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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.54 no.1 São Paulo June/Sept. 2002

     

     

    A GUERRA SEM FIM EM ALGUNS BAIRROS DO RIO DE JANEIRO(1)

    Alba Zaluar

     

    O debate público sobre a violência esbarrou em duas afirmações repetidas acima de dados empíricos, portanto da ordem da retórica, mais do que da análise: o problema maior, senão o único, seria a violência policial; não existiria crime organizado no Brasil visto não haver nenhuma definição consensual do conceito. Ora, também não há definição acordada sobre o que é sociedade, democracia, classe social, desigualdade e, principalmente, justiça. Não se trata, pois, de negar a violência difusa e focal que todos conhecem pelos seus efeitos trágicos, sofridos, cruéis, mas compreender a lógica que preside esse negócio ilegal, baseado na intimidação, na extorsão e no terror, e essa guerra que não se sabe como classificar, pois escapa das definições e dos padrões conhecidos de guerra civil ou internacional. Que guerra é esta em que armas leves e pequenas, que até crianças podem carregar, atingem qualquer um, sem aviso, sem defesa, sem consolo? Que guerra é essa que nega o monopólio legítimo da violência pelo Estado, com a pulverização de organizações privadas de segurança e organizações criminosas e terroristas? A logística em fluxos e redes e as fraturas múltiplas em comandos, quadrilhas, “bondes”, forças policiais, justiceiros e pistoleiros. Por detrás disso tudo, pouco investigado e pouco conhecido, o capitalismo das sombras que opera no mercado negro das armas e das drogas, misturando promiscuamente negócio legal e ilegal. Essa economia das trevas é transnacional, como o terror que a preside.

     

     

    Nesse artigo o alcance é delimitado empiricamente. Trata-se de entender por que a guerra estendeu-se com mais facilidade em alguns bairros e não em outros da mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Entre algumas favelas, onde vivem principalmente, mas não somente, pobres, e não em outras. O trabalho de campo realizado em três bairros – Copacabana, Tijuca e Madureira – permitiu compreender as conexões entre estilos de lazer e consumo de drogas, estilos de tráfico e de policiamento (ou ausência de), entre corrupção policial e violência.

    Apesar de ser o bairro com o maior percentual de idosos e adultos, Copacabana está longe de ser um bairro conservador ou convencional. Além de importante centro turístico e de boemia da cidade, o anonimato, o cosmopolitismo e a tolerância, além da licenciosidade, marcam o bairro desde o seu início pela convivência de pessoas de diferentes idades, opções sexuais, etnias, raças e classes sociais. Esse aspecto foi acentuado pela propaganda em torno do seu potencial turístico que continua atraindo pessoas de toda a parte da cidade, do Estado, do país e do mundo a visitá-lo. Os entrevistados repetiram de muitas formas que “Você vê tudo num lugar só, tudo misturado. Prostituta, homossexual e travesti. Você vê pobre, rico, mendigo, pivete. Você vê tudo”. Se essas características facilitam o aparecimento de tais desvios ou comportamentos pouco convencionais, não explicam a menor incidência de crimes violentos contra o patrimônio e contra a pessoa. Portanto, a teoria das zonas morais não poderia explicar o que acontece hoje no Rio de Janeiro.

    O público usuário dos serviços das prostitutas geralmente é externo ao bairro: ou turista, nacional ou estrangeiro, ou, se for carioca, vem de outros bairros da cidade. Copacabana, nos estabelecimentos ligados à prostituição, assim como nos quiosques na orla, apresenta uma presença marcante de forasteiros. Isso marca uma diferença crucial em relação a outros bairros da cidade. São muitos os bares, restaurantes, boates e clubes noturnos onde o serviço sexual e o consumo de drogas são conjuntos. Abundam os “vapores” e repassadores, assim como usuários forasteiros em busca de variada diversão. Mas não é uma característica de todo o bairro que tem, como veremos mais adiante, pontos de lazer e de venda de drogas ilegais freqüentados quase que exclusivamente por moradores do bairro. Nestes pontos, até mesmo os “vapores” são de favelas dali.

    A Tijuca apresentou, ao longo de sua história, um forte caráter residencial e familiar, não pertencendo ao seu estilo vida noturna agitada e o anonimato, apesar das três importantes agremiações carnavalescas que sempre realizam seus ensaios nos meses mais quentes do verão. A maior presença relativa de adultos e idosos reforça a imagem conservadora pela qual o bairro tornou-se conhecido na cidade, o que vem provocando a ida de jovens, com novos estilos de consumo, inclusive musicais, mais identificados com as novas tendências do consumo globalizado, para a Barra da Tijuca e para a Zona Sul. Assim, ao se percorrer algumas ruas transversais nos primeiros minutos da madrugada, observa-se um ambiente provinciano que, de tão tranqüilo, por sua vez, oferece um grande contraste com algumas áreas do mesmo bairro escolhidas pelos jovens, que ainda permanecem no bairro, como ponto de encontro.

    Nos anos 80, houve uma virada e a Tijuca tornou-se menos pacata. A vida noturna do bairro apresentava uma quantidade significativa de bares com música ao vivo, característica marcante do estilo da noite tijucana nessa época. Numa mesma noite de fim de semana nessa década podia-se freqüentar de quatro a cinco bares que apresentavam, até de madrugada, espetáculos musicais variados, na maioria com músicos locais. Foi naquela época que ocorreu, simultaneamente e não por acaso, o chamado boom da cocaína, sendo a Tijuca, pela quantidade de morros existentes em seus domínios, uma região onde se desenvolve velozmente o tráfico de drogas. Nos anos 90, o panorama sociocultural sofre, segundo depoimentos, sensíveis transformações em virtude de pelo menos quatro fatores: a queda do poder aquisitivo de alguns segmentos da população local, o êxodo de moradores para a Barra da Tijuca e de favelados para outras áreas da cidade, a proliferação dos shoppings-centers e a difusão do movimento funk, este como alternativa de lazer para o jovem das classes populares, que são realizados nas favelas e clubes do bairro e em outros dos subúrbios, tal como acontece em Madureira. A Tijuca já havia se tornado, então, um bairro considerado “violento”.

    Em todos os morros da Tijuca ocorrem bailes funk nas sextas-feiras. A valorização de uma postura agressiva entre os jovens que os freqüentam, a desavença entre galeras, o intenso tráfico e o consumo de drogas ilegais nos morros que promovem os bailes – nos quais a “segurança” é realizada pelos próprios traficantes – são elementos que alteram o panorama social da Tijuca. Paralelos a esses bailes, grupos de pagode, que reúnem pessoas de todas as idades, se apresentam nesses locais. Tanto num como noutro, usa-se drogas ilegais e conta-se com o apoio (nem sempre ostensivo e sabido) ou, até mesmo, a presença de traficantes. Como os morros são próximos uns aos outros e pertencem a comandos diferentes, não é mais possível freqüentar sem problemas os ensaios, pagodes e bailes em qualquer favela. É preciso saber antes se a favela não é de comando inimigo, o que pode significar a morte do jovem intruso em busca de diversão.

    Em Madureira, a droga não é tão visível e fácil de conseguir tal como em Copacabana. Aliás, ao contrário de Copacabana: “não é possível flanar em Madureira”. Não é natural ao bairro que as pessoas fiquem andando sem rumo certo; uma vez na rua, têm um destino certo: podem estar saindo de cultos de igrejas, indo a bailes, festas ou bares. Como o espaço é demarcado militarmente pelos comandos que controlam os morros, é preciso muito cuidado por onde se anda para não cair nas mãos de “alemães”. Além disso, as ruas do bairro são pouco iluminadas e inseguras à noite. O lazer preferido, com rumo certo, concentra-se nos bailes “charme” nos clubes, pagodes nas quadras de escolas de samba e nos bailes funk em favelas. Segundo os relatos de entrevistados, existe uma certa dificuldade para sair e circular por outros bairros. Além da falta de dinheiro para transporte, afirmam ainda que estas saídas ficam condicionadas ao seu local de origem, ou seja, para estes entrevistados os bairros e as favelas dividem-se inescapavelmente entre “amigos e alemães”. Só freqüentem locais cujo comando do tráfico seja aliado de sua comunidade de origem, pois pode ser fatal, e muitas vezes o é, freqüentar locais de comandos diferentes. É isso que faz de Madureira um bairro “partido”.

     

     

    Esse fato, sem dúvida, contribui para que o bairro seja aquele que exibe as taxas mais altas de crimes violentos, sobretudo de homicídios, que envolvem os jovens como autores e vítimas. Mas não explicaria a alta incidência de roubos e outros furtos, já que sua população, além de jovem, é mais pobre. O que nos faz duvidar ainda mais da teoria “das zonas morais”, difundida pela Escola de Chicago na década de 20, é o ambiente, descrito pelos seus moradores como “um local onde todos se conhecem”, o que lhe dá um caráter de rede quase fechada, característica dos grupos primários nos quais o controle social informal seria maior. Não há nem o anonimato nem a licenciosidade encontrados em Copacabana que, segundo esta teoria, deveria apresentar as mais altas taxas de criminalidade. A questão, portanto, não parece ser nem o anonimato, nem a impessoalidade, nem a anomia nas relações sociais, mas sim a falta de regras, e o conteúdo violento das novas práticas que vão se impondo sobre os mais fracos no vazio institucional que se forma a partir das transações entre a economia subterrânea, as organizações locais e as instituições supostamente encarregadas de manter a lei e a ordem.

    O “charme” (assim como o funk) é um estilo musical que tem como referência a influência da cultura musical dos negros norte-americanos, tiveram na cena jovem popular do Rio de Janeiro no final da década de 70. Essa influência musical, acompanhada da dança e de um modo de vestir peculiar, teve um enorme impacto sobre o comportamento dos jovens que freqüentavam os “bailes da pesada” realizados na Zona Sul da cidade, onde se ouvia de “tudo”, do soul ao rock. Na pesquisa, confirmou-se a afirmação recorrente sobre os “charmeiros”: “no charme não tem briga”, nem uso de drogas nas dependências do clube. Os charmeiros se autodefinem como pessoas que gostam de curtir a música e são exímios dançarinos. Vestem-se elegantemente, num estilo conservador, denominado “social”. Este vestuário tinha a finalidade de sinalizar uma diferença com os grupos que levam “dura” da polícia, a saber, os funqueiros. Comparado aos bailes funk, o público do charme é também um pouco mais diversificado geracional e socialmente, ou seja, no baile “charme”, que se realiza em clubes, vão adolescentes, mães de adolescentes, charmeiros “da antiga” e, ao que tudo indica, pessoas que trabalham e podem ser classificadas como de classe média baixa, tais como camelôs, seguranças, auxiliares de escritório, que têm escolaridade até o segundo grau. Há, portanto, dentro do baile, o controle social informal que é exercido pelos adultos sobre os mais jovens, o que atua como antídoto às fortes lealdades dentro dos grupos fechados de jovens, tais como galeras e gangues. Há também maior orientação para o trabalho ou à profissão, apesar da importância que assume essa atividade de lazer na identidade social e pessoal dos freqüentadores. Não há galeras no charme.

    No baile funk, ao contrário, a presença de galeras é parte constituinte do baile. A divisão do lado A e B é que vai lugar às disputas de dança e de luta que ocorrem durante o baile. Seus freqüentadores, mais jovens e sem forte ligação com o trabalho, a profissão ou a escola, desenvolvem o etos da masculinidade que os obriga a se mostrarem corajosos nos bailes e brigar, especialmente naqueles que são montados para isso, com a divisão entre o lado A e o B, e os “quinze minutos de alegria” da pancadaria permitida. Como afirmaram entrevistados: “… hoje em dia você tem que ir pro baile bater nos outros pra mostrar pra sua namorada (ou para os colegas) que você é machão”.

    A presença e, às vezes, a interferência do tráfico de drogas é facilmente percebida nos bailes funk, especialmente os chamados "de comunidade" por serem realizados dentro de uma favela específica, com a autorização dos traficantes que os financiam. O uso do nome da associação de moradores local serve para oficializar o baile diante do 9º Batalhão que irá expedir a autorização para que o baile aconteça. A equipe de som é contratada, em princípio, pela ‘associação de moradores’, muitas vezes financiada pelo “dono da boca de fumo”, por extensão “dono do morro”. O clima é menos tenso, pois todos se conhecem por serem moradores do local ou de locais de “comandos amigos” e não há brigas. Mas os DJs podem se ver entre pressões conflitivas que os colocam em situações difíceis, às vezes exasperadoras, nas quais arriscam a vida. Policiais costumam chegar para cobrar dinheiro do traficante na realização do baile, mandando o DJ interrompê-lo até que o traficante pague. O traficante, quando percebe o baile parado, manda chamar o DJ e ordena que ele recomece. Entre duas ordens irrecorríveis, o DJ só pode esperar que policial e traficante cheguem a um acordo quanto ao pagamento ou não da propina. Isso porque, durante o baile, a droga flui livremente, sendo usada de modo público.

    A vestimenta utilizada pelas moças é mínima, exibindo partes do corpo que vão dar o caráter hipersexualizado do baile. Mesmo em dias muito frios, as moças usam short e top como se estivessem à beira da praia no verão. Os traficantes circulam pelo baile e o uso de drogas não é discreto. O público é mais homogêneo, isto é, adolescentes, crianças, moradores do local, todos, ao que tudo indica, com baixos rendimentos. Por causa da violência dos bailes, muitos relatos recolhidos atestam a preferência por bailes funk de comunidade, onde os jovens encontram proteção e segurança contra a presença de “alemães” ou inimigos de facção. Apesar desta segurança, muitos relatam a existência de brigas e mortes provocadas durante tais bailes e na saída deles. Entrevistados falaram do medo de ir nesses bailes e perder um amigo integrante de seu grupo de dança ou galera nos tiroteios que se seguem.

    Por causa dessa associação estreita com traficantes nos bailes da comunidade e por causa da representação ritual da guerra entre quadrilhas e facções que acontece no baile, é possível afirmar que o baile funk, muito mais comum em Madureira do que na Tijuca e Copacabana, condiciona ou prepara os jovens para a guerra que enfrentam nas favelas da cidade. Ali aprendem os valores da coragem no combate e da indiferença diante do sofrimento do inimigo. Tornam-se “durões”, ou “machões”.

    Apesar de tamanhas diferenças nos circuitos de lazer, não foi propriamente em relação aos estilos de consumo de drogas que os usuários freqüentadores dos três bairros se distinguiram. Neles notou-se sempre a busca da privacidade e de um uso discreto para “não dar na vista” nem assustar os demais freqüentadores dos mesmos locais de boemia, fosse por causa da repressão policial ou porque todos se conhecem no bairro e a família do usuário acabaria tomando conhecimento de seu “vício”. Nesses casos, os usuários procuram não exceder na quantidade para não “dar bandeira”: olhos arregalados, agitação, descontrole emocional etc.

    Na verdade, o estilo de uso observado nos locais públicos, onde jovens e adultos se divertem, nos três bairros, poderia ser descrito como predominantemente de uso social. Em lugares públicos como quiosques, restaurantes, bares e bodegas, o comportamento controlado do usuário é valorizado por todos, inclusive pelos traficantes com os quais usualmente transacionam. Nas boates, ensaios de escolas de samba e bailes, há locais “menos públicos” onde os usuários podem ficar à vontade. Isso não quer dizer que não existam usuários “pesados”, mas estes passam por sérias dificuldades no relacionamento com os demais usuários e mesmo com os traficantes, que não os respeitam nem os apreciam em tais locais mais abertos por causarem distúrbios, chamando a atenção da polícia, além de problemas no pagamento das dívidas. Como o consumo de drogas ilegais é antigo nos três bairros, há uma socialização no estilo de uso que não provoca escândalos ou demasiada visibilidade. Antigos usuários ensinam aos novos a maneira mais adequada de usar a droga, evitando os danos e riscos associados a ela.

     

     

    Por causa desse estilo predominantemente apreciado, ao construir a sua própria imagem, o usuário de Copacabana ou da Tijuca ou ainda de Madureira evita classificar-se como alguém dominado pela droga ou capaz de qualquer coisa para obtê-la, escapando dos estereótipos do marginal. Somente aqueles que foram entrevistados quando já estavam sob tratamento admitiram o vício e a associação com outras práticas criminais. Essa construção do usuário social, mesmo entre consumidores de cocaína, falava no “comedimento”, na possibilidade de “parar quando quiser”, no uso noturno ou em situações festivas, para diferenciar do “viciado” que seria desmesurado, compulsivo, e começaria a “usar já pela manhã”, além de combiná-la com outras, num uso múltiplo de drogas legais e ilegais que combinavam principalmente álcool e cocaína.

    Hoje os rituais sociais não mais criam laços especiais entre os usuários, pois o consumo apresenta-se simplificado, agilizado e adaptado ao ritmo do espaço urbano, ocorrendo de forma rápida. Vai-se até um canto mais protegido – um orelhão na Tijuca, a praia em Copacabana, a entrada do morro em Madureira – e consome-se a droga em curto tempo. Por outro lado, diferentemente do que ocorria no passado em espaços da intimidade, não há registros de consumo de drogas por via intravenosa nos locais públicos hoje freqüentados pelos usuários mais práticos e mais preocupados com a visibilidade.

    No caso específico da maconha e da cocaína, verificou-se a importância do grupo e do ambiente na decisão de consumi-las e na continuidade do uso. Todos os entrevistados que experimentaram drogas ilegais – permanecendo ou não como usuários – registraram que a primeira experiência ocorreu em situações coletivas, às vezes em momentos não corriqueiros, tais como acampamentos, viagens e festas. Por isso mesmo, aqueles que interromperam momentânea ou definitivamente a trajetória de usuários de drogas ilegais, invariavelmente se afastaram do grupo e do ambiente associado a essa prática. Os que voltaram a usar, mesmo após tratamento e desintoxicação, afirmam que retornaram por causa do encontro com os amigos e conhecidos que continuavam freqüentando os mesmos circuitos e locais de lazer em que as drogas ilegais são comercializadas e compartilhadas.

    Isso não quer dizer que não comentem como, no estado de dependência química, o uso permanente esfacela as relações mais estreitas de sociabilidade. A maioria dos usuários entrevistados reconhece o desgaste físico provocado pelas drogas ilegais, como a cocaína, por vários deles denominada de “maldita”, e se preocupa com o uso contínuo e obcecado quando se tornam “travados”, ou seja, tensos, calados e pouco afeitos ao contato social. Outros, porém, ressaltavam o prazer associado ao seu uso, relacionando os estados mentais propiciados pelas drogas às “curtições” e aos prazeres sociais – “a gente brinca mais!”. Além disso, há os usuários “profissionais” que utilizam a droga ilegal no exercício de sua função profissional ou porque ela os torna insones e “ligados”, ou porque, como no caso da maconha para os músicos e artistas em geral, “aumenta a criatividade”.

    Embora haja alguns usuários múltiplos de maconha e cocaína, em geral formam grupos distintos que não se misturam. O etos e as imagens associadas a cada uma dessas drogas também divergem entre si. Para alguns usuários, a maconha teria um etos bucólico, com referências ao dia, ao campo, à natureza, à comida, à saúde, ao ócio e à paz. Já a cocaína, seria associada a um uso mais urbano e artificial, à saída noturna para boates, ao viver agitado, à degeneração do corpo, e à guerra. Ela também é usada a fim de potencializar a capacidade produtiva, especialmente no trabalho noturno, como o de jornalistas, bancários, caminhoneiros, vigias etc. Entrevistados nos três bairros assinalaram que, entre os efeitos desejados, estão a euforia, a “adrenalina”, a “ligação”, “o ficar aceso” atribuídos à cocaína; o “estar chapado” ou “ficar lesado”, “desligado”, devido à maconha.

    No entanto, um participante do grupo focal em Madureira, rapaz que se definia como “calmo”, quando mais à vontade, declarou que havia alguém dentro dele que não conhecia direito e que surgia com a droga. Outro definiu o vício da cocaína, daquele que “cheira muito”, como a pior das pestes, pior que a Aids, porque o doente “fica na cama, não faz nada contra a pessoa”. Já por causa da cocaína “o cara mata, não tem amizade, não tem nada”, o que nos indica a maior associação entre o traficante e o usuário neste bairro. Vários participantes do mesmo grupo focal afirmaram ter visto “gente se destruir” e homens que “deixam de querer saber de mulher” ou “que viram mulher”, “que se prostituem para pagar o vício”, assertiva que foi confirmada pelas histórias de vida de prostitutas e michês ouvidos em Copacabana. Os estilos de uso não são, portanto, conclusivos na interpretação dos diferenciais de crimes observados nos três bairros.

    Quanto às redes de tráfico no varejo, Copacabana tem pelo menos três diferentes circuitos ou redes de tráfico vinculados aos locais de boemia: a orla marítima, o circuito das boates e locais de prostituição, os bares, bodegas e restaurantes perto de uma das favelas onde existe boca de fumo. Na orla, é a partir das 22, 23 horas que há uma alteração no público dos quiosques, quando prostitutas e travestis, além de usuários e “vapores”, começam a surgir. Os “vapores”, como o nome indica, nunca ficam muito tempo parados em determinado lugar, estão sempre em movimento, evaporando quando necessário por causa da vigilância dos policiais, embora haja um esquema de tolerância e cumplicidade por parte destes, ou em busca de novos fregueses na porta de boates, restaurantes e bares, a “segunda área”. Nesses dois circuitos, são muito mais discretos do que na entrada das favelas ou nas ruas adjacentes a elas na Tijuca e em Madureira. Nas ruas ou na “pista”, o preço continua em torno dos quinze reais, podendo chegar até a vinte e cinco reais, várias vezes maior do que o preço na boca de fumo da favela, onde é vendido a 3 ou 5 reais. Isso ocorre quando a oferta é menor e a procura é grande.

     

     

    O movimento de pessoas, de usuários e “vapores” não sofre queda acentuada durante toda a semana, salvo quando está chovendo. Existem alguns quiosques que passaram a ser pontos exclusivos de grupos, como de homossexuais, ou de homens com motocicletas Harley-Davidson. Mas isto não é comum, a diversidade é uma marca dos quiosques. Mesmo naqueles onde há predominância de algum grupo, a convivência é pacífica, o que indica o cosmopolitismo que impera no bairro. No segundo circuito, dos locais de lazer e de prostituição, a maior parte das transações de drogas ilegais é feita por encomenda, pois aviões e mesmo vapores evitam carregar a droga. Feito o pedido, o vapor desloca-se para onde escondeu a droga, às vezes na própria areia da praia, e os aviões dirigem-se aos morros onde se abastecem pagando menos por droga mais pura. Mesmo assim, o medo do calote é relativamente baixo. Isso é pouco comum, e serve para ambas as partes que precisam da manutenção do negócio ou da continuidade da relação. Os caloteiros passam a ser apontados e perdem rapidamente a credibilidade.

    O mais marcante de todos estes pontos citados até agora é que em nenhum deles a presença de policiais é fora do comum. Na orla, na Help, e nos demais pontos a constante presença de policiais em carros ou mesmo caminhando não impede de forma nenhuma o comércio ilegal de drogas, que se dá com grande tranqüilidade, rapidez e silêncio. Aqui se delineia um dos estilos de tráfico que contrasta com outros bairros da cidade. Mas essa não é uma característica de todo o bairro. Em outra área de Copacabana, bem próxima a uma das favelas do bairro, a situação já era bem diferente, demonstrando mais intensa circulação e sociabilidade entre usuários do local e traficantes da favela, como acontece em muitas áreas da Tijuca e em quase todas de Madureira. Ali o estilo do tráfico já não era tão silencioso, discreto e pacífico.

    A Tijuca possui uma geografia peculiar, pois se situa em vales estreitos cercados de muitos morros. Essa geografia tem sido aproveitada pelos que fazem o tráfico de drogas ilegais na região. As diferenças sociais existentes entre as áreas urbanas e as numerosas favelas – Salgueiro, Borel, Cruz, Formiga etc – se dissolvem ao entrarmos no mundo das drogas. Os usuários do “asfalto” transitam sem dificuldades pelos morros que circundam o bairro onde a droga é adquirida diretamente nas “bocas” lá existentes, o que não torna a compra menos arriscada, embora a mercadoria seja mais barata e mais pura. Os usuários, sociais ou abusivos, têm que fazer um cálculo entre os riscos advindos da repressão e da corrupção policial, que andam juntas, principalmente nas favelas e em algumas ruas asfaltadas do bairro, e os perigos das transações com os traficantes do morro. Em relação a estes últimos, afirmam que é preciso “saber entrar” e “saber sair” na transação com os traficantes de favela para não correrem risco de vida.

    Além disso, traficantes do morro controlam mais facilmente as ruas do bairro, seja para impedir que vendedores independentes comerciem drogas por ali, seja para demonstrar o seu poder de fogo, não sendo incomum vê-los andarem armados. Quando um vendedor não autorizado é identificado pelos “donos” das bocas de fumo (por extensão, das favelas), eles são ameaçados de morte. Se continuarem a exercer a atividade, competindo com o pessoal da quadrilha, são mortos. É preciso ter conceito e permissão do dono para vender drogas na Tijuca. Por causa da proximidade dos morros e das pequenas gargantas onde ficam as moradias do asfalto, as guerras entre as diversas quadrilhas ligadas a comandos diferentes, bem como os tiroteios para resolver pequenos acertos, invadem as casas dos moradores, seja das favelas, seja do asfalto, tiram a paz e a tranqüilidade do bairro residencial e conservador. Os tiros atingem as casas, matando gente que assiste à televisão ou dorme.

    O fácil acesso aos morros intensifica a venda de drogas a varejo. Isso, porém, não descarta a possibilidade da compra em bares, pois “vende-se drogas em toda a parte”. Alguns bares, no entanto, são tradicionalmente conhecidos como pontos de venda. Lá, muitas das vezes com a conivência de seus donos, há quem venda ou que vá às favelas comprar para aqueles consumidores.

    Possivelmente quem vai ao morro e se submete aos riscos implicados tira algum proveito da situação, porém não se trata de negociação que proporcione grandes lucros. É um grupo estável de pessoas que conquistou a confiança dos “donos” ou de seus “gerentes”, e que denominam de “ser conceituado”, pois compra previamente uma quantidade de drogas com a finalidade de vendê-la por preços majorados em locais de intensa movimentação noturna. Nesse último caso, estaria mais próximo do “avião” ou repassador que adquire, com certa assiduidade, a droga com os traficantes dos morros, em consignação, ou seja, recebe antecipadamente certa quantidade para pagamento posterior.

    Nessa última situação, é necessário o estabelecimento de uma relação de confiança maior que, com a continuidade do processo, tende a aumentar – é o que chamam “ganhar conceito” – possibilitando ao repassador a aquisição de quantidades cada vez maiores. É nesse processo que as pressões para um envolvimento maior nas demais atividades da quadrilha, e os possíveis conflitos daí advindos, podem se dar. O ideal seria permanecer como “considerado”, alguém que adquire amizade, mas não se envolve, nem vira “inimigo”, “cachorro’’, “cabeça fraca”, igual aos outros traficantes. Ter ganho dinheiro na rua como repassador pode vir a chamar a atenção dos próprios traficantes e também dos policiais: a pessoa “fica pichada”. Entrevistados sugeriram que, então, “a situação se torna sinistra” e é preciso abandonar o bairro, até mesmo a cidade: “tem que sumir”.

     

     

    O estilo do tráfico na Tijuca, assim como o de Madureira, poderia ser resumido como aquele diretamente controlado pelos traficantes de favela, caracterizado pelo uso corriqueiro da arma de fogo para controlar o território, cobrar dívidas, afastar concorrentes e amedrontar possíveis testemunhas. Isso marca uma diferença crucial em relação a Copacabana que tem um estilo discreto em que o traficante assume a clandestinidade e não con-trola territórios.

    Em Madureira, o circuito do lazer que passa pelo baile funk e que concentra muitas transações de drogas ilegais tem um ingrediente a mais na associação tráfico/violência. Em Madureira abundaram as formas diretas e indiretas da associação entre o tráfico de drogas ilegais – no estilo de controle militar do território para a realização do comércio e da simbolização do etos local da virilidade – e a violência entre os jovens. O indireto está posto em alguns dos estilos de lazer juvenis, como a galera e o baile funk, que compartilham os mesmos valores do etos guerreiro e da vinculação simbólica do orgulho masculino com o território dominado.

    No grupo focal, foi revelada a conexão entre o uso de drogas e a aquisição da identidade de homem respeitado: “o cara medroso usa droga pra poder falar que é homem, que está com a rapaziada. Em baile de favela todo mundo tem que fumar ou cheirar”. Além disso, há uma comparação positiva dos homens jovens, principalmente os pobres e favelados, relativa aos de classe média. Estes, só teriam coragem para vender droga “filho de rico entra pro crime pra ganhar dinheiro”, enquanto os favelados, mesmo que não envolvido com o tráfico, “a gente entre pro crime pra matar ou morrer. A gente tem coragem para pegar numa arma, roubar e matar pra poder sobreviver”.

    São dois os aspectos (contraditórios) das políticas das escolas de samba em relação ao tráfico de drogas ilegais. O primeiro é do conhecimento de todos: oficialmente as escolas, neste bairro como em outros, não permitem o uso de tóxicos ilegais em suas dependências. Mas também é do conhecimento de todos que muitos dos seus ritmistas, puxadores de samba e integrantes de ala utilizam drogas ilegais, principalmente a cocaína. Apesar de as escolas de samba serem rivais, não há etos guerreiro estimulado e socializado entre os seus membros, como acontece no baile funk. Tampouco é possível visualizar o uso de drogas nos ensaios. Os ensaios na quadra são muito mais policiados (por seguranças contratados, não pela polícia) e o uso de drogas é proibido como em qualquer quadra de escola de samba, o que se repete na Mangueira, na Portela e no Império. Embora saibam que existem usuários e até pessoas do tráfico na escola, muitos evitam e aparentam ter medo de falar sobre o assunto.

    É comum ver alguns jovens fumando maconha e pessoas vendendo cocaína em pontos estratégicos da favela e em ruas do bairro. Porém, como não há, em Madureira, um preconceito ou separação entre favelados e não-favelados, pois a maioria é pobre, qualquer um pode conseguir drogas sem levantar suspeitas e sem ser rechaçado nos morros. O bairro de Madureira apresentou, durante o tempo que lá passamos, uma fluidez de fronteiras no que diz respeito ao lazer e às redes de tráfico. A grande e terrível separação diz respeito aos comandos que impedem a visita ou a compra de drogas ilegais de pessoas que moram em áreas pertencentes a comandos inimigos.

    Assim, o acesso às drogas muitas vezes depende de amigos que as compram nos morros do bairro. Isso não quer dizer que tenhamos o quadro encontrado em Copacabana. Ao contrário, para os usuários entrevistados, aqui não há limite claro entre asfalto e favela. Isto se manifesta no acesso “facilitado” às bocas de fumo nos morros, dispensando intermediários que fazem o elo asfalto-morro, como ocorre em outros bairros da cidade. Em geral, os usuários consomem as drogas perto dos locais onde compram para evitar flagrante, no caso, um beco ou uma rua próximos da favela. Quando moram na própria favela, isso é ainda mais comum.

    Quanto ao preço da droga, há grande variação pela cidade. Em Madureira, nas bocas de fumo dos morros onde todos compram, um papelote custa R$ 2,00, oito ou dez vezes menos do que o preço cobrado na pista de Copacabana. Mesmo assim, a tensão existente no ato da compra também é muito falada entre os usuários de Madureira. Eles dizem que o tratamento dado pelos traficantes não é diferenciado, que não são educados e que os usuários precisam submeter-se aos desmandos deles, muitas vezes sob risco de vida, exatamente como é dito na Tijuca e em Copacabana.

    Já em relação às facções e aos comandos do tráfico há enormes diferenças entre os bairros que explicam suas taxas contrastantes de homicídios(2): a guerra esporádica em Copacabana e a guerra sem fim na Tijuca e em Madureira.

    Em Copacabana, apenas num local foi constatada a logística das facções inimigas. Dois “vapores”, que deveriam ter por volta de 15 anos, buscavam as drogas encomendadas numa ladeira próxima à entrada da favela. A maioria dos clientes é de moradores de Copacabana. Ali já ocorreram tiroteios e mortes por causa de conflitos em torno do comércio ilegal, como acontece nos bairros dominados pelo tráfico. Isso quer dizer que ali predomina a mesma dinâmica violenta de controle do território, constatada pelos demais pesquisadores da equipe nos bairros da Tijuca e Madureira, nos quais há um constante extravasamento dos territórios de traficantes para as ruas asfaltadas das aglomerações “normais”, onde predominam moradores de classe média. Não é esse o caso da orla de Copacabana e de muitas ruas adjacentes, o que explica em parte a menor taxa de crimes violentos nesse bairro.

    Nas populações faveladas da Tijuca, há a “guerra sem fim”, segundo a expressão dos entrevistados, entre traficantes, especialmente a que envolve os conflitos entre os grupos que pertencem a comandos diferentes. Nesses comandos, os membros da quadrilha e até mesmo os moradores (homens jovens) que não fazem tráfico devem ajudar sempre que uma favela “amiga” esteja sendo ameaçada por um bando inimigo, formando o “bonde”. Acrescenta-se a exposição permanente aos confrontos entre a polícia e os traficantes. Além disso, nessa rede de reciprocidade horizontal entre quadrilhas do mesmo comando que mandam em diferentes favelas, sempre que uma delas necessita de armas ou de drogas, as outras, se podem, devem supri-la. Alguns favelados declaram que é impossível não se envolver nas transações esporádicas das quadrilhas, ou nos seus inúmeros “convites” para participar das festas, churrascos, bailes e pagodes financiados pelos traficantes.

    No entanto, para outros moradores de favela, não há convites para a entrada no tráfico. O próprio jovem se oferece. Ele deve demonstrar fidelidade; se necessário, demonstrará “disposição para matar”. Esse é um dos modos de adquirir respeito e confiança, ou “conceito” e “consideração”, dos donos e gerentes da boca. Muitos se oferecem para ser “soldados”. Para isso, devem ser bons atiradores, fazer parte do grupo que “manda” no morro: “Você passa a saber de tudo que acontece no morro e no tráfico. A pessoa entra assim e morre assim”.

     

     

    Outros acham que o ideal seria, como já dissemos, construir progressivamente uma relação maior de confiança com o “dono”, isto é “ganhar conceito”, o que possibilita ao repassador a aquisição de quantidades cada vez maiores da droga a ser vendida. O ideal, segundo esses homens, seria permanecer como “considerado”, mas sem se envolver, como os outros traficantes, nas atividades criminais da quadrilha. Este é o que quer ganhar com o tráfico para posteriormente sair fora e “abrir um pequeno negócio”.

    Quando há recrutamento dos soldados para o tráfico, ele se dá entre os jovens que conseguiram furar o bloqueio hoje existente no Exército para os favelados que desejam tornar-se recrutas, recebendo treinamento do serviço militar obrigatório. Mesmo quando não atuam no tráfico, esses jovens são convidados a montar e desmontar armas, treinar novos soldados, enfrentar a polícia, participar dos conflitos entre facções rivais. Nesse caso, é impossível negar a participação, não porque sejam coagidos, mas por sentirem-se obrigados a colaborar nessas situações em que a lealdade ao “dono do morro” é apresentada como defesa da localidade e da sua gente. Caso se neguem a participar, vão enfrentar problemas de ordem moral e física. Perdem o “conceito” junto ao “dono do morro”, podem ser expulsos da favela ou, pior, podem ser justiçados com a morte pela recusa em lutar contra a facção inimiga. Muitas vezes são também convocados nos bondes para invadir outras favelas dominadas pelo comando oposto.

    Em Madureira, como na Tijuca, as favelas e partes do bairro estão divididas entre comandos diferentes. Por isso, são muitas as formas diretas e indiretas da associação entre o tráfico de drogas ilegais, no estilo de controle militar do território para a realização do comércio e a simbolização do etos local da virilidade que valoriza a violência entre os jovens. O indireto está posto em alguns dos estilos de lazer juvenis, como a galera e o baile funk, que compartilham os mesmos valores do etos guerreiro e da vinculação simbólica do orgulho masculino com o território dominado.

    Existe entre eles, como na Tijuca, uma concepção predominante e um sentimento de impotência em relação ao poder territorial exercido pelos grupos criminosos. É nesse contexto de socialização masculina, na proximidade com os grupos de traficantes, que se inscrevem também as explicações sobre a violência: “A guerra nunca vai terminar”. Como cresceram e foram socializados nesse habitus, compartilhando códigos do etos guerreiro ou da masculinidade violenta pelos quais procuram aceitação, respeito e pertencimento ao grupo de pares, muitos naturalizam essa situação como um componente definitivo na interação social. Isso pode estar ancorado a um certo conformismo nesse contexto, na medida em que procuram não desobedecer nenhuma de suas regras principais. Muitos têm parentes ou amigos que estiveram ou estão envolvidos nas redes de tráfico.

    Mesmo assim, há em Madureira, alguns moradores de favelas sentem a necessidade de impor uma relação de distância aos traficantes. Frases como “eles nos respeitam”, “nós não criamos convênio com estes meninos” são corriqueiras em seus discursos, e assim ressaltam a tradição do morro e a respeitabilidade de seus moradores. Isto é, negam-se a fazer acordos com traficantes, ou melhor, não se deixam intimidar por eles. O discurso vem dos moradores mais antigos, alguns com mais de 60 anos, e seus descendentes. São pessoas que nasceram e foram criadas no local, criaram ainda filhos e netos e acompanharam toda a transformação das relações entre famílias, vizinhança e principalmente das formas de violência. Proibir que utilizem drogas no morro, que fiquem fazendo “ponto” no portão de suas casas ou expondo suas armas a quem passe no local são os exemplos mais utilizados para “se diferenciar”.

    As acusações que apareceram nesta pesquisa são muitas. Pode estar entre quem mora aqui (neste morro), ou em quem mora lá (no morro em frente); negociar com o tráfico, ou com o “poder paralelo”, como alguns dizem; ser morador novo ou antigo; ter ou não a consideração da comunidade; não ter raiz. Um exemplo disso é a popularização do funk, num dos morros tradicionalmente conhecido pela qualidade do samba. Isso gera conflitos, não só na disputa do que precisa ser mantido (a cultura do samba) contra o novo, que é uma “cultura de fora, estrangeira” (o funk), como também se reflete nas relações dentro do morro. Um exemplo disso é a acusação de que alguns policiais dariam segurança em dia de baile aos funkeiros, apesar de este mesmo baile ter sido proibido no local.

    Outra diferença marcante entre os bairros é a presença constante ou não da polícia, a relação entre moradores e polícia, e a polícia versus os traficantes. Policiamento propriamente dito só foi constatado em Copacabana. Na Tijuca e em Madureira, incursões militares esporádicas nas favelas dão o tom da presença do Estado enquanto garantidor do monopólio legítimo da violência.

    Em Copacabana, no asfalto, não há sinais de guerra apesar do tráfico intenso. A ação policial não inibe o comércio, já que a Polícia Militar, muito presente nas suas viaturas, costuma fazer suas investidas nos quiosques em pequena escala. Nota-se que ninguém é revistado, os policiais reviram as latas de lixo à procura de algum delito, passam o pente fino na areia, olham com atenção para a divisa entre a calçada e a areia, mas não examinam as pessoas que estão sentadas bebendo chope. Em geral, “vapores” e usuários preferem ficar de modo a dificultar a visão dos policiais que passam nas viaturas pela Av. Atlântica e facilitar a saída, caso a viatura pare em frente ao quiosque.

    Quase sempre é possível saber como agir com a polícia. É preciso saber quem está de plantão nas cabines, e se, no momento, existem muitas viaturas nas ruas. Contudo, não é necessário estar informado plenamente para arriscar-se em obter droga nas ruas do bairro. Por intermédio dos depoimentos colhidos com usuários, prostitutas e motoristas de táxi, o comércio de drogas não sofreu nenhum abalo no que diz respeito às possíveis intervenções tópicas realizadas.

    Os usuários também ressaltam que nos episódios que envolvem a polícia, quase sempre é possível “desenrolar”, em outras palavras, conversar com os policiais com o intuito de safar-se de uma condição desfavorável. Porém isto não impede que se efetuem extorsões e esse é o medo dos usuários, sobretudo os de baixo poder aquisitivo, que não possuem recursos para fazer uma “barganha”. Os usuários são, portanto, coniventes em casos de extorsão; eles afirmam que é melhor pagar, “dar uma grana” e entrar num acordo do que acabar parando em uma delegacia e sofrer um auto de prisão em flagrante.

    Nesse bairro, como os “vapores” são de “pista,” o receio maior dos usuários refere-se justamente aos policiais. Nos relatos colhidos no grupo focal, feitos com os profissionais do sexo que freqüentam o bairro, sabe-se que não confiam nos policiais, “bandidos com farda”, o que lhes propicia o abuso da força. Chamaram a atenção para a figura do policial “quebrador”, aquele que prende e bate, e em alguns casos até mata. Mesmo assim, foram eles que afirmaram temer mais o traficante do morro que o policial, pois este “desenrola”, ou seja, negocia para não dar o flagrante ou prender. “Desenrolar” é uma atividade bastante disseminada em todo o bairro. Assim, surgiu a vinculação da imagem dos policiais à corrupção, à extorsão e à violência, embora esta última tenha sido sempre de menor importância do que a denunciada nos outros dois bairros. Policiais entrevistados também afirmaram “não poder bater nos moradores dali”.

    A facilidade da extorsão deve-se ao fato de que os policiais são soberanos na tomada de decisão quanto ao desfecho do eventual flagrante de usuários portando drogas, nem sempre respeitando os procedimentos ditados pela Lei (Zaluar, 1998), o que se repete de forma ainda mais abusiva nos dois outros bairros.

    Na Tijuca, as acusações contra extorsão e violência de policiais foram ainda mais comuns, especialmente entre favelados. Estes declaram que, durante as visitas dos policiais aos morros, todo favelado é suspeito, ou seja, para a polícia qualquer um é traficante. Na maioria das vezes, o jovem deve comprar a sua liberdade mediante pagamento de propinas. O valor pode até ser de R$ 1,00. Esses jovens são constantemente ameaçados de prisão, e achacados por policiais. Alguns usuários, que moram nas favelas da Tijuca ou que sobem nelas constantemente para comprar drogas, acusam igualmente os policiais.

    No grupo focal, os participantes insistiram sobre esse ponto afirmando que os policiais só tratam com respeito o jovem tijucano freqüentador ou o morador de uma favela específica, se estiver na frente de muita gente, na rua. Se estiver sozinho, ele trata muito mal, chegando a ameaçar levar para outros morros dominados por comandos diferentes, portanto inimigos. Cobram dos repassadores que já identificaram até quinze mil reais para não entregá-lo no outro morro, onde certamente será morto.

    Em Madureira, são raras as queixas sobre a Polícia Civil no local, mas as acusações são abundantes quando o assunto é a Polícia Militar. A XV R.A. está lotada na jurisdição do 9º batalhão da PM, acusado de desmandos no local. A questão que sempre surge é sobre a função da polícia, que é basicamente servir e proteger o cidadão. Por conta disso, as violações aos direitos civis perpetradas pela PM se tornam muitas vezes piores que a tirania dos traficantes. Casos como abordagem agressiva e abuso de poder apareceram em todas as entrevistas. Os exemplos vão desde invasão de domicílio, maus tratos, forjar flagrante com droga, “vender cabeça” para morro inimigo, até tiro a esmo que fere e mata “inocentes” ou “trabalhadores”.

    Muitos moradores têm uma história para contar, mas não denunciam por medo, para proteger suas vidas e de suas famílias. A frase que melhor define a situação vivida por eles é: “quando os direitos civis chegarem, já estaremos mortos”. O medo de denunciar, tanto a polícia quanto os traficantes, e também de se falar no assunto, é generalizado. Nada foi dito sobre a procura de políticos para resolver os problemas, ou mesmo nenhuma organização de direitos humanos. Difícil também tem sido ver o nome das comunidades em qualquer mídia, seja para a denúncia ou simples narrativa dos casos ocorridos, a não ser quando o assunto é samba ou obras de urbanização em favelas.

    E a grande questão permanece: como fazer dos seus moradores portadores conscientes de direitos civis, capazes de enfrentar todos os seus predadores, fardados ou não, policiais ou não. Defender seus direitos, então, não é apenas denunciar desmandos policiais e negar os efeitos destrutivos que o tráfico de drogas provocou em muitas favelas e bairros da cidade. Entender seus mecanismos de domínio, suas redes e articulações é passo necessário para políticas públicas mais eficazes e justas.

     

    Alba Zaluar é antropóloga e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

     

     

    Notas

    1 Este artigo é um resumo de extenso relatório escrito no ano 2000 para o Ministério da Justiça, que financiou a maior parte da pesquisa. O relatório foi escrito por mim e por meus assistentes de pesquisa Luiz Fernando Almeida Pereira, Rodrigo Monteiro sobre Copacabana; Maria Alice Rezende e Francisco Agra na Tijuca; Fátima Cecchetto, Ana Paula Pereira da Gama Alves Ribeiro e Liliana de Souza em Madureira.

    2 Em 1995, o número de homicídios registrados na 12ª e na 13ª DP em Copacabana foi de 54, ou seja, 31,9/100.000. Em 1999, foram 15 homicídios apenas, um coeficiente de 8,8/100.000. Em 5 anos, os assassinatos neste bairro diminuíram 3,6 vezes. Em Madureira, em 1995 ocorreram 202 homicídios (55,7/100.000) e em 1999, 123 (33,9/ 100.000), tendo decrescido apenas 64%. Na Tijuca, 74 assassinatos em 1995 (40,4/ 100.000) e 38 em 1999 (21/100.000), ou seja, uma queda de quase 100% em cinco anos, mas apresentando ligeiro incremento a partir de 1998.