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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.2 São Paulo out./dez. 2002

     

     

     

    CAATINGA

    Preservação e uso racional do único bioma exclusivamente nacional

     

    À primeira vista, a Caatinga parece uma área seca e quente, com uma vegetação formada por cactus e arbustos contorcidos, onde apenas lagartos correm assustados de um lugar para outro. Essa imagem, marcada pelo traço original de Henfil, não faz justiça à rica biodiversidade, fundamental para o equilíbrio econômico da população local com seu potencial forrageiro, frutífero, medicinal, madeireiro e faunístico. A Caatinga é o único bioma exclusivamente brasileiro, ocupa 11% do território nacional e abriga uma fauna e flora únicas, com muitas espécies não encontradas em nenhum outro lugar do planeta.

    "Já foram identificadas cerca de 1,5 mil espécies vegetais, mas estima-se que possam chegar a até 3 mil espécies na Caatinga. Diversas já se encontram ameaçadas de extinção, como a aroeira, jaborandi, jaborandi do ceará e baraúna, além de mamíferos como o veado catingueiro, preás, macacos, porco do mato, e aves como a ararinha azul, araponga do nordeste, jacutinga, além de répteis, anfíbios, peixes e insetos", alerta Marcos Antônio Drumond, pesquisador da Embrapa Semi-Árido.

    O mau uso dos recursos da Caatinga, porém, tem causado danos irreversíveis a este bioma, adverte. "O processo de desertificação já afeta cerca de 15% da Caatinga", informa o pesquisador. As conseqüências de anos de extrativismo predatório são visíveis: perdas irrecuperáveis da diversidade da flora e da fauna, acelerada erosão e queda na fertilidade do solo e na quantidade de água.

    Drumond acrescenta que a utilização da Caatinga ainda é meramente extrativista. "No caso da pecuária, o superpastoreio de ovinos, caprinos, bovinos e outros herbívoros tem modificado a vegetação; o uso agrícola trouxe práticas desordenadas como desmatamento e queimada; mas a extração madeireira, para obtenção de lenha e carvão, é ainda mais danosa que a própria agricultura", explica.

    "Em levantamentos no interior de Pernambuco e Bahia, constatou-se, que várias indústrias alimentícias, calcinadoras, curtumes, cerâmicas, olarias, panificadoras, reformadoras de pneus e pizzarias utilizam espécies nativas como jurema preta, catingueira, baraúna, umburana-de-cambão, angico, sete-cascas para produção de energia". Drumond acrescenta, ainda, que existe uma grande concentração de indústrias de gesso nos municípios pernambucanos da Chapada do Araripe, que utilizam os recursos florestais como suprimento energético.

    A riqueza e diversidade vegetal na Caatinga são muito maiores que a faunística, cuja predominância é de roedores. As principais espécies forrageiras encontradas são o angico, o pau-ferro, a catingueira, a catingueira rasteira, a canafistula, o marizeiro, o juazeiro, e outras espécies arbóreas, como a jurema preta e o engorda-magro, além de frutíferas como o umbu e o licuri, que servem de alimento à população local.

    Algumas ações vêm sendo tomadas, como é o caso do projeto de avaliação e identificação de ações prioritárias para a conservação, utilização sustentável e repartição de benefícios da biodiversidade do Bioma Caatinga. Com relação ao projeto, Drumond diz que o seu objetivo é estabelecer áreas e ações prioritárias para a conservação da diversidade biológica na Caatinga, discutindo-se estratégias para promover a sua proteção e o uso sustentável dos recursos naturais. A íntegra dos documentos já produzidos será entregue ao Ministério do Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal, e estará disponível para consulta na Internet.

     

     

    Juliana Schober