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Ciência e Cultura

On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol.65 no.4 São Paulo  2013

https://doi.org/10.21800/S0009-67252013000400024 

 

Marcus Fabiano Gonçalves

 

DRUMMOND, FARMACÊUTICO

HOMO FABER
HOMO LOQUENS

na usinagem das anginas, o melhoral:
do neurônio à reles bactéria digestiva
bálsamo para as dores que excruciam
no manejo livre
da mão sem trilha
a menor mandíbula
que fala ou mastiga

contra as tênias do tédio, o vermífugo
que clareia a fosca alameda dos cinzas
e ladrilha uma vereda com pedrinhas

à flor da pele doída
outro dente de leite
rasgando a gengiva

o velho tônico de combate à anemia:
o ferro do sangue, o mesmo da mina
sabendo a bílis negra da melancolia
e que fosse prazo
ou siso à sua guisa:
tempo - hemorragia q
ue é a própria vida

e para os achaques de asma ou mialgias
a melhor cânfora que arrepia as plumas
ali onde é mais viva a nossa carne crua.

ou mesmo poesia:
a inútil pedra polida
amolando os sentidos
que a fala não afia.

 

SPAGHETTI WESTERN

por três segundos, naqueles fotogramas da sétima arte, só um coldre sobre o catre. um corte para o vilão (carranca de bebeu vinagre) e dois índios impávidos (mexicanos de forte-apache). na tomada alguns agaves e pelotas de feno pela rua do combate. quatro closes alternados completam a sequência do face a face e o tema do suspense encaminha-se para o ápice. as mãos rápidas e então os saques: cai o mocinho sem acreditar que seu Smith & Wesson engasgue. agora entendes a insistência na imagem? tiraram as balas do revólver do coldre sobre o catre. velhos truques da dramaticidade: bandido bom, melhor se for covarde.

 

Marcus Fabiano Gonçalves (1973) é gaúcho e mora no Rio de Janeiro, onde é professor da Universidade Federal Fluminense. Os poemas desta seleção pertencem ao seu segundo livro de poesias, Arame Falado (7Letras). O autor também publica ensaios e inéditos no blog Arame Falado, no endereço: marcusfabiano.wordpress.com