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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.55 n.1 São Paulo jan./mar. 2003

     

    APRESENTAÇÃO

     

    EMBORA TENHA AVANÇADO MUITO EM SUA SAGA CONTRA AS DOENÇAS INFECCIOSAS, A HUMANIDADE AINDA NÃO CONSEGUIU ELIMINÁ-LAS

    Erney Plessmann Camargo

     

    O homem herdou de seus ancestrais muitas doenças infecciosas. Outras, como a AIDS ou a ebola, ele foi adquirindo ao longo do tempo, enquanto se livrava de algumas poucas, como a varíola. Muitas doenças, que eram terríveis, abrandaram-se, seja por se tornarem curáveis, como a sífilis, seja por serem preveníveis, como a poliomielite.

    Alguns dos agentes infecciosos, como piolhos, chatos, sarna, miíases, vermes do aparelho digestivo e dos tecidos cutâneos (dracunculose) são velhos conhecidos da homem, estando devidamente registrados nos tabletes da Mesopotâmia, nos papiros egípcios e na própria Bíblia. Porém, alguns dos agentes patogênicos mais importantes, por serem microscópicos como bactérias, protozoários, fungos e vírus, tiveram que aguardar até o século XIX para nos serem apresentados, embora fossem nossos convivas há dezenas de milhares de anos.

    A luta da humanidade contra as doenças é tão velha como sua história. No início das hostilidades o homem utilizou a magia, uma vez que doenças tinham obviamente causas sobrenaturais. Daí o apelo a divindades mediada por xamãs, curandeiros, pitonisas e poções mágicas, recurso que prevalece até hoje em redutos obscurantistas. Apesar do fascínio mágico, o homem foi aprendendo que higiene e limpeza podiam ser muito mais eficazes que danças e exorcismos para a promoção da saúde. Dessa forma, medidas de higiene acabaram fazendo parte de rituais de purificação e de preceitos de religiões antiqüíssimas, sem falar na Bíblia, matriz do judaísmo, cristianismo e islamismo.

    O homem também aprendeu muito com seus infortúnios. A peste negra ou bubônica do século XIV, que matou 25% da população européia, gerou os princípios do isolamento de pacientes e quarentena para tentar restringir o alastramento da doença, medidas infelizmente contrabalançadas por procissões de penitentes e flagelantes que só contribuíam para disseminar a peste. A mesma peste voltaria a Londres no século XVII matando quase 20% de sua população, mas, ao mesmo tempo, trazendo a criação de hospitais e enfermarias junto a tentativas primitivas de assepsia e purificação do ar respirado. Finalmente, com a revolução industrial, nasceram as leis e serviços de higiene e saúde pública. Mais tarde, na esteira da descoberta dos agentes causadores de doenças e de seus mecanismos de transmissão, nasceram os institutos destinados a estudar e controlar as doenças infecciosas.

    Embora tenha avançado muito em sua saga contra as doenças infecciosas, a humanidade ainda não conseguiu eliminá-las. Elas continuam existindo, embora em níveis de prevalência (número de casos por número de pessoas) variadas para diferentes populações, mas sempre maior nos países subdesenvolvidos. Essas doenças, sempre presentes em uma dada população, são chamadas de endêmicas. Quando seu nível de prevalência ultrapassa os valores habituais (dentro de uma certa flutuação anual) a doença torna-se epidêmica. Por sinal, endemia (do grego endo+demo) quer dizer isso mesmo: doenças que sempre existem dentro de uma população, são endógenas, nativas. Por exemplo, existem cerca de 600-900 casos por ano de malária nos EUA, onde a doença é endêmica, mas de baixíssima prevalência: ~0,3 casos por 100 mil habitantes ou 0,003 casos/1.000). No Rio Grande do Norte (ver artigo sobre malária) em 1930 haviam ~ 280 casos de malária para uma população total de 250 mil habitantes (prevalência de 1 caso para mil habitantes). Embora a prevalência fosse mais alta que a atual prevalência americana, a doença ainda assim era endêmica, até que nos anos seguintes os números subissem para 200 casos para mil habitantes, caracterizando uma epidemia de grandes proporções. Por sinal, epidemia quer dizer isso mesmo, doenças que, de repente, se impõem a uma população, que "vêm de fora" e cuja prevalência supera os valores habituais. Às vezes, as epidemias se alastram por várias regiões geográficas e então se tornam pandemias. A última grande pandemia, de trágicas conseqüências, foi a gripe espanhola de 1918 que causou, em todo o mundo, um número muito maior de mortes (20 milhões) que a 1ª Grande Guerra (8.5 milhões).

    O que relataremos neste número de Ciência e Cultura é apenas um dos segmentos da saga da humanidade contra as doenças infecciosas.

    No artigo de abertura, são apresentados aspectos científicos, sociais e políticos dessa saga. Mais que isso, é apresentado também o enorme universo de agentes patogênicos e dos seus mecanismos de transmissão.Os artigos subseqüentes, por autores com grande vivência pessoal nos temas que abordam, cuidam apenas de endemias brasileiras causadas por parasitas. As causadas por vírus ou bactérias, bem como as doenças emergentes serão tema de futuras edições de Ciência e Cultura.

    Escolhemos primeiro as endemias parasitárias porque foi sobre estas que a ciência brasileira deu uma contribuição maior e original. Otto Wucherer, Pirajá da Silva, Viana Martins, Adolfo Lutz e Carlos Chagas foram responsáveis por descobertas absolutamente originais sobre nossas principais endemias. Lutz, Oswaldo Cruz, Ezequiel Dias, René Rachou, Evandro Chagas, Manoel Ferreira, Paulo Antunes, Mario Pinotti, Amílcar Viana Martins e Samuel Pessoa engajaram-se na luta contra as endemias ou como administradores ou como combatentes no front da luta.

    Esses e outros nomes recebem a justa homenagem deste número de Ciência e Cultura.

     

    Erney Plessmann Camargo é professor titular de parasitologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e diretor do Instituto Butantan.