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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.58 n.2 São Paulo abr./jun. 2006

     

    HQ NO CINEMA

    BRASILEIROS DÃO VIDA À ALDEIA DE ASTERIX

     

    Por Tutatis! diriam os moradores da irredutível aldeia gaulesa, que tem conquistado gerações de leitores em todo mundo, diante do lançamento de mais uma obra da turma de Asterix, transposta para as telas dos cinemas europeus em abril. Desta vez é a saga Asterix e os normandos, criada originariamente pela dupla Goscinny e Uderzo em 1967, e adaptada para o longa-metragem de animação Asterix e os vikings. A novidade dessa produção é que foi realizada por um tour de force de grupos de desenhistas de vários países, onde se incluem, pela primeira vez, os brasileiros. Os desenhos foram criados pela equipe da Academia de Animação e Artes Digitais, de São Paulo: cerca de 20 alunos da escola, dirigidos por Marcelo Fernandes de Moura. Antes de integrar a criação conjunta da nova aventura gaulesa, Moura já tinha experiência importante na área, em produções como a Era do gelo, Mulan, Fantasia 2000, Tigrão – o filme e A pequena sereia II . Outros quatro países – como França, Dinamarca, Espanha e China – estão no projeto, cujo orçamento ultrapassou 30 milhões de euros.

    RESISTÊNCIA DE GAULÊS A equipe de artistas brasileiros demonstrou possuir resistência digna de um gaulês. Fizeram um retiro no balneário de Águas de Lindóia, no interior paulista, para dar conta da difícil tarefa: cada segundo de filme exigiu a criação de até 24 ilustrações. Mais de um milhão de desenhos foram feitos para dar vida aos personagens de Asterix e os vikings. Segundo Moura, o desafio foi não trair a qualidade dos desenhos de Albert Uderzo que, ainda hoje, com quase 80 anos de idade, continua o mesmo gênio habilidoso a ilustrar novas histórias da turma gaulesa. "Os grupos participantes queriam pagar um tributo ao criador", comenta o diretor.

     


     

    Para enfrentar tamanho desafio, os artistas brasileiros mergulharam a fundo na obra para conseguirem retratar em cada cena as características e movimentos dos personagens, sem produzir estranhamentos aos fiéis leitores. Depois de prontos, os desenhos ainda passaram por uma verdadeira operação de limpeza. Foi preciso apagar os traços individuais, unificar as ilustrações e estar atento à continuidade, para que o Asterix que atuou no início do filme fosse o mesmo do final, ou seja, para que os expectadores tenham a impressão que apenas um desenhista fez todas as cenas do filme. A recompensa de tanto empenho brotou na face do desenhista francês que, ao ver as primeiras seqüências a cores do filme, chorou emocionado.

    POÇÃO DE SUCESSO O preciosismo dos desenhos de Uderzo aliado ao rigor detalhista e bem-humorado do texto de Goscinny foram a chave do sucesso indiscutível de Asterix durante 18 anos. Como verdadeiros druídas, a dupla francesa misturou ingredientes de impecável produção plástica, encadernação sofisticada, recursos lingüísticos adequados a cada aventura, composição de elementos históricos e ficcionais que ocorrem a partir da aldeia gaulesa que resiste aos invasores romanos, liderados por seus dois principais heróis: Asterix, o baixinho sagaz e bigodudo que se torna invencível ao tomar a poção mágica; e seu melhor amigo, Obelix, o grandão com espírito de criança, cuja força advém de ter caído no caldeirão do druída Panoramix. Tudo isso regado com preciosismo em cada cena, de humor requintado, pontuada por muitos bordões inesquecíveis – como "esses romanos são uns loucos!" "que o céu caia sobre minha cabeça" – e o tom crítico e debochado contra a cultura pop massificada e a globalização.

    Para Gazy Andraus, autor de quadrinhos e doutorando da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), Asterix é um trabalho magistral que, além de oferecer momentos lúdicos inesquecíveis, permite conhecer a história antiga e contextualizar a crítica francesa ao imperialismo norte-americano. "Asterix é uma metáfora da resistência cultural dos franceses à hegemonia norte-americana", comenta.

    Essa combinação primorosa, de texto e desenho, garantiu sucesso persistente: suas histórias percorrem o mundo, conquistando públicos de todas as idades, já traduzidas para mais de 107 idiomas ou dialetos. A recente produção Asterix e os vikings é o nono desenho animado inspirado nas HQ. Já foram feitos, também, dois filmes tendo o ator francês Gerard Depardieu no papel de Obelix: Asterix e Obelix: missão Cleópatra e Asterix e Obelix contra César.

    Os álbuns realizados pela dupla de cartunistas deixaram saudades e os últimos números, produzidos apenas pelo desenhista, após a morte de Goscinny em 1977, enfrentaram severas críticas. Entre elas, a de que Uderzo estaria acabando aos poucos com todos os mitos de Asterix. Na última odisséia, a 33ª, o desenhista faz cair o céu na cabeça dos gauleses, único medo que afligia a aldeia, substituindo os exércitos de legionários romanos por extraterrestres. Apesar de tudo, O dia em que o céu caiu já superou a marca de 80 mil exemplares vendidos em todo o mundo.

     

    Susana Dias