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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.58 n.2 São Paulo abr./jun. 2006

     

     

     


     

    ECOLOGIA

    Há mais aves nos grandes centros urbanos hoje?

     

    Bebedouros com água e açúcar, potes com frutas e sementes, casinhas para ninho. Estratégias para atrair passarinhos fazem parte do dia-a-dia de muitos habitantes de grandes cidades. Em anos recentes, apreciadores de aves têm notado um aumento em número e diversidade de aves urbanas. Mas será que esse aumento reflete a realidade?

    A impressão, ainda não confirmada por estudos científicos, vem tanto de leigos como de especialistas. "Lá em casa há um número surpreendente de pássaros no quintal. Sempre achei que estivesse relacionado à presença da jabuticabeira que anda muito produtiva", diz a urbanista Regina Meyer, da Universidade de São Paulo (USP). Pedro Develey, ornitólogo (especialista em aves) e autor do guia de campo Aves da Grande São Paulo (2004), concorda que há uma impressão geral de que houve um aumento das aves na cidade mas acredita ser difícil avaliar a realidade, já que não existiu um monitoramento anterior: "Os principais trabalhos sobre aves urbanas começaram mais recentemente, cerca de 15 anos atrás", diz. Na sua opinião, o que mudou foi percepção das pessoas. "A constante presença de notícias na mídia em geral teve uma grande contribuição nessa maior valorização e percepção das pessoas em relação às aves", sugere. O bom índice de vendas de seu guia de campo, cerca de 4,5 mil exemplares desde o lançamento em 2004, ilustra o interesse do público em relação às aves.

    A impressão de aumento populacional é confirmada por Elizabeth Höfling, ornitóloga do Instituto de Biociências da USP e autora do livro Aves no campus, que reúne informações sobre as aves presentes no campus da USP. Elizabeth conta que a primeira edição, de 1993, lista 130 espécies de aves. Na terceira, de 1999, o número cresceu para 146 espécies. A quarta edição está sendo finalizada pela autora, e contará com 156 aves diferentes. Segundo a pesquisadora, agora se vê a pomba-de-bando (Zenaida auriculata) que antes não era vista, e o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva) era mais raro do que agora. Porém, ela avisa que as diferenças entre os levantamentos sucessivos não refletem somente um aumento real no número de espécies, pois quanto mais longo o tempo de observação, mais se descobre sobre um ambiente. A ornitóloga, porém, acredita que houve de fato um aumento no tamanho das populações nas cidades, embora falte um trabalho de censo.

    CIDADES MAIS HOSPITALEIRAS? Qual seria a causa de um aumento na população de aves das cidades? Elizabeth acredita que o elemento mais decisivo é o "fim do estilingue". Ela conta que durante a sua infância era comum crianças capturarem aves. Hoje em dia, a ornitóloga acredita que houve uma mudança cultural, que se deve em grande parte à veiculação de campanhas de proteção aos animais através dos meios de comunicação.

    Há quem diga que a redução das áreas de floresta ao redor das cidades forçou as aves a mudarem-se para as áreas urbanas, mas de acordo com especialista não é isto que ocorre. "As aves que se vê nas cidades são principalmente aquelas de áreas abertas", diz. Develey concorda, mas acredita que as aves que vivem em áreas verdes ao redor de áreas urbanas podem aventurar-se pela cidade, mesmo que ocasionalmente. "Elas não se estabelecem, voltam para as áreas de mata nos entornos para se reproduzir", explica.

    Por outro lado, o aumento de áreas verdes dentro das cidades poderia causar um aumento na população de aves. Mas áreas verdes não bastam. Elizabeth Höfling adverte que isso só ocorre se for instaurada a cadeia alimentar completa. Por exemplo, árvores floridas atraem insetos que são essenciais para certas aves. A urbanista Regina Meyer diz que hoje em dia há mais áreas verdes associadas a certos tipos de habitação. "Há uma quantidade muito grande de condomínios fechados em São Paulo", diz. Esses condomínios incluem áreas verdes, que embora de baixa qualidade em termos paisagísticos, segundo Meyer, talvez reúnam os atributos necessários às aves. O ornitólogo Develey acredita que um bairro bem arborizado proporciona mais abrigo e alimentação do que áreas de pasto, por exemplo.

    O FUTURO DA CONSERVAÇÃO Apesar de uma conscientização ecológica mais presente nos meios de comunicação, o mundo está cada vez mais carente em áreas verdes. É preciso que haja um movimento generalizado na direção de se instituir mais parques, arborizar as cidades de forma a possibilitar a sobrevivência de uma maior diversidade de organismos. Uma nova disciplina para tratar do embate entre humanos e os demais seres vivos foi proposta por Michael Rosenzweig, da Universidade do Arizona (EUA), a "ecologia da reconciliação". Em seu polêmico livro Win-win ecology (Oxford USA Trade, 2003), Rosenzweig argumenta que o conservacionismo tradicional já não é suficiente, visto que humanos ocuparam boa parte da Terra — e não pretendem desocupá-la. É preciso, então, encontrar estratégias para permitir que as exigências da vida humana sejam compatíveis com as necessidades ecológicas de outras espécies. Como? A resposta varia conforme características locais. O ecólogo Marco Pizo, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), sugere utilizar o conhecimento existente para planejar áreas de lazer. "Nas grandes cidades, além de aumentarmos as áreas verdes, poderíamos, por exemplo, usar plantas que fornecem recursos alimentares para as aves e prover locais de nidificação para elas", propõe. Por enquanto, na falta de estratégias mais abrangentes, o jeito é continuar com nossas pequenas contribuições à vida das aves

     

    Maria Guimarães