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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.60 no.1 São Paulo  2008

     

     

     

     

    ARQUITETURA

    Lelé, um construtor de idéias geniais em baixo custo, rapidez e conforto ambiental

     

    Uma construção com estruturas de concreto armado, argamassa e ferro, a partir de técnicas de pré-moldagem, que preze por conforto ambiental. O lugar em questão não é um mero conjunto de prédios de Brasília, mas sim os edifícios da rede Sarah Kubitschek, todos pensados pelo arquiteto João Filgueiras Lima, mais conhecido como Lelé. A semelhança com o trabalho de Niemeyer ou Lucio Costa não é acidental. Todos eles trabalharam juntos na construção da nova capital. O diferencial de Lelé, porém, é o baixo custo e curto prazo. Seus projetos para a construção de edifícios – em particular hospitais – são todos com custos muitos reduzidos, aspecto relevante apenas para um raro grupo de arquitetos que, além de dominarem o ofício de criar e construir, valoriza o lado social das obras.

    Seu traço definido e objetivo nos leva a pensar que tem habilidades inatas para a arquitetura, mas ele próprio já declarou em entrevistas: "coisas inesperadas me levaram a fazer o curso". Nascido de uma família pobre do Rio do Janeiro, Lelé trabalhava como assistente datilógrafo da Marinha quando foi incentivado a fazer arquitetura. Formou-se na Escola Nacional de Belas Artes e logo foi chamado para fazer parte do grupo que construiu Brasília. Na época, viajou por países do Leste Europeu para pesquisar a tecnologia de racionalização do concreto armado (argamassa, ferro e cimento), depois de projetar, juntamente com Niemeyer e sua equipe, o Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília (UnB). Esses primeiros contatos com materiais pré-fabricados foram importantes para obras seguintes, como o Hospital de Taguatinga (1968) e as Secretarias do Centro Administrativo da Bahia (1973).

    Depois do concreto pré-moldado, a partir de 1979 Lelé passa a trabalhar com argamassa armada, ou ferro-cimento na urbanização e melhoria de algumas áreas de ocupação irregular nas encostas de Salvador. Assim, usando placas de argamassa armada (nata de cimento e malha de ferro) para desenvolver peças mais leves e flexíveis, que fossem fáceis de transportar e instalar, ele conseguiu elaborar obras públicas menos invasivas. Afastado dos projetos públicos nos anos 1970, Lelé voltou a fazer intervenções públicas com o projeto da Fábrica de Equipamentos Comunitários (Faec) na década seguinte: desde bancos e contenções de jardim, passando pelas passarelas de pedestres até a construção de escolas e creches. Dentro da Faec, o arquiteto colaborou com o projeto de revitalização do Centro Histórico de Salvador, comandado por Lina Bo Bardi, e produziu obras de intervenção na Casa do Benin e na Ladeira da Misericórdia, também na capital baiana.

     

     

    A diversidade e complexidade dos elementos produzidos nas Faecs a transformaram numa fábrica completa. Além do núcleo produtor das peças de argamassa armada,tem o setor de metalurgia responsável não só pelas fôrmas dos elementos de cimento e ferro, mas também pela estrutura de alguns edifícios e passarelas, tornando este um experimento pioneiro no uso conjunto de aço e argamassa armada.

    Sua atuação na arquitetura hospitalar começou em 1964, depois de sofrer um acidente de carro. Conheceu, então, o médico e colega Aloysio Campos da Paz e pensou em projetar hospitais que dessem maior autonomia ao paciente. Essa idéia evoluiu até, em 1980, ser inaugurado em Brasília o primeiro hospital da rede Sarah, especializado na reabilitação de pessoas com problemas físico-motores. A integração entre arquitetura e medicina é especialmente potencializada nesse tipo de obra, que permite criar espaços alternativos de terapia e cura.

    Lelé trabalhou por muito tempo em projetos públicos arquitetônicos, porém, como seu método construtivo é rápido e de baixo custo, passou a sofrer boicotes. Hoje, o arquiteto só trabalha nos hospitais da rede Sarah, afirma a pesquisadora Anália Amorin, professora da Faculdade de Urbanismo e Arquitetura Escola da Cidade. Ela já fez vários cursos com o arquiteto e o considera um dos mais importantes e significativos pensadores do espaço na atualidade. "Sua principal qualidade é aliar a construção de prédios à formalização do elemento que compõe o próprio edifício. Ele pensa, desde a maca que será utilizada pelo paciente no hospital até na espessura da viga que sustenta o prédio. E ainda produz os materiais envolvidos nos dois processos", conclui.

     

    Lívia Botin