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Ciência e Cultura
Print version ISSN 0009-6725On-line version ISSN 2317-6660
Cienc. Cult. vol.77 no.3 São Paulo July/Sept. 2025
http://dx.doi.org/10.48207/2317-6660.20250048
10.48207/2317-6660.20250048
OPINIÃO
Biodiversidade e o paradoxo urbano: Como conciliar cidades e biodiversidade diante das mudanças climáticas
Sueli Angelo FurlanI
IProfessora do Departamento de Geografia da FFLCH- USP, além de pesquisadora e orientadora nos programas de pós-graduação em Geografia Física - DG-FFLCH-USP e Ciências Ambientais PROCAM - IEE/USP e coordenadora do Laboratório de Climatologia e Biogeografia.
Vivemos um paradoxo: embora dependamos de milhares de formas de vida que compõem a biodiversidade, as atividades humanas têm ameaçado essa riqueza natural suprimindo habitats e levando à extinção milhares de espécies.[1, 2] A destruição de habitats gera desequilíbrios e degradação ambientais, proliferação de doenças e invasões bióticas, expondo a humanidade a riscos que podem resultar na perda de inúmeras vidas. O que se perde por extinção é irrecuperável, mas ainda é possível mitigar danos, criando condições para a sobrevivência dos ecossistemas remanescentes e para a (re)criação de habitats.
A proteção da biodiversidade é, portanto, fundamental. Mas será possível conciliar esse esforço nas cidades? As cidades podem se tornar ecologicamente viáveis para a biodiversidade, criando e protegendo habitats?
De acordo com Wilson,[3] a biodiversidade corresponde à multiplicidade de formas de vida que habitam a Terra incluindo organismos microscópicos, plantas e animais e se expressa em diferentes dimensões: genética, de espécies, de ecossistemas e nas interações ecológicas que asseguram o equilíbrio dos ambientes. Podemos incluir ainda os arranjos das paisagens e o patrimônio natural como expressões espaciais dessa diversidade.
Esse conceito envolve toda a vida no planeta, inclusive os seres humanos, que ao longo de sua história moldaram a natureza, dando origem ao que se denomina sociobiodiversidade e agrobiodiversidade. A sociobiodiversidade é a ligação entre a diversidade biológica e a diversidade sociocultural. Toda a vida está interligada e interdependente em múltiplas escalas, o que torna a conservação uma estratégia essencial para manter os ecossistemas e suas funções vitais: fornecimento de alimentos, água e medicamentos, regulação climática, purificação do ar, polinização e controle de pragas, entre outros.
Entretanto, as atividades humanas têm acelerado a degradação, especialmente nos séculos XX e XXI. Isso exige ações urgentes de conservação para frear a perda de habitats e ampliar a sobrevivência dos seres vivos. Alguns conceitos aplicados às cidades vêm sendo desenvolvidos no sentido de enfrentar seus desafios.[4]
No século XX, diferentes abordagens buscaram integrar natureza e urbanização. No campo científico e político, surgiram metáforas que ajudaram a traduzir a importância da natureza nas cidades: florestas urbanas (FU), serviços ecossistêmicos (SE), infraestrutura verde (GI) e, mais recentemente, soluções baseadas na natureza (SBN).[5] (Figura 1)

Esses conceitos não são excludentes e representam uma sequência de alternativas que vêm sendo gestadas há muito tempo. A arborização urbana, por exemplo, historicamente articulou saberes de várias disciplinas para maximizar os benefícios das árvores nas cidades a custos não tão dispendiosos. Hoje, ela se conecta às SBN, à infraestrutura verde e aos serviços ecossistêmicos, oferecendo ferramentas concretas para enfrentar os desafios urbanos. Mas, apesar de muitos esforços, a urbanização enfrenta desafios que concorrem com a capitalização de todos os espaços urbanos, dificultando soluções ambientais que ajudem a minimizar os efeitos de emergências climáticas.
"As cidades não são inimigas da natureza: podem ser refúgios de biodiversidade se planejadas de forma integrada e inclusiva."
Estimativas recentes da ONU-HABITAT apontam que a população urbana já ultrapassa os 4 bilhões de pessoas, ou seja, mais da metade dos habitantes do planeta.[6] As projeções indicam que esse percentual deve atingir cerca de 68% até 2050, reforçando a urgência de pensar políticas urbanas que conciliem crescimento populacional e conservação ambiental. O relatório Cidades Mundiais 2024 trata das mudanças climáticas que já estamos vivendo e da urgência de medidas para tornar as cidades menos perigosas e desiguais, indicando que as cidades estão à frente das abordagens inovadoras e coordenadas por comunidades, que demonstram capacidade de criar processos colaborativos e inclusivos para a ação climática.[7]
Além disso, muitas cidades ainda conservam fragmentos naturais de cobertura vegetal relevantes. São Paulo, por exemplo, abriga em seu território 30% de remanescentes de Mata Atlântica, cerrados e campos, embora distribuídos de forma desigual. Outras soluções vêm sendo apontadas em estudos urbanos, como quintais residenciais, jardins drenantes, parques e praças que podem funcionar como refúgios para fauna e flora, desde que planejados com espécies nativas e integrados em corredores ecológicos.
Estratégias para as cidades biodiversas
Entre as experiências em curso estão as microflorestas (como as "florestas de bolso"), inspiradas no método Miyawaki,[8] a renaturalização de rios e áreas verdes,[9] a arborização com espécies nativas e o fortalecimento de corredores ecológicos.[10] Tais estratégias ampliam a biodiversidade, aumentam a resiliência climática e reduzem desigualdades socioambientais. (Figura 2)

Essas soluções dependem, no entanto, de dois fatores fundamentais: a integração ao planejamento urbano e ambiental com políticas públicas consistentes, e a educação ambiental com participação social, por meio de projetos comunitários e escolares que envolvam as comunidades nos problemas e soluções locais no espaço urbano.
Cidades podem e devem ser planejadas de forma a reconciliar sociedade e natureza, tornando-se ecologicamente sustentáveis, economicamente produtivas, socialmente justas e culturalmente vibrantes. Políticas de educação ambiental são essenciais nesse processo.
"O paradoxo urbano revela que a mesma urbanização que degrada também pode criar oportunidades de regeneração ecológica."
Por outro lado, ferramentas de planejamento como o Índice de Biodiversidade das Cidades (IBC) permitem avaliar a biodiversidade urbana, considerando indicadores sobre espécies nativas, serviços ecossistêmicos e governança. Algumas cidades do mundo têm adotado esse índice como referência para o planejamento de áreas verdes. Em São Paulo, esse monitoramento é feito desde 2019 pelo BioSampa, instrumento da Prefeitura Municipal que acompanha 23 indicadores de biodiversidade, serviços ecossistêmicos e governança ambiental.[11] O BioSampa adota o City Biodiversity Index (Singapore Index),[12] metodologia internacional recomendada pela Convenção sobre Diversidade Biológica da ONU, que possibilita comparar a realidade paulistana com a de outras cidades globais. Os resultados oferecem subsídios técnicos para o planejamento de estratégias de conservação e recuperação ambiental em escala municipal e regional.
Por outro lado, esse modo de produzir política também precisa ser compartilhado com a sociedade. Estudos em cidades brasileiras, como São José dos Campos (SP),[13] revelaram avanços em biodiversidade e cobertura vegetal, mas também desafios relacionados à governança, orçamento reduzido e carência de ações educativas de longo prazo. Uchiyama e Kohsaka [14] avaliaram a aplicação do IBC e concluem que os resultados são positivos para a biodiversidade nativa, mas apresentam deficiências na proteção de serviços ecossistêmicos e na governança de modo geral.
"Reconstruir o elo entre sociedade e natureza é condição essencial para enfrentar a crise climática no espaço urbano."
Soluções baseadas na Natureza e mudanças climáticas
As soluções baseadas na natureza (SBN) despontam como alternativas para mitigar efeitos extremos, ao mesmo tempo, em que criam habitats. Com a intensificação das mudanças climáticas, as cidades serão cada vez mais impactadas. Entre as iniciativas de SBN, destacam-se jardins de chuva, telhados verdes, parques lineares e experiências de agricultura urbana. Essas ações mobilizam processos ecológicos para reduzir riscos, regular temperatura e melhorar a qualidade da água e do ar.[15, 16]
Na América Latina, iniciativas de renaturalização de rios como as desenvolvidas em cidades colombianas evidenciam tanto avanços em termos de recuperação ambiental quanto dilemas sociais, já que podem gerar processos de gentrificação e acentuar desigualdades territoriais se não forem acompanhadas por políticas inclusivas.[17]
Considerações finais
O Brasil, que abriga entre 15% e 20% da biodiversidade mundial, tem enorme potencial para integrar conservação e urbanização. A biodiversidade urbana não se restringe a áreas legalmente protegidas: está presente em praças, jardins, quintais, hortas e fragmentos florestais.
O planejamento ambiental, aliado à arborização estratégica e ao uso de espécies nativas, pode transformar as cidades em espaços mais verdes, resilientes e biodiversos. Ferramentas como o Índice de Biodiversidade das Cidades (IBC), já aplicadas em cidades brasileiras, oferecem parâmetros importantes para orientar políticas públicas. Frente à urbanização crescente e às mudanças climáticas, reconciliar sociedade e natureza nas cidades não é apenas desejável, mas essencial para garantir qualidade de vida e sustentabilidade ecológica.
REFERÊNCIAS
[1] BARNOSKY, A. et al. Has the Earth's sixth mass extinction already arrived? Nature, v. 471, n. 3, p. 51-57, 2011.
[2] MEGA, Orestes Jayme. A catastrófica ecologia do Antropoceno: uma abordagem arqueológica da Sexta Extinção em Massa. Revista Arqueologia Pública, v. 19, p. e24004, 2024.
[3] WILSON, Edward O. Biodiversity. Washington: National Academy Press, 1988.
[4] MARTINS, R. C.; PEREIRA, P. H. (orgs.). Biodiversidade Urbana no Brasil: Desafios e Perspectivas. São Paulo: Annablume, 2021.
[5] ESCOBEDO, Francisco J. et al. Urban forests, ecosystem services, green infrastructure and nature-based solutions: Nexus or evolving metaphors? Urban Forestry & Urban Greening, v. 37, p. 3-12, 2019.
[6] UNITED NATIONS. World Population Prospects 2024. Department of Economic and Social Affairs, Population Division. New York: UN, 2024. Disponível em: https://population.un.org/wpp/. Acesso em: 5 set. 2025.
[7] SANTOS, R. F.; JACOBI, P. R. (orgs.). Cidades e Soluções Baseadas na Natureza. São Paulo: Annablume, 2022.
[8] MIYAWAKI, A. Restoration of urban green environments based on the theories of vegetation ecology. Ecological Engineering, v. 11, n. 1-4, p. 157-165, 1998.
[9] DA SILVA TAVARES, Luiza Paula et al. Water management and urban flood mitigation: studies and proposals for the Macaé River Basin in Brazil. Journal of Urban and Environmental Engineering, v. 12, n. 2, p. 188-200, 2018.
[10] SILVA, N. N.; FRANCISCO, B. S. S.; SARTORELLO, R. Análise da estrutura da paisagem do corredor ecológico proposto no município de Mogi das Cruzes, SP. Revista Científica UMC, v. 5, p. 1-5, 2020.
[11] PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO. BioSampa: Indicadores de Biodiversidade Urbana da Cidade de São Paulo. Secretaria do Verde e do Meio Ambiente, 2023. Disponível em: https://www.prefeitura.sp.gov.br. Acesso em: 5 set. 2025.
[12] UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). City Biodiversity Index (Singapore Index). Singapore, 2010.
[13] SENA, Roberta Mastrângelo et al. Aplicação do Índice de Biodiversidade em Cidades para o Município de São José dos Campos, SP. Revista Biociências, v. 25, n. 1, 2019.
[14] UCHIYAMA, Yuta; KOHSAKA, Ryo. Desenvolvimento e evolução de indicadores e ferramentas de avaliação da biodiversidade urbana. In: Manual Routledge de Biodiversidade Urbana. Routledge, 2023. p. 379-387.
[15] BANCO MUNDIAL. Nature-Based Solutions for Disaster Risk Management. Washington: World Bank, 2017.
[16] IUCN. Guidelines for Using Nature-based Solutions. Gland, Switzerland: International Union for Conservation of Nature, 2020.
[17] PRADILLA, Gonzalo; HACK, Jochen. An urban rivers renaissance? Stream restoration and green-blue infrastructure in Latin America-Insights from urban planning in Colombia. Urban Ecosystems, v. 27, n. 6, p. 2245-2265, 2024.












