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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.55 n.1 São Paulo jan./mar. 2003

     

    Museus

    EXPOSIÇÕES DE ARTE GANHAM CARÁTER HISTÓRICO E EDUCATIVO

     

    Algumas exposições, de caráter histórico, realizadas na capital paulistas no segundo semestre de 2002 e em circulação pelo país, me fizeram refletir o quão interessante tem sido a performance dos museus de arte, de institutos e centros culturais nestes últimos tempos. É bom frisar que esta reflexão se refere apenas ao item de organização de exposições ­ eventos voltados para o público ­ e a intenção de repensar o atual papel do museu em nossa sociedade. É bom lembrar que, em nenhum instante, essas instituições deixaram de realizar eventos de arte moderna e contemporânea. Tratamos, aqui, de tecer algumas considerações sobre a arte e sua recepção a partir dos eventos em consideração.

    Os museus, ao longo da história, têm passado por constantes e importantes revisões do caráter de suas funções. Parece que, ao analisar essas recentes mostras com as quais os paulistanos foram brindados, as definições de cunho mais clássico são as que prevalecem. Recentemente, o presidente Carlos Bratke e o curador Afons Hug da Bienal de São Paulo, em depoimento ao jornal da Associação Brasileira de Críticos de Arte, frisaram que o papel da Bienal de 2002 e da instituição como tal, uma vez que o curador está mantido para a próxima realização, é o de "divulgar a arte contemporânea" e que os núcleos históricos (parte importante de bienais anteriores) estavam sendo muito bem realizados pelos museus.

     

     

    De fato, é interessante constatar que desde meados dos anos 90 do século passado os nossos museus têm organizado grandes exposições com essas características, quer no âmbito da arte brasileira, quer no âmbito da arte internacional. As primeiras a se registrarem foram O Brasil dos viajantes (Museu de Arte de São Paulo, 1994) e Rodin (Pinacoteca do Estado, 1995), passando ainda por Modernismo/Paris anos 20 (Museu de Arte Contemporânea/USP, 1995), Pancetti, o marinheiro só (Museu de Arte Brasileira/FAAP, 2001). Só em 2002 tivemos nos últimos meses do ano, na esfera internacional, as exposições: 500 anos da arte russa (Oca, jul/set); Paris 1900 (Museu de Arte de São Paulo, ago/out); China: a arte imperial, a arte do cotidano, a arte contemporânea (Museu de Arte Brasileira/FAAP, ago/ nov); Rembrandt e a arte da gravura (Centro Cultural Banco do Brasil, set/nov); Rugendas no México (Memorial da América Latina, set/out).

    Na esfera da arte nacional, registraram-se as mostras: Arcangelo Ianelli (Pinacoteca do Estado, set/nov); Operários na Paulista, sobre o Grupo Santa Helena (Museu de Arte Contemporânea/USP ­ FIESP, set/nov); Rebolo 100 anos (Museu de Arte Moderna de São Paulo, ago/out), para citar somente algumas delas. Todas, é bom que se diga, com grande repercussão na imprensa e enorme sucesso de público, que é o que nos interessa nesta reflexão.

    Por causa desse sucesso, creio que é necessário repensar o papel do museu. Muitas dessas exposições provocaram extensas filas e longas horas de espera, nem sempre compensadas por uma visitação acurada e muito menos tranqüila para o público conhecedor. Quanto ao público em geral, qual teria sido seu grau de envolvimento, de aproveitamento? Será que houve tempo e condições para observar e usufruir a exposição e/ou as obras? Os museus detectaram um novo filão para atrair mais público? Pela reação e recepção do público, com presença maciça, parece que sim. Parece haver, portanto, uma revisão deste papel: a máxima de que o prazer da arte é proporcional ao seu entendimento constitui-se em atual preocupação dos museus ­ a grande maioria do público ainda precisa identificar (ou se identificar) a parecença da obra para entendê-la, gostar dela e, portanto, usufruí-la. A dicotomia arte/fruidor continua sendo de algumas décadas e, ao programar exposições temáticas ou de caráter histórico, aliadas a uma montagem que facilita o percurso e sua conseqüente leitura, os museus têm conseguido, realmente, atrair enorme freqüência e despertar, ao menos, a curiosidade do público.

     

     

    Considero correta essa que pode ser uma nova postura dos museus, uma vez que é necessário, ao menos quanto ao Brasil, que o público seja iniciado e atraído para nossas instituições. As exposições históricas têm em seu bojo um apelo muito grande, identificam-se no tempo e no espaço com o cotidiano das pessoas, através de temas e faturas palpáveis: o público 'reconhece as figuras' e assim se sente confortável e pode admirá-las e, ao se comprazer nisto, retorna para novos eventos, traz a família e os amigos. Algumas delas são imprescindíveis para o conhecimento geral, já que para muitos pode ser a primeira e talvez única vez que vêem de perto obras como, por exemplo as da arte russa, ou da arte chinesa ­ estas de caráter histórico com ênfase na arte milenar, no popular e no contemporâneo e que 'contam' a saga de uma civilização; ou mesmo a reunião, em um mesmo espaço, de uma grande coleção de obras de artistas como Rebolo e Ianelli ­ de caráter retrospectivo, onde o público pode acompanhar a trajetória do artista. E é isto que um museu tem que ter como um de seus pressupostos: despertar o interesse do público.

     

    Elvira Vernaschi é historiadora e crítica
    de arte, membro da Associação Brasileira
    de Críticos de Arte e da Associação
    Internacional de Críticos de Arte.