albuminado. Na metade do século XIX, desenvolveu-se uma técnica que consistia em depositar uma folha de papel de baixa gramatura em uma bacia com albumina, proteína extraída da clara do ovo, deixando o papel brilhante e liso. O contato do papel albuminado com a solução de nitrato de prata usada na revelação de fotografias tornava a imagem mais rica em contraste. "Com o passar do tempo, a reação entre a emulsão à base de albumina e o papel fotográfico fez com que as fotografias ficassem enroladas - daí o nome "enroladinhas". Porém, como as caixas se mantiveram fechadas, ao abrigo da luz e da umidade, a qualidade das imagens se manteve intacta", conta Marçal.

 

Rodrigo Cunha