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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.56 no.3 São Paulo July/Sept. 2004

     

     

    Arte

    IMPRESSIONISMO: 230 ANOS DE LUZ

     

    Numa tarde fria de abril de 1874, na cidade de Paris de 230 anos atrás, foi organizada no ateliê do fotógrafo Maurice Nadar uma exposição de jovens pintores preocupados com uma nova forma de expressar a luz em seus quadros. Foi a primeira "Exposição dos Impressionistas", que iniciou oficialmente o movimento artístico que viria a ser considerado como o de maior influência sobre a arte moderna. No grupo original estavam Monet, Manet, Renoir, Sisley, Degas e Pissarro, que figuram entre os principais nomes do movimento.

    As descobertas da época sobre a fotografia, óptica, física e sobre o funcionamento da visão possibilitaram a exploração de novos parâmetros e concepções por esses artistas vanguardistas que, após a invenção da fotografia, não mais necessitavam retratar a realidade de maneira descritiva. A arte de então buscava retratar a realidade o mais fielmente possível. Após a fotografia, uma discussão sobre o papel da arte veio à tona, levada pela liberdade adquirida de expressar nas telas as impressões sentidas pelo artista.

    Os impressionistas pintavam ao ar livre, privilegiando a luz natural para registrar as tonalidades que os objetos adquiriam ao refletir a iluminação solar em determinados momentos do dia, o que concedia imagens luminosas e coloridas da realidade a seus quadros. Esses pintores discordavam das correntes artísticas acadêmicas da época por considerarem todas as coisas dignas de serem pintadas, libertando-se da tendência em retratar, prioritariamente, figuras humanas.

    Os impressionistas buscavam também uma expressão artística que não estivesse focada na razão e nem na emoção, mas sim que refletisse as impressões da realidade impregnadas nos sentidos e na retina. Segundo a professora de história da arte da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Claudia de Mattos, "no impressionismo encontramos pontos de luz estruturando a imagem, em uma mimese do funcionamento biológico da visão".

    Esta decomposição da pintura em elementos mais simples repercutiu no desenvolvimento de uma nova maneira de pintar. No impressionismo, após a decomposição do real, a luz é utilizada como o elemento de construção da matéria.

    "A luz para os impressionistas constrói a forma, não apenas se reflete sobre ela" analisa a doutoranda em história da arte pela Unicamp, Paula Vermeersch.

    Essa visão vanguardista, que tinham os impressionistas, causou uma tensão no ambiente artístico-cultural de Paris em meados do século XIX, e dificuldades em ser compartilhada pelo público e pelas instituições artísticas. Uma batalha ideológica em favor da nova maneira de pintar se iniciou na imprensa parisiense, liderada pelo escritor, jornalista e crítico de arte na época, Emile Zola. Ele escreveu inúmeros textos defendendo as obras de Manet, aclamando a arte realizada pelos impressionistas como a mais moderna da época.

    Além das descobertas científicas, os impressionistas foram influenciados também pelas correntes positivistas da segunda metade do século XIX, dando lugar a noções mais "objetivas" e "científicas" da realidade, propiciando maior espaço à experimentação. Monet, por exemplo, se interessava pela influência da luz nos diversos momentos do dia e nas várias estações do ano, pintando sistematicamente séries de quadros de uma mesma paisagem sob diferentes condições luminosas.

    Os efeitos ópticos descobertos pela pesquisa fotográfica, sobre a composição de cores e a formação de imagens na retina do observador, influenciaram profundamente as técnicas de pintura dos impressionistas. Esses artistas já não mais misturavam as tintas na tela, a fim de obter diferentes cores, mas utilizavam pinceladas de cores puras que, colocadas uma ao lado da outra, são misturadas pelos olhos do observador, durante o processo de formação da imagem.

    "O impressionismo abre as portas para a pintura moderna, influenciando todas as gerações seguintes, pela quebra da totalidade, pela fragmentação. Além disso, a informação visual é complementada pelos olhos do observador, no processamento da imagem. A partir do impressionismo o trabalho do artista deixa de ser metafórico" considera Branca de Oliveira , professora de história da arte da Universidade de São Paulo (USP).

     

     

     

     

     

     

    O impressionismo chega no Brasil já consagrado no exterior. O país vivia, então, uma fase nacionalista, em pleno processo de construção de uma legítima "Escola Brasileira de Artes". "A linguagem artística que ecoava com mais força na época era o realismo, por possibilitar a retratação de temas regionais" informa Cláudia.

    Entretanto, as técnicas desenvolvidas pelos impressionistas acabaram influenciando a maneira de pintar de alguns artistas brasileiros. As tendências impressionistas podem ser observadas nas obras de artistas como Almeida Junior, Georgina de Albuquerque, Anita Malfatti, Eliseu Visconti e João Timóteo da Costa. Algumas das obras desses artistas podem ser vistas da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

    As orientações estéticas e a composição das imagens utilizando os princípios impressionistas estão presentes até os dias de hoje nas produções gráficas, na propaganda e em outras formas de comunicação de massa. O impressionismo acabou por influenciar toda a produção artística do século XX, levando também à sua maior popularização. Para a professora da Unicamp, "a arte impressionista é o tipo mais popular de arte e que apresenta um amplo mercado alternativo. É o tipo de pintura mais relacionada à vida moderna."

     

    Luciene Zanchetta