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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.57 no.2 São Paulo Apr./June 2005

     

     

     

    LINGUAGEM

    Fazer chiste não é fazer piada

     

    O máximo de sentido para um mínimo de suporte. A brevidade é uma das principais marcas lingüísticas do humor. O chiste é breve, e é nele que reside, por assim dizer, a graça. E pode ajudar a descarregar uma agressividade que tem de ser reprimida. O chiste funciona, isto é, provoca hilaridade ou riso, por meio da brevidade que se expressa com a condensação: dois campos de significados se fundem, causando surpresa.

    "Podem ser usadas palavras ou frases que tenham sentidos semelhantes ou sejam elas mesmas parecidas entre si. Por exemplo, detergente: a palavra pode ser desmembrada em 'deter gente', produzindo outro sentido", explica o lingüista Sírio Possenti, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Um exemplo conhecido vem do próprio Freud, que conta o chiste do 'familionário', que condensa os vocábulos familiar e milionário.

    Em outro chiste que o próprio Freud narra, um homem convida uma jovem italiana a dançar. Ela aceita, mas dança muito mal. O homem pergunta: — Todas as italianas dançam tão mal? E ela responde: — Non tutti, ma buona parti. (Nem todas, mas boa parte). Buona parti ou Buonaparti (Napoleão)? Parafrasear ou traduzir o neologismo assim formado pode retirar toda a graça, a não ser que a tradução se dê para línguas latinas", afirma a lingüista e psicanalista Viviane Veras. A dificuldade de tradução coloca em evidência a necessidade de um substrato culturalmente compartilhado, para que a operação seja bem sucedida.

     

     

    IMAGENS Para Possenti, os mesmos mecanismos funcionam quando entram em questão as imagens. "A caricatura coloca em grande realce algo que seria um defeito, o que se faz de acordo com os padrões culturais vigentes num lugar, numa época". Isso deve contribuir para que a linguagem humorística visual alcance uma comunicação quase que imediata com o público.

    Para haver chiste é preciso haver riso. De acordo com Veras, Freud tentou, de início, compreender o chiste, como outros haviam tentado, mas se descobriu compreendido no próprio mecanismo do chiste, que exige o riso. "Um efeito que se torna, afinal, a causa do chiste", explica. Assim acreditava Freud, que acabou se vendo diante de um grande dilema. "Se ele teorizasse apenas, deixando de fora o riso, isto é, se o próprio Freud não risse, não teria um chiste e, portanto, não teria seu objeto de estudo", pondera Veras. "Por outro lado, se risse, se envolveria eliminando a distância necessária à neutralidade característica da atitude científica". Freud publicou O chiste e sua relação com o inconsciente em 1905, apenas cinco anos depois do seminal A interpretação dos sonhos.

     

     

    CHISTE O riso da audiência, do outro, está embutido no próprio conceito de chiste. Trata-se de uma operação que não prescinde de seus efeitos para se constituir como laço social ou seu oposto. "Vamos supor que alguém está conversando comigo e diz algo 'que não queria dizer'. Se rio disso e, esse alguém ri junto, fez-se um chiste; se ele ficar envergonhado, como se pego em flagrante, só terá havido um lapso. Ora, a distinção é momentânea, e pode ser lapso", diz Veras.

    PIADAS As piadas, por sua vez, podem ter graça ou não. Por outro lado, a brevidade característica do chiste poderia, em princípio, estender-se a esse gênero textual, mas não necessariamente. Muitas vezes, a piada envolve uma narrativa que, em si, não é o que produz o riso. No entanto, é parte inextricável da performance daqueles que se convencionou considerar bons contadores de piada. A descrição dos tipos, dos personagens, das situações, de certa forma, apenas envolve a audiência e a prepara para um desfecho cômico. E também retoma os estereótipos que são tão caros a esse gênero de humor. "O gênero textual 'piada' sempre põe em questão, dois pontos de vista, duas culturas. E acontece que eu lhe conto uma piada sobre X, mas ela na verdade se dá sobre Y", afirma Possenti.

    Piadas em geral incidem sobre campos socialmente controversos. Segundo Possenti, o texto parece querer dizer uma coisa e diz outra. Mas a controvérsia deve estar suficientemente popularizada, tem de ser conhecida para que o texto possa surtir o efeito desejado. "Dentre os campos em que há disputa, deve-se destacar: a sexualidade (bem ou mal comportada); as instituições (escola, religião, família, governo); mortes, desgraças, acidentes", afirma Possenti. Quando se trata de eventos trágicos, não se ri por diversão. O riso pautado na tragédia exprime o esforço humano em não se render e superar catástrofes pessoais ou coletivas. Mas tem limites. Como Possenti faz notar, pouco ou nada se riu do recente episódio do tsunami no Pacífico, pela magnitude do número de mortos.

    As piadas, no entanto, não refletem a complexidade das controvérsias nas quais se apóiam. "O prazer deriva do reencontro de uma situação familiar, como estar em casa ou voltar à infância", compara Possenti. "O adulto não brinca com as palavras tão freqüentemente quanto as crianças e os humoristas". No nível da linguagem, há diversas complexidades morfológicas, ortográficas, sintáticas, que as crianças cometem por experimentarem com um código não completamente assimilado; quanto aos adultos, ocorrem por distração, brincadeira, ironia, agressividade. Não é à toa que, desde Aristóteles, outra característica considerada distintiva do humor é o rebaixamento. "Nesse caso, o riso brota de alguém que é feio, faz ou diz bobagens, tropeça, cai – um político que rouba, um filósofo que propaga incongruências", explica Possenti. Além do rebaixamento, é preciso haver algo de surpreendente. E à surpresa se acrescenta a genialidade, o talento que um indivíduo tem para forjar a relação surpreendente. "A própria operação gera um prazer estético no 'receptor' quando este acredita ter percebido o que o outro quis dizer", conclui o lingüista.

     

    Flávia Natércia