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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.55 n.1 São Paulo jan./mar. 2003

     

     

     

    POLÍTICAS PÚBLICAS

    Poucos centros de pesquisa se dedicam ao estudo da fome

     

    No Brasil, 44 milhões de pessoas passam fome, mas o país não conhece a fome. Josué de Castro que o diga. Ele foi o primeiro a realizar reflexões sistemáticas sobre o problema: em Geografia da fome (1946) e Geopolítica da fome (1951), ao abordar a questão num contexto político-social inédito, revelou uma realidade assustadora, e seu trabalho alcançou repercussão internacional.

    Para Walter Belik, professor do Instituto de Economia da Unicamp e especialista em segurança alimentar, só recentemente os pesquisadores retomaram os estudos da fome no Brasil, de forma multidisciplinar e abrangente. "O tema está voltando a ter importância: ainda não existem congressos brasileiros e a literatura sobre o assunto é pouca, mas é uma área de pesquisa que está crescendo", diz Belik.

    A falta de verba não é um argumento para o desinteresse em estudar o problema. Belik lembra que existe uma linha de financiamento na Fapesp, em São Paulo, específica para políticas públicas. "Mas os pesquisadores não se interessam por elaborar projetos sobre a fome". Falta articulação entre os pesquisadores de diferentes áreas, e existem poucos nutricionistas e profissionais da área de saúde pública estudando a fome. "Só a geografia humana tem hoje uma discussão mais abrangente sobre o tema". Além da falta de integração entre os pesquisadores, a falta de métodos de pesquisa adequados também é um entrave, acrescenta.

    No Brasil, os esforços da comunidade científica concentram-se nas universidades federais do Rio de Janeiro e Pernambuco, na PUC de Minas Gerais e na Unicamp. Belik enfatiza o trabalho da Embrapa, em busca de alternativas para melhorar a produtividade dos pequenos produtores e das produções familiares de regiões críticas como o semi-árido nordestino. Ele assinala, ainda, alguns estudos brasileiros para nortear o investimento social de combate à fome. Um deles é do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), que usa a metodologia da FAO para comparar as necessidades calóricas mínimas e custo de uma cesta básica por região metropolitana brasileira. Mostra que distribuição de renda não é suficiente para tornar acessível os alimentos às populações mais pobres: "é preciso fazer chegar os alimentos às pessoas e ensiná-las a se alimentarem corretamente", alerta.

    NO EXTERIOR Diferentemente do Brasil, as políticas de combate à fome adotadas em países, como EUA e Canadá, são cada vez mais baseadas em resultados de pesquisas científicas. Um exemplo americano de programa bem sucedido, que tem servido de exemplo ao Brasil, é o Programa de Cupom Alimentação, que tornou-se permanente desde a década de 70 nos EUA.

    "De acordo com os dados oficiais, a FAO considera que o Brasil está dentro do grupo de países que melhoraram a situação da fome e desnutrição crônica a partir da Cúpula Mundial da Alimentação em 1996", disse José Tubino, representante da FAO no Brasil. O que não significa, porém, que o Brasil cumpriu os compromissos assumidos na Cúpula: para reduzir o número de famintos pela metade, até 2015, o Brasil terá que intensificar seus esforços, acrescenta Tubino.

    A elaboração do Projeto Fome Zero é uma prova do interesse brasileiro em cumprir o seu compromisso. "Fome Zero é uma proposta importante que integra a luta contra a fome e a miséria. A FAO compartilha dessas idéias, e dará grande atenção ao desenvolvimento desse projeto", assegura.

    Em seu primeiro pronunciamento oficial como presidente da República eleito, Luiz Inácio Lula da Silva anunciou a criação da Secretaria de Emergência Social, voltada prioritariamente para a questão da fome. O Projeto Fome Zero, elaborado pelo Instituto Cidadania e sob coordenação do economista José Graziano da Silva, da equipe do presidente eleito, tem a tarefa de erradicar a fome e assegurar o direito à alimentação de qualidade no Brasil. O projeto deverá ser a base para a elaboração de uma política de segurança alimentar e nutricional para o Brasil nos próximos anos.

     

    Juliana Schober