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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.54 n.2 São Paulo out./dez. 2002

     

     

    ESBARRONDADO

     

    EVANDRO AFFONSO FERREIRA
    PARA ANTÔNIO CELSO DE QUEIRÓS E SOUSA

     

     

    (Catrapós catrapós catrapós cavaleiro anhanga in propria persona se aprochega de súbito intimando ei fulaninho-não-sei-dos-quantos desterrado em si mesmo vem garupa todinha sua aúpa catrapós catrapós catrapós).

     

    Olhos dela mulher tenebrosa parece caixa de Pandora aquela donde saíram todos os males que povoam a Terra; veja, fulminante; dizem que matou quatro filhos pequenos todos envenenados; prisão perpétua; olhar da estupentada de vez em quando fica alheio de tudo se perde por entre os vazios inexplicáveis do nada; se recusa a sair da cela, seis meses daquele jeito amassando uvas imaginárias com os pés alternando olhares ora faiscantes ora alheados; digo sempre repito que nem o mais sábio dos mortais jamais conhecerá todos os recantos e escaninhos da alma humana; coração angustioso dela viúva pobre-diaba está quem sabe tachonado de pregos enferrujados; veja, rosto revelhusco aquele é desarmônico com a idade verdadeira, 42 anos; enfermeira vez em quando vem fazer curativo, esfoladura, vaivém contínuo, unhas da mão direita arranhando braço esquerdo; ataduras que tais tanto faz sempre arranca, camisa-de-força talvez estamos pensando seriamente sobre; oportuno lembrar agora pássaro pelicano cujo amor aos filhos transcende o racionalismo pois quando os encontra mortos pelas serpentes dilacera o próprio peito banhando com seu prodigioso sangue rebentos extintos que incontinenti voltam à vida; agora cabisbaixa, veja, cabeça pra lá pra cá feito pêndulo de relógio remoto; desesperança eterna como os átomos; vizinhos parentela toda todos dizem que infeliz aí matou por amor, miséria demais fome demais tormento demais, sabe-se lá, precipitante concordar brevi manu argumento-padrão quem ama não mata; tragédias deste naipe terminam sempre com o suicídio daquele que produz o assassínio; pobre-diaba aquela digamos transgrediu uma regra; cabeça agora pendendo pro lado esquerdo pof pof pof batendo na fronte como quem tenta escoar quem sabe pensamentos funestos pelos ouvidos; veja, mudou de posição, mesma coisa lado direito; dantesco; pobre-diaba parece possuída por Adrastéia deusa da vingança aquela a que não se pode escapulir; logo-logo enfermeira chega trazendo injeção para aquietar três horas pelo menos cérebro ali desassistido de esperança; veja, se procumbindo agora sabe Deus diante de um anhanga poderoso qualquer do fosso de Malabolge talvez; gesto reverente este ainda não tinha visto, novidade, campo vasto infinito de experiência, veja, soltando perdigoto como quem tem fiapo de cabelo na língua, ouça, estava demorando, urros pungentes, desventurosa reduzida a um ser in perpetuum doloroso, morte chegasse ali de repente zape seria um bâlsamo; vamos minha jovem doutoranda, continue empunhando minicâmera, perca nada detalhe nenhum, pronto, enfermeira chegou, hora de aquietar três horas pelo menos alma desatinada aquela cuja dor... ora, minha jovem, fique constrangida não, primeiro dia assim mesmo, lenço limpo, pegue.

     

    Evandro Affonso Ferreirá é autor de Grogotó, Top Books, Rio de Janeiro, 2000. "Esbarrondado" é um dos contos do livro inédito Quetiliquê.