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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.56 no.2 São Paulo Apr./June 2004

     

    Teatro

    45 ANOS DE RENATO BORGHI NO PALCO

     

    "O teatro brasileiro é um camaleão, em certos momentos ele se disfarça de uma coisa que só diverte; em outros, ele é uma arma..." É assim para Renato Borghi, atuante e premiado ator brasileiro que completa 45 anos de paixão pelo teatro. Sua trajetória nos palcos será contada em espetáculo no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, com estréia prevista para 15 de abril. Renato Borghi – 45 anos irá traçar um panorama do teatro brasileiro desde a década de 1940, contando fatos marcantes e pitorescos da história do teatro, do Brasil e de Renato Borghi.

    Um desses fatos, ocorrido quando o ator ainda fazia teatro amador, foi a vinda ao Brasil de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, ícones do existencialismo. "O Sartre era deus para nós", relembra Borghi que, com seu companheiro do Teatro Oficina, José Celso Martinez Corrêa, obteve autorização do autor para encenar a peça A engrenagem, montada em 1960, em parceria com Augusto Boal.

    Borghi foi um dos fundadores do Teatro Oficina, influente grupo teatral e referência desde a década de 1970 até hoje. Dentre os muitos espetáculos de vanguarda montados pelo Oficina, talvez o marco tenha sido O rei da vela, de Oswald de Andrade, em 1967. "A dramaturgia bombástica me fazia sentir atuando dentro da raiz e da alma brasileira; nesta peça, o Oswald falava do Brasil de uma forma antropofágica, devorando o que gente tinha de bom e de péssimo. O Oswald pegou o Brasil por todos os lados, devorou-o e depois o cuspiu no palco. E eu assinei em baixo, com sangue, suor e lágrimas..." relembra Borghi.

     

     

    O espetáculo no CCBB em comemoração aos seus 45 anos de carreira não será apenas autobiográfico, mas um testemunho crítico sobre o Brasil. Será voltado para as pessoas que se interessam pela história do teatro brasileiro e para o público que o acompanhou nessas décadas. "O teatro brasileiro nunca esteve alheio aos problemas nacionais. Especialmente na ditadura militar, quando foi uma voz de resistência usando, principalmente, peças de autores clássicos estrangeiros, que eram mais dificilmente censurados".

    Atualmente, considera Borghi, o teatro enfrenta um outro tipo de censura, com a cultura relegada a um plano secundário e pouco atendida nas plataformas políticas. Falta uma política cultural adequada, que não restrinja educação à mera alfabetização e sim, exponha o mundo às pessoas, possibilitando que conheçam os grandes autores da literatura, permitindo que se tornem seres humanos em plenitude, para que possam, efetivamente, contribuir para concretizar um Brasil diferente.

    O sonho de Borghi é a realização de um grande teatro popular brasileiro. "Eu acredito que com o teatro posso causar mudanças importantes; que consigo tocar a alma de muita gente, estimulando aqueles que estão predispostos a agir. Até o final da minha trajetória no teatro, vou batalhar por um projeto cultural verdadeiro para a sociedade brasileira", conclui o ator.

     

    Luciene Zanchetta