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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.58 n.2 São Paulo abr./jun. 2006

     

     

     

    CIDADANIA

    Desligue sua televisão!... para religá-la com mais critério e rigor

     

    Uma trégua ao espírito e aos sentidos: alguns dias sem o sensacionalismo e a violência dos programas policialescos, sem fofocas e pegadinhas dos programas personalistas de auditório ou, melhor ainda, longe dos reality shows apelativos que se multiplicam em diferentes canais, sejam eles da TV aberta ou a cabo. Poupar olhos, ouvidos, preservar a emoção e a razão frente à inutilidade e agressão dessa programação parece um bom motivo para aderir à campanha – Então desligue a sua TV e viva a sua vida ao vivo! – da Semana do Desligue a TV, que acontece de 24 e 30 de abril. O projeto, inédito no Brasil, busca levar à reflexão sobre a intensidade da presença da televisão no cotidiano das pessoas, e oferecer alternativas de lazer fora dela.

     

     

    O evento acontece simultaneamente em vários países e, de acordo com dados do Instituto Alana que coordena o projeto no Brasil, em 2005 cerca de oito milhões de pessoas participaram da campanha nos Estados Unidos, Canadá, Noruega, México, Coréia do Sul e Itália. A organização brasileira pretende oferecer opções, como descontos em museus ou parques, além de palestras sobre o papel da TV e seu impacto social, para pais e educadores. A Semana Desligue a TV foi criada pela TV-Turnoff Network, organização americana que prega a idéia de que o invés de esperar uma programação televisiva de boa qualidade, o melhor é desligar a TV com mais freqüência e aumentar o convívio social, estimulando o senso crítico na escolha da programação.

     

     

    NO BRASIL A participação na campanha, pela primeira vez este ano, tem um significado importante já que as crianças brasileiras são campeãs mundiais em tempo diário diante de um aparelho de TV. Esse é o resultado de uma pesquisa coordenada pelo Instituto Eurodata TV Worldwide em nove países, divulgada em 2005. Segundo o levantamento, nossas crianças ficam em média 3h30m diante da televisão; em seguida, estão as norte-americanas, com 3h16m; as indonésias, com 3h5m; e as italianas, com 2h43m.

    "O fato de o público infantil e jovem ficar diante da tela tanto tempo o expõe ao assédio intenso da propaganda e do marketing. Fabricantes e publicitários compreendem a importância estratégica de criar essa demanda jovem. Existe até um termo para isso – mercado futuro. É como transformar crianças em clientes fiéis pela vida toda", aponta Ana Lúcia Villela, psicóloga e presidente do Instituto Alana. "O veículo mais utilizado com esse objetivo é a televisão e, com isso, um público cada vez mais jovem é bombardeado por comerciais que transmitem uma série de valores. Por que acreditamos ser interessante comer rápido? Por que muitas meninas acreditam que para ser feliz é preciso ter a Barbie nova? Para garotos, é o novo tênis que foi lançado, para os adultos o novo carro. Além disso, estudos médicos apontam a TV como principal causa da obesidade infantil", completa a psicóloga.

    CONSUMIDOR EM POTENCIAL A pesquisadora Gilka Girardello, da Universidade Federal de Santa Catarina, considera que a publicidade televisiva tem um estilo impulsivo de pensamento que não favorece o raciocínio crítico, além de educar para o consumo. "A indústria do entretenimento trata a criança como público-alvo consumidor e não como cidadão em desenvolvimento", alerta.

    O conjunto de estudos sobre os efeitos da TV na imaginação das crianças leva em consideração o tempo frente ao aparelho, o tipo de mediação adulta, a qualidade geral de seu cotidiano e o conteúdo da programação. Segundo Gilka, no início dos anos 1980 a hipótese predominante era que a assistir televisão tomaria o lugar da brincadeira imaginativa. Pesquisas recentes mostram, porém, que o conteúdo da TV é incorporado à brincadeira. Os heróis são usados como matéria-prima de fantasia das crianças. As narrativas da TV funcionam como um pré-roteiro para a brincadeira imaginativa das crianças. "Portanto, é preciso levantar a questão da qualidade das narrativas oferecidas a elas," alerta.

     

     

    "VOCÊ DECIDE!" Os organizadores da campanha esperam que seja incorporado ao ato de religar a TV o desejo por uma programação instigante, que gere curiosidade, não seja apelativa, desperte senso crítico e incentive a auto-estima. Estes são alguns mandamentos para a "TV de qualidade", pesquisa realizada pelo Midiativa (www.midiativa.org.br) em 2005. Esses critérios definiram os programas considerados de qualidade por pais, mães e crianças entre 4 e 7 anos, entre eles, Bob Esponja, Castelo Ratimbum, e Sítio do Picapau Amarelo. Ana ressalta que o ato de ligar a TV deveria ser fruto de uma determinação pessoal.

     

     

    Uma das iniciativas do poder público para controlar a qualidade é a campanha Quem financia a baixaria é contra a cidadania da Câmara dos Deputados. O objetivo é desestimular o anunciante a patrocinar programas que violem os direitos humanos e as leis brasileiras. Para o sociólogo Laurindo Leal Filho, da Escola de Comunicações e Artes da USP que integra a comissão, a TV é uma concessão do Estado que tem obrigações com a sociedade e deve ter controle público. Ele assinala que, enquanto no Brasil não existe nenhuma instância reguladora para cobrar das emissoras modificações que se façam necessárias, em países como França, Alemanha e Reino Unido, por exemplo, existem órgãos com poder de sanção. "No Brasil, as concessionárias se acham no direito de colocar no ar o que quiserem, desrespeitando valores éticos e culturais", diz ele. Até agora, a campanha já recebeu 25.512 queixas sobre programas de TV; só no ano passado foram 5.449.

     

    Patrícia Mariuzzo