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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.57 n.3 São Paulo jul./set. 2005

     

     

    EDIMILSON DE ALMEIDA PEREIRA

     

    ENREDO

     

    I

    Não crescemos como era preciso, mas alguém deve aparar as unhas da história. Os navios continuam chegando, não os vemos, nem a colônia que fundam além da primeira página.
    Os navios, como nós, têm muitos alarmes. Nos confundimos até saber quem decifrará os icebergs. Nos punimos nas linhas que nos separam e os cães não farejam amizade em nós.
    Se um filho nascesse, o chamaríamos de urgência, sua fome mastigaria sete pedaços do mundo. E só depois que ele cuspisse, nos entregaríamos ao nosso próprio nome.

    II

    A varanda incendeia sua orfandade. Inútil o mar que transformou os ossos em corais e a fisga que os recupera para os livros.
    Uma vez perdido, como esperar o corpo? As rixas deixam nele um rastro por onde o escorbuto avança.
    Estão recolhendo gripes na areia e a pá mecânica ruge como um navio pirata, sua carga exposta enoja o mercado.
    O que foi comido pelo mar se debruça na garagem, anda descalço para que sejamos iludidos de seu perfume.

    III

    O nervo do lagarto é um irmão, pouco importa se o arrancaram de suas costas e haja mais curvas numa hélice que em sua raiva.
    Enfia um código nessa lacuna e a faça assoviar.

    IV

    Uma salva de tiros me acorda, se estão celebrando não é pelo esqueleto a quem pertenci. A cárie no dente de um morto é ameaçadora.
    Não diz nada sem a cumplicidade da língua, não expele nada, não perfura a carne que raptaram antes. A cárie envergonha o morto.
    Que dizer de seus hábitos se medidos pela saúde da boca. A salva de tiros é para impôr na praia um aviso.
    A cárie sabendo dele mais que a festa rói a si mesma.

    V

    Na fotografia que Verger não fez, os carros apodrecem. Plantas lançam seu cateter e antes de atingir o coração da máquina, a escondem. Os coletores de ferro velho assaltaram essa ermida, o deus carcaça os abençoa.
    Há que abri-lo e tirar o peixe de seu ventre. Ele se oferece sem chorar o sangue, mas não é justa a balança que transforma os seus restos em centavos.
    A mão é o maçarico ante o decalque de uma flor no pára-brisas. Para essa fotografia a que Verger se antecipou, o esquecimento é a moldura pior.

    VI

    O espírito da floresta aluga um quarto na cidade. Sufoca de não poder. De hora em hora os trens disparam e a morte compra cedo na padaria. O gato se desprendeu da rede elétrica e às escuras vemos os dentes em marcha.
    O espírito da floresta trouxe um alguidar e uma faca, com eles esfola o medo. Quando se atirou do ônibus, gritaram – valei-nos, por tudo que é. O espírito caiu em si, soprou sobre a ferida e o dia amanheceu em paz.

    VII

    A varanda desceu a escada de incêndio e deparou com o serviço da vida nas ruas. O lagarto, a cárie, os coletores de ferro velho e o espírito da floresta rabiscam a geografia da cidade.
    O que era amendoim na infância, dizem ser passatempo natural. Por um real se vende, com mil esperanças se compra. Ao braço que falta, uma camisa. Ao cego o acordeon com que nos enxerga.
    O lagarto, a cárie, os coletores de ferro velho e o espírito da floresta estão infernos. Vamos com eles salvar a a pluma do lixo.

     

    (Primeira parte do livro O mestressala)

     

     

    Edimilson de Almeida Pereira nasceu em Juiz de Fora (MG) em 1963. Poeta, ensaísta, professor no Departamento de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em co-autoria publicou, dentre outros, Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira (2001), Flor do não esquecimento: cultura popular e processos de transformação (2002). Sua obra poética se encontra reunida nos volumes Zeosório blues (2002), Lugares ares (2003), Casa da palavra (2003) e As coisas arcas (2003). Em literatura infanto-juvenil editou, entre outros, O menino de caracóis na cabeça (2001) e Os reizinhos de Congo (2004).