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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.1 São Paulo jun./set. 2002

     

     

    Arte

    AS RELAÇÕES (IM)POSSÍVEIS ENTRE IMAGEM E VIOLÊNCIA

     

    A relação entre violência e imagem nunca foi direta e evidente. É claro que existem imagens que, ao retratar fenômenos em "si mesmos" violentos, mostram de maneira direta a sua própria violência (lembremo-nos da famosa foto de Manuel Bravo – operário em greve assassinado em 1934, ou Judith e Holofernes, 1620, de Artemisa Gentileschi). Mas, essas imagens, pelo que têm de evidente, obscurecem toda uma configuração de possibilidades não tão óbvias, nas quais se realça o caráter pantanoso deste terreno que se quer circunscrever.

    Tomemos, por exemplo, o quadro Cristo Morto (1522) de Hans Holbein. Ele nos mostra um cristo deitado, raquítico. Até aí nada demais. Mas quando nos aproximamos de seu rosto e notamos a boca ligeiramente crispada e os olhos entreabertos, somos tocados de maneira indelével pela violência que a imagem retrata e desdobra. Olhemos outras imagens que, na história da arte, foram também consideradas “violentas”. O Boi Esquartejado de Rembrandt, que mostra as suas entranhas e que possui a cabeça assemelhando-se a um rosto humano ou O Quarto em Arles de Van Gogh, com sua perspectiva radicalmente encurtada, que dava ao espectador uma violenta sensação de vertigem visual. A estes se somam os quadros dos membros da Ponte, em Dresden, com suas cores chapadas, berrantes e agressivas, as inúmeras meninas e meninos, com seus sexos à mostra, pintados por Egon Schiele, as fotos de Mapplethorpe, em especial Phillip Prioleau (1980), um negro esbelto fotografado com as calças arriadas e com o enorme membro em ereção saindo pela abertura de uma alva cueca, o negro e os adeptos da Ku Klux Klan, fotografados por Eugene Smith nos EUA em 1951, as fotos sadomasoquistas de Araki, e, mais recentemente, as obras da exposição Sensation, da nova geração inglesa, em que o quadro de Chris Ofili – A Sagrada Virgem Maria (1996), uma virgem negra, desenhada ao lado de sexos femininos e masculinos voadores, “pintada” também com excremento de elefante – teve de ser protegido com vidro a prova de balas quando foi exposto no museu do Brooklin em New York, assim como causaram muito impacto a tela de Marcus Harvey, Myra (1995), uma serial-killer de crianças, pintada por meio de uma séries de palminhas infantis, e Bullet Hole (1988-1993), uma imagem em slides, repartida em 15 caixas de luz, que nos mostrava o buraco de uma bala em uma cabeça, sem sangue, por entre seus cabelos, e, por fim, Pai Morto (1996-1997), de Ron Mueck, miniatura em silicone e acrílico de seu próprio pai morto.

    O que todas essas imagens nos mostram são as dificuldades de se precisar o que pode ser concebido como violência no tempo e no espaço, nas culturas. A partir daí, algumas proposições devem ser ressaltadas. A primeira delas é que o sentido de uma imagem não está somente e nem primordialmente na própria imagem. Nenhuma imagem carrega sentido em si mesma. O que dá o sentido a qualquer imagem é sua relação com o espectador que a olha e não obrigatoriamente o que ela retrata ou mostra. Isso nos dá pistas para entender dimensões não muito evidentes da violência que se explicitam na reação exacerbada a essas imagens. Afinal, o que teriam de “violentas” em si mesmas imagens em que o sexo é tematizado de maneira explícita, ou em que um negro é fotografado com o olhar forte e circunspeto ao lado de uma reunião de encapuzados da KKK, ou nas agressões puramente estéticas da Ponte e de Van Gogh, ou na virgem negra de um artista africano. O que todas essas reações realçam são as dimensões imponderáveis que podem fazer que o espectador sinta como violentas determinadas imagens, dependendo de seus valores, o que fez que, com o passar do tempo, algumas destas imagens escapassem do que se concebia “genericamente” como violência ao encontrarem legitimação, como a da Igreja, ao mesmo tempo em que se camuflam todas as violências decorrentes das mais variadas formas de moral ou de religião.

     

     

    Se, como dissemos, a constituição do sentido da violência não está inscrita nas próprias imagens mas se dá na relação imagem-espectador, o sugestivo não é ver se tal ou qual imagem é “violenta”, mas tentar investigar se no discurso das imagens, como no dos filmes atuais, os fundamentos daquilo que se concebe naquelas imagens como violento estão nelas mesmas explicitados. Só esta proposição, que o discurso pode ou não mostrar, permitirá ao espectador não perceber a violência como algo “natural”, ou como destino – do qual todos nós somos objetos a partir dos quais, portanto, podemos facilmente nos transformar também em sujeitos, se algo “exterior” nos impelir a isso –, mas como algo inscrito social e historicamente, permitindo ao espectador construir estes sentidos, ao mesmo tempo em que reflete sobre eles, tornando-os referência para os seus próprios valores orientadores de seu agir no mundo.

     

    Paulo Menezes
    é sociólogo e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.