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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.2 São Paulo out./dez. 2002

     

     

    Ao longo dos quase sessenta anos em que se constituiu, a poesia de Drummond veio oferecendo uma sucessão muito variada de formas, temas, humores e perspectivas. Essa diversidade resulta das diferentes impressões e percepções que o poeta, como qualquer um de nós, vai experimentando nos embates com a vida e consigo mesmo. Tanto melhor para os leitores que um artista dessa envergadura lírica seja capaz de historiar, de forma tão aguda e sensível, suas relações mais dinâmicas com o mundo: as formas alcançadas e os tempos acolhidos expressam muito da história profunda de cada um de nós.

    A poesia drummondiana deve ser compreendida e interpretada na pluralidade dos sentimentos do tempo que o poeta experimentou e traduziu. O que se costuma identificar como "fases" de Drummond talvez seja melhor compreendido se associarmos o dinamismo dos humores e dos processos poéticos às variações de expectativa que o poeta incorpora nas suas relações com o tempo que passa.

    Num primeiro momento, o jovem Drummond modernista parece se comprazer com o humor gaiato ou a dura ironia que marcam suas impressões mais diretas do cotidiano. O desajustamento de homem tímido e gauche torna-se chave essencial de sua poesia: o poeta historia sua perplexidade em meio ao atropelo das sensações múltiplas e descontínuas. É o tempo do desencontro entre os impactos provocadores da vida moderna e o desejo íntimo, entre envergonhado e ressentido, das experiências plenas, idealizadas: A tarde talvez fosse azul / não houvesse tantos desejos – confessa o poeta no "Poema de sete faces". A culpa pela imobilidade pessoal é dolorosa e faz sofrer, mas vinga-se de si mesma respondendo a tudo com uma autoconsciência implacável, num jogo paradoxal entre os limites emocionais da timidez e a rigorosa interpretação dos fatos que atingem o sujeito.

    Ao tempo da Segunda Guerra, as sombras da tragédia mundial impelem Drummond a explorar em si mesmo mais do que o fundo pessoal de ironias, ressentimentos ou sublimações: trata-se agora de interpelar sua condição de poeta maduro e de homem cúmplice da História, desafiado a senti-la e a expressá-la nas formas densas, reflexivas e abertas que tomarão os poemas de Sentimento do mundo e A rosa do povo. A tarefa essencial impõe-se agora como investigação do alcance dos símbolos poéticos mais pessoais e como avaliação das forças do indivíduo no seu empenho de tomar partido. O novo embate dramático da poesia de Drummond dá-se entre a desconfiança da insuficiência do discurso lírico e a confiança, que se deseja objetiva, no horizonte político do socialismo. Poemas como "O elefante" e "A flor e a náusea" historiam esse embate.

    No pós-guerra, nos anos cinzentos do rescaldo da tragédia e da potencialização de novos ódios ideológicos, o tempo dos acontecimentos, propriamente ditos, esvazia-se para o poeta: Drummond se retrai para o mais fundo de sua consciência negativa, movendo-se numa espécie de tempo mítico dissolvente, carregado de impasses e angústias. Nessa formidável solidão, o indivíduo expressará em tom elegíaco suas incompatibilidades com o mundo e consigo mesmo, dotando seus poemas de uma retórica da mesma altura dos enigmas que costumam se interpor entre o homem e o seu desejo de conhecimento absoluto. Creio que estão nos livros da década de 50, sobretudo em Claro enigma, os ritmos e os símbolos reflexivos mais belos e dolorosos que a consciência poética moderna produziu em língua portuguesa.

    Com Lição de coisas, de 1962, o poeta sessentão faz uma espécie de balanço dos temas e estilos já freqüentados, experimenta ludicamente os limites de formas mais ousadas e abre um novo veio poético – o das memórias antigas -, de onde extrairá os inúmeros poemas que comporão a trilogia dos Boitempo. Nesta, as imagens do passado já não se representam em transfigurações tensas ou dramáticas, valendo mais pela vitalidade narrativa e pela força de atualização daquelas remotas percepções que impressionaram o antigo menino e adolescente. Mais generoso consigo mesmo, o poeta envelhecido alimenta-se da memória autobiográfica que é, sempre, uma visada concreta da história social.

    Com Farewell, o livro póstumo, a despedida amarga de Drummond: no limiar da morte, ele contempla melancolicamente o corpo gasto, arruinado, e reconhece como definitivamente vencidos os tantos movimentos nervosos que o espírito empreendeu ao longo do tempo. Súmula sombria e comovente de uma longa caminhada, essa última poesia fecha-se a si mesma no círculo de uma vida, voltando a reconhecer na longínqüa Itabira de ferro e pedra as raízes de uma condição cósmico-mineira. Na iminência do fim, as múltiplas contradições das experiências da vida parecem amenas diante da contradição máxima, que é a do Tempo anunciando que o tempo já acabou: Quero a última ração do vácuo/ a última danação, parágrafo penúltimo / do estado – menos que isso – de não ser.

     

    Alcides Villaça
    é professor de Literatura Brasileira da USP