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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.1 São Paulo jun./set. 2002

     

     

    MODELOS MATEMÁTICOS

    Poesia rima com Física?

     

    A polêmica é certa. É possível usar técnicas baseadas em princípios físicos e matemáticos para estudar poesia clássica? Um matemático e um especialista em poesia clássica, ambos mexicanos, conseguiram “misturar” essas áreas de pesquisa que aparentemente são completamente opostas: Física, Poesia e Matemática. Os pesquisadores desenvolveram algoritmos matemáticos, usando técnicas comuns em Física estatística, para quantificar a “complexidade” de poemas clássicos, gregos e latinos. Eles mapearam amostras enormes de poemas clássicos, transformando as sílabas em séries temporais simbólicas, para poder caracterizar as sucessões regulares de ritmos, ou seja, estruturas de sílabas acentuadas e não acentuadas conjugadas a sucessões de vogais longas e breves em um dado verso.

    Para começar, os pesquisadores selecionaram a sua amostra decidindo analisar os cem primeiros versos de quatro poemas gregos (Ilíada e Odisséia, de Homero, Trabalhos e Dias de Hesíodo e Idílios de Teócrito) e os cem primeiros versos de quatro poemas latinos (Eneida e Geórgicas de Virgílio, Metamorfoses de Ovídio, e Sobre a Natureza de Lucrécio).

    Esses poemas utilizam versos conhecidos como hexâmetros, que são versos de seis “pés” - unidade tradicional de medida do verso grego e latino -, dos quais os quatro primeiros podem ser dáctilos ou espondeus, o quinto é dáctilo, e o sexto é espondeu ou troqueu. Essa terminologia corresponde tradicionalmente à duração da sílaba (breve ou longa), e se é acentuada ou não. A sílaba longa está sempre no início do pé, e é sempre acentuada, enquanto as sílabas curtas não são enfatizadas.

    Esse tipo de construção possibilitou a “tradução” dos poemas em um alfabeto específico, composto por apenas três algarismos, no qual zero representa uma sílaba longa, um representa uma sílaba breve, e dois representa uma pausa métrica que divide um verso (cesura). Apesar da existência de certas regras que determinavam a colocação de cada elemento, a arte do poeta consistia, de certo modo, em misturar e subverter as permutações permitidas em uma dada composição, que apesar de manter um dado pulso continha variações agradáveis ao ouvido, por exemplo.

    Uma vez feita a tradução, os pesquisadores utilizaram técnicas computacionais usadas em teoria da informação, especialmente o conceito de entropia de Renyi, que é uma medida da quantidade de desordem em longas seqüências de informação. Esse tipo de análise surgiu na década de 1940, a partir de estudos em telecomunicações, e revela quão organizadas ou complexas são as estruturas analisadas. Técnicas similares para o estudo de seqüências simbólicas foram usadas recentemente por físicos para analisar as informações contidas em DNA, por exemplo.

    Por essa análise, os autores constataram que os padrões rítmicos na poesia grega evoluem para padrões mais complexos na poesia latina. Essa “complexidade” maior indica que os autores latinos não seguem exatamente as regras dos versos hexâmetros com tanta freqüência quanto os gregos.

    Entretanto, ao utilizar conceitos de áreas tão diferentes, um cuidado especial deve ser tomado. Talvez a palavra “complexidade” não seja a mais apropriada para descrever essa análise. Alguns classicistas acreditam que os hexâmetros latinos são menos complicados que os gregos, ao contrário da conclusão dos mexicanos. Apesar das controvérsias, os autores querem aproveitar o desenvolvimento do algoritmo para tentar estudar questões ainda em aberto no campo de poesia clássica.

    O professor Marcos Pereira, do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, lembra que há estudiosos de poesia que quantificam as análises dos versos para auxiliar em seu estudo. Pereira identifica diversos problemas nesse tipo simplificado de análise, que não leva em conta todas as variáveis envolvidas na leitura e entendimento de um poema. Ele afirma que “há mais de uma leitura possível para um certo verso”, o que complica enormemente a sua “tradução” em uma mera seqüência numérica. Além disso, em uma análise desse tipo é impossível discutir a “complexidade” de um verso, pois não é considerada a importante questão da relação entre a forma e o conteúdo do poema, por exemplo. Mas o professor concorda que a análise é interessante, e pode ser um elemento novo no estudo da poesia clássica.

     

    Texto original:

    http://arxiv.org/abs/cond-mat/0203135

    Baseado em:

    The Physics of Classical Poetry, Physics Web, 25/03/02 por Peter Rodgers http://physicsweb.org/article/ news/6/3/18

    Greeks Were Slaves to the Beat, Nature Science Update, 22/03/02 por Philip Ball - http://www.nature.com/nsu/020318/020318-9.html#1

    Did Homer Have Help?, ScienceNOW, 25/03/2002 por Erica Klarreich http://sciencenow.sciencemag.org/cgi/content/full/2002/325/3