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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.57 n.2 São Paulo abr./jun. 2005

     

     

     

     

    ENTREVISTA

    Divulgação científica: um grande desafio para este século

     

    "Se queremos realmente uma sociedade democrática, é preciso que todos entendam a ciência", defende o jornalista espanhol Manuel Calvo Hernando, atuante divulgador da ciência ao longo das últimas cinco décadas e um dos ícones do jornalismo científico na América Latina. Nascido em Madri em 1923, Calvo Hernando esteve à frente de diversas iniciativas na área. Em 1969, fez parte do grupo que fundou a Associação Ibero-americana de Jornalismo Científico e, dois anos depois, a congênere espanhola que presidiu até 2004; hoje, é o presidente de honra da entidade. Participou da criação de associações equivalentes em países latino-americanos. Escreveu 30 livros e cerca de 8 mil artigos e reportagens para jornais, revistas, agências de notícias, rádio e televisão, além de ter presença constante em encontros e reuniões relacionados à divulgação científica.

    Como se deu seu envolvimento com o jornalismo científico?

    Estudei direito e fiz especialização em jornalismo. Comecei no início dos anos 1940. Em 1955, quando trabalhava como redator no jornal de Madri Ya, li uma notícia sobre a Conferência Mundial de Usos Pacíficos da Energia Atômica, organizada pela ONU, que aconteceria naquele ano em Genebra. Havia se passado dez anos das bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki. Nesse período, as pessoas estavam tão aborrecidas com o ocorrido que praticamente não falavam mais no assunto. Tive a impressão de que estariam na conferência muitos cientistas importantes. Então, peguei um trem para Genebra. Quando cheguei ao Palácio das Nações para a conferência, a organização do evento me entregou um monte de textos escritos por especialistas no assunto. Lendo esses textos, os participantes poderiam entender o que seria falado ali, mesmo que não tivessem uma formação na área. Escrevi 15 crônicas para o jornal sem fazer grande esforço, pois já haviam me dado todas as informações necessárias. Foi a primeira vez que percebi que o jornalismo científico era possível. E que eu podia fazer aquilo perfeitamente.

    Foi então que o senhor passou a escrever sobre ciência?

    Naquele mesmo ano, em outubro, a Universidade Complutense de Madri, a única até então com o curso de jornalismo, organizou um seminário sobre a importância da divulgação científica, que reuniu cerca de cem professores e profissionais de universidades européias e norte-americanas. Isto me mostrou que o tema interessava vários países do mundo. Dois anos depois, me dei conta de que já não estava mais escrevendo nada sobre cultura nem sobre política; só escrevia matérias de ciências. E assim sigo até hoje. Agora é uma espécie de casamento antigo – e será difícil separar este casal.

    Como era o jornalismo científico quando o senhor ingressou na área?

    Quando comecei a trabalhar em jornalismo, não havia na imprensa espanhola colunas dedicadas ao jornalismo científico, embora alguns escritores e cientistas publicassem textos dessa natureza. Quando se produzia algum feito importante no mundo da ciência e da tecnologia, o diretor ou o chefe de redação do jornal pedia um texto sobre o tema, em geral diretamente a cientistas.

    Então houve muitos avanços desde aquela época?

    Avançamos muito, mas não o necessário. Tudo está muito mudado e é claro que existe uma demanda muito maior. Gostaria que a divulgação científica fosse muito mais ampla, e que as pessoas tivessem consciência do quanto têm a ganhar com a informação científica. Uma vez escrevi que a informação científica deveria ser tão importante quanto as notícias esportivas. Tenho a impressão que a divulgação da ciência é um dos grandes desafios do século XXI pois, se queremos realmente uma sociedade democrática, é preciso que todos entendam a ciência. Caso contrário, não alcançaremos a democracia cultural.

    O que é preciso para alfabetizar cientificamente a sociedade?

    O ponto-chave é a divulgação para todos. Depois, é preciso criar uma consciência pública sobre o valor da ciência. As pessoas sabem muito pouco. Nos Estados Unidos, apesar de toda a produção de conhecimento, há uma falta de consciência científica na sociedade. A cultura científica deveria fazer parte da cultura popular. Mas, na verdade, os que se preocupam com a ciência fazem parte de uma minoria. Somos uma minoria; quando formos maioria, mudaremos o mundo.

    A reduzida cultura científica nos países em desenvolvimento é um problema grave. Há uma mobilização para se mudar esse quadro?

    Nas décadas de 1960 e 1970, vários países da América Latina começaram a desenvolver um programa de jornalismo científico. O ponto de partida foi um seminário de jornalismo científico, no Chile, em 1962. Depois vieram cursos na Colômbia, no Peru e no Chile. Em 1979, fizemos em Bogotá uma mesa-redonda em prol da criação de uma consciência pública sobre o valor da pesquisa científica. Eu era o único especialista europeu; todos os outros eram da América Latina. Desse encontro surgiu o Centro Internacional de Preparação de Materiais sobre Ciência e Tecnologia para a Imprensa (CIMPEC), criado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) e pelo governo colombiano. Mas, depois de algum tempo, quando o fundador e diretor do centro, Josué Muñoz Quevedo, morreu, tudo acabou. Eu costumava receber semanalmente pelos correios uma espécie de boletim, com notícias, reportagens e entrevistas sobre aspectos da ciência, todos escritos de forma jornalística. Mas todas essas iniciativas, extremamente positivas para o jornalismo científico, acabaram.

    Como o senhor avalia as iniciativas atuais de divulgação científica na América Latina?

    Os países latinos que mais trabalham com a divulgação científica são Brasil, onde se criou, em 1977, a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), e México, que tem uma tradição de divulgação científica que une muita gente. Lá existe a Sociedade Mexicana para a Divulgação da Ciência e da Tecnologia (Somedicyt), que realiza anualmente um congresso de divulgação científica. Além disso, a única universidade que conheço que tem uma direção geral de divulgação científica está lá – a Universidade Nacional Autônoma do México. Lá, publicam-se livros excelentes. São poucos – normalmente um por ano –, mas de qualidade muito boa. Há um, publicado em 1999, da professora Ana María Sánchez Mora, que é uma delícia: La divulgación de la ciencia como literatura.

    E como estão os outros países latino-americanos em termos de divulgação da ciência?

    A Venezuela, no começo dos anos 1970, foi líder em divulgação científica. Havia um jornalista (Arístides Bastidas) que, mesmo sem ter formação universitária, tinha uma atuação incrível na divulgação científica. Escrevia uma coluna diária no jornal El Nacional, de Caracas. Nos últimos anos de sua vida, já cego e com a saúde deteriorada, continuou difundindo o conhecimento científico. Na Colômbia, tivemos uma época boa, também, com congressos e atividades... Mas não houve continuidade, pelo menos não de forma tão intensa. Na Argentina, havia alguns bons jornalistas, bons escritores científicos, mas eram casos isolados. Nunca houve uma instituição e tampouco uma universidade que fizesse projeto na área. Agora, em algumas pequenas universidades do sul do país, começa a surgir um certo interesse. No Chile, houve o seminário de jornalismo científico em 1962 com excelentes divulgadores. Em alguns países, no entanto, não conseguimos implantar iniciativas. É o caso da Bolívia e do Peru. No Equador há um importante centro de formação chamado Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina (Ciespal). Com respaldo dessa organização, foi realizado em 1965 o primeiro curso de jornalismo científico em Quito. No Peru e no Uruguai não existe nenhuma. É claro que há muita gente interessada, escrevendo sobre temas de ciência e tecnologia no principal jornal do país, e têm aqueles, como a uruguaia Patricia Linn, que são docentes interessados em divulgação científica. Tenho vontade de juntar essas pessoas e criar uma associação que atue de fato. A associação que existe no Paraguai tampouco faz alguma coisa.

    Como o senhor vê a formação de divulgadores da ciência?

    Tenho dúvida quanto à formação dos divulgadores... Para mim, os jornalistas deveriam ter uma formação científica e os cientistas uma formação jornalística. Por essa razão, estamos (a Associação Espanhola de Jornalismo Científico, com apoio do Ministério de Educação e Ciência da Espanha) realizando uma série de palestras na Universidade Carlos III, em Madri. Sei que isto é pouco, mas algumas universidades já começaram a se interessar pela iniciativa. Uma em Valência, duas em Barcelona, uma em Sevilha e outra em Múrcia. As faculdades deviam levar isso a sério, talvez até criar uma matéria de divulgação científica optativa ou, quem sabe, obrigatória mesmo. Na Espanha, as universidades politécnicas jamais se preocuparam em ensinar seus alunos a difundir seus conhecimentos específicos ao grande público. Isto seria muito importante, pois os cientistas devem estar preparados para se comunicarem com qualquer público.

    E como deveria ser a formação dos jornalistas científicos?

    Como os campos científicos são muito específicos, não me parece adequado que os jornalistas sejam formados em cursos de ciência. Mas os jornalistas deveriam fazer uma disciplina de história da ciência e metodologia científica e, depois, fazer como fiz: escolher quatro ou cinco disciplinas – como física, latim, filosofia ou matemática – que, mais tarde, possam servir de base para todo o resto. A partir do momento em que os comunicadores entenderem e souberem o que é a ciência e o método científico, poderão se especializar na área de seu interesse. A Universidade de Salamanca criou um mestrado que vai além do jornalismo científico, abrangendo outras disciplinas mais complexas, como filosofia da ciência. A Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, oferece cursos de pós-graduação em jornalismo ambiental e sanitário, que equivale a jornalismo científico. Na Universidade de Valência, o jornalismo científico faz parte da grade de matérias do curso de jornalismo, coisa que as universidades norte-americanas vêm reclamando desde 1964. Continuo insistindo, no entanto, que o contrário também deve ser feito. Os cientistas deveriam ter uma formação em comunicação e também assistir disciplinas da comunicação.

    Na sua avaliação, houve uma melhora na qualidade do jornalismo científico desde o início de sua carreira?

    Acho que a qualidade vem melhorando. O suplemento de ciências do El País, na Espanha, é excelente. Ele é feito por duas jornalistas que nada têm de cientistas, mas têm uma ótima assessoria e escrevem muito bem. Mas creio que a ciência não devia estar separada em um suplemento e sim espalhada por todo o jornal. Isto porque só lê seções de ciência quem tem interesse pelo tema; se as reportagens de ciência estiverem espalhadas por todo o jornal, poderemos atrair a atenção de outras pessoas. Há jornais que dedicam bastante espaço para ciência, dependendo da sensibilidade dos diretores. Uma vez, o proprietário de uma cadeia de jornais, rádio e televisão no México, amigo meu, ia receber uma espécie de apoio do governo para publicar algumas páginas de ciências em seu jornal. Ele me disse uma coisa que nunca vou esquecer. Falou que não necessitava do apoio do governo, o que precisava era de jornalistas preparados.

     

    *Entrevista concedida a Luisa Massarani e Ildeu de Castro Moreira. Edição de texto de Carla Almeida , do Centro de Estudos do Museu da Vida/Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.