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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.2 São Paulo out./dez. 2002

     

    APRESENTAÇÃO

     

    PARECE CURIOSO QUE NOS DIAS ACELERADOS DE HOJE ALGUÉM ENCONTRE TEMPO PARA PENSAR SOBRE O TEMPO, MAS DE FATO É O QUE VEM OCORRENDO CADA VEZ COM MAIS INSISTÊNCIA. PARADOXO? NEM TANTO.

    Luiz Menna-Barreto
    Nelson Marques

     

    "El tiempo entra por los ojos. Eso lo sabe cualquiera".
    J. Cortazar, Los Premios, Buenos Aires, Ed. Sudamericana, 1960.

    As questões ligadas à dimensão temporal dos fenômenos geofísicos, culturais e biológicos acabam se constituindo como que em um atrator universal que pode bem ser um cenário possível da tão sonhada e nem sempre atingida multidisciplinaridade do conhecimento. Foi com essa expectativa de multidisciplinaridade viva que um grupo de pesquisadores da USP, Unicamp e Escola Paulista de Medicina, começou a se reunir no Instituto de Ciências Biomédicas da USP no primeiro semestre de 1988.

    O desafio na ocasião era formar um grupo de trabalho vinculado ao Instituto de Estudos Avançados da USP, que estava na época dando seus primeiros passos. A animação e a riqueza desses encontros nos convenceu que a proposta teria futuro e acabou resultando na formalização do Grupo de Estudos sobre o Tempo no âmbito do IEA em novembro do mesmo ano. Quatro anos de trabalho envolveram debates, seminários e participação em congressos que acabaram sendo editados em seis fascículos da série Estudos sobre o tempo da Coleção Documentos do IEA entre fevereiro de 1991 e maio de 1992.

    Em 1993, fomos convidados a transformar o Grupo de Estudos em Grupo de Pesquisa do IEA, de caráter mais permanente, proposta que não foi aceita pelos participantes que insistiram em manter o caráter mais informal até então vigente. Permanecemos em relativo "estado de dormência" desde essa época, cada um desenvolvendo suas atividades acadêmicas e mantendo contatos esporádicos, sendo que alguns participaram de congressos da ISST - International Society for the Study of Time.

    Quando recebemos o convite dos editores da revista Ciência e Cultura, em sua nova fase temática, vimos ali a oportunidade para recuperar o espírito original do Grupo de Estudos sobre o Tempo. Foi com grande satisfação que constatamos que ele não só continua bem vivo como cresceu em tamanho e qualidade (sinal dos tempos?).

    Os artigos que compõem este núcleo temático foram produzidos em momentos distintos: um deles é uma homenagem póstuma a um grande intelectual brasileiro, Milton Santos, cujas reflexões sobre o Tempo nas cidades fizemos questão de incluir nesta publicação por conter os dois ingredientes de um texto relevante: originalidade e convite para um salto em direção ao futuro. O outro artigo resgatado da década passada é de César Ades, cuja reflexão sobre os modos através dos quais percebemos a passagem do tempo, nos pareceu interessante incluir nesta edição.

    Todos os demais textos são artigos recentes, escritos a partir do convite dos editores, por pesquisadores que têm se dedicado ao tempo, visto como cenário ou personagem multifacetado.

    O cenário próprio do tempo, a história, é o tema do artigo de Raquel Glezer. A seguir Ronilda Ribeiro empenha-se na construção de uma ponte entre a sociologia e a psicologia, ou mais propriamente o que ela tem chamado de psicoantropologia.

    Maria Helena Oliva Augusto e José Carlos Bruni expõem, em dois artigos, o que poderíamos chamar de "tempo social", registrando a chegada de novos tempos que definem sociedades e indivíduos, no caso de Maria Helena, e na forma de um convite para tirar o pé do acelerador, no caso de Bruni.

    Dois artigos vêm do mundo das exatidões, escritos por físicos. Num deles Amâncio Friaça apresenta o tempo enquanto dimensão cosmológica e no outro João Zanetic e André Ferrer Martins nos convidam a refletir sobre o significado das medidas do tempo.

    O artigo de Maria Dora Mourão oferece pistas para a leitura do tempo tal como ele é manipulado pelo cinema, onde o ritmo das imagens se constitui em parte da mensagem. Nelson Marques fez uma compilação sobre o tratamento dispensado ao tempo na literatura de ficção científica, provocando-nos com a ambigüidade dos limites entre o que se especula nas academias e o que se sonha nos romances.

    Incluímos, ainda, um texto curto de Therezinha Moreira Leite sobre esse tempo tão singular que é o tempo dos sonhos, indício e construtor do mundo subjetivo. Fecha o núcleo temático um artigo dos editores sobre uma nova área do conhecimento na biologia, aquela que se ocupa justamente da dimensão temporal dos seres vivos.

    Esperamos que nossa tentativa de resgatar o espírito multidisciplinar seja útil de algum modo aos leitores de Ciência e Cultura e que todos esses tempos sejam, além de novos, bons.

     

    Luiz Menna-Barreto é professor-doutor do Departamento de Fisiologia e Biofísica do Instituto de Ciências Biomédicas da USP.

    Nelson Marques é professor-doutor do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da USP e professor visitante da UFRN.

    Ambos são co-fundadores e coordenadores do GMDRB, Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos (ICB/USP)