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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.57 no.4 São Paulo Oct./Dec. 2005

     

     

    CINEMA

    OBRA RESGATA HISTÓRIA DAS MULHERES NA INCOFIDÊNCIA

     

    Liberdade, ainda que tardia, e no gênero feminino. O filme Vinho de rosas, o primeiro da cineasta mineira Elza Cataldo, em parte resgata em parte recria a história de Joaquina, filha de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Condenado à morte e enforcado no Rio de Janeiro em 21 de abril de 1792, o pai de Joaquina é personagem conhecida – e controversa – dos livros de história. O movimento de libertação que liderou, a Inconfidência Mineira, figura entre as primeiras tentativas de tornar o Brasil uma república independente de Portugal.

    Quando se trata das mulheres que viveram no mesmo período, porém, a história se apresenta cheia de lacunas. Por isso, a cineasta teve que recorrer também à ficção para "preencher essas lacunas de forma plausível". Na história oficial, elas são relegadas ao papel de coadjuvantes sem voz. No cinema, tornaram-se protagonistas. O padre, o sacristão, o advogado e outros personagens masculinos compõem a narrativa, mas não conduzem o enredo, não são eles que contam a história. "Acho que o olhar feminino traz um novo enfoque à história do Brasil, ao revelar a forma como as personagens femininas se relacionaram com os inconfidentes".

    A cidade de Ouro Preto – antiga Vila Rica – constituiu o principal cenário do filme, da mesma forma como, outrora, serviu de palco a dramáticos eventos do período da mineração. "As edificações históricas de Ouro Preto merecem destaque pela beleza, grandiosidade e riqueza de lembranças", afirma Elza Cataldo. Mas também houve locações em Belo Vale, Paraty e na Serra do Cipó. "Desenvolvi pessoalmente uma pesquisa bastante detalhada de locações e esses lugares corresponderam às características necessárias para a história narrada e à logística da produção do filme". Para a cineasta, o filme contribui para a consolidação da identidade mineira "ao revelar uma das origens de nossa porção conspiratória". Na escolha da equipe de filmagem e do elenco, usou como critérios o comprometimento com o imaginário mineiro, a entrega ao tema e à abordagem proposta. "O projeto nasceu quando descobri que Tiradentes tinha tido uma filha", conta.

     

     

    A FILHA DE TIRADENTES Joaquina vive num convento e, enquanto aguarda o momento de professar seus votos, ajuda uma das freiras, irmã Lúcia, a produzir a bebida que dá nome à película. Quando o dia chega, Joaquina descobre sua identidade, se rebela e é enclausurada. Irmã Lúcia se compadece da condição de sua discípula e a liberta, condicionando a libertação a que Joaquina siga produzindo o vinho depois de sua morte.

    Vagando sem destino pela Serra da Mantiqueira, a ex-futura freira acaba se juntando a uma trupe de artistas, com a qual chega a Vila Rica. Nas mãos, apenas uma garrafa do vinho de rosas. Joaquina fica com os atores na Casa da Ópera, onde passa o primeiro mês fora do convento, habitando precariamente o camarim da atriz Violante Mônica. A trupe deixa a cidade, ela permanece, em busca dos próprios rastros biográficos. Palavras e frases traídas pelos delírios de febre da mãe, além de relatos da mulher de Tomás Antônio Gonzaga, a "Marília de Dirceu", ajudam Joaquina a compor a imagem do pai.

    Na igreja do Carmo – antiga igreja da Nossa Senhora do Pilar – encontra a mãe, Antônia, em estado de miséria e grave doença, sob os cuidados da escrava Maria de Angola. Encontra os livros que inspiraram o pai em sua inglória luta e procura aliviar o sofrimento de Antônia com cuidados ao longo da noite e pequenas doses de seu precioso vinho. Enquanto cuida da mãe, Joaquina tenta reaver as terras de Tiradentes. O advogado cobra caro, mas Joaquina conta com o apoio de Bárbara Eliodora, a poeta, esposa do árcade Inácio José de Alvarenga Peixoto, preso e exilado em Angola. Eliodora tem a posse das terras e conhece as leis. Somente após a retomada das propriedades de seu pai, Joaquina revela a Antônia ser sua filha e ter planos para as terras: o cultivo de uvas e rosas para produzir o vinho que aprendera a fabricar no convento.

    Outros filmes já foram realizados sobre o tema: Inconfidência Mineira, de Carmem Santos (1948); Os inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade (1972); Tiradentes, de Oswaldo Caldeira (1998). "Tenho muito respeito por esses filmes e espero contribuir, também, para tornar o tema mais conhecido e valorizado".

    O vinho de rosas pode ser encontrado, até os dias de hoje, no Convento de Macaúbas, em Santa Luzia, a 25 km de Belo Horizonte (MG).

     

    Flávia Natércia