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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.58 n.2 São Paulo abr./jun. 2006

     

     

    FURIO LONZA

     

     

    AVENTURA EM STRATFORD-ON-AVON

     

    Nunca gostei de Shakespeare. Aquele clima sempre sombrio em florestas fantásticas, castelos mal assombrados, bruxas escrotas, tempestades sibilantes, bosques malditos, aquilo tudo em português já era um saco, imaginem no original. O que me criou um grande problema: a professora de inglês. Todos têm uma na vida, elas sempre fizeram parte da mitologia adolescente, falam outra língua, pronunciam as palavras como se estivessem numa abadia cheia de ecos. Atendia por um nome estranho, era casada, tinha cabelos ruivos bem curtinhos e vestia-se com recato. Sabendo da minha dificuldade, pediu-me para ir a sua casa depois da aula. Argumentou que seria bem mais produtivo aprender Shakespeare na prática. Eu tinha 16, ela 29. Não ouvimos o carro de Otelo chegando.

     

    ELE SABIA ESCUTAR

     

    Era um jornalista incomum. Fazia perfis de balconistas, leões-de-chácara, garçonetes, surdos-mudos, bicheiros e velhos sambistas decadentes, jamais escreveu uma linha sobre alguém que não admirasse. Ele sabia que as vidas anônimas podem ser extraordinariamente encantadoras. Era paciente, constante, obsessivo. De tão leves, as palavras pareciam flutuar acima das páginas, suas frases eram cristalinas como água mineral; em toda sua obra, não existe um único adjetivo vestido a rigor, tinha a prosa mais desafetada de toda a literatura ocidental. Não tinha pressa, era o jornalista mais lento do mundo, acariciava os temas com carinho, dava a impressão de lamber os beiços enquanto escrevia; era sutil, preciso, essencial. Dizia que a melhor conversa é sem arte, sem cálculo. Sabia escutar, importava-se com o personagem, escrevia para que o afeto não morresse. E estendia esse método para a vida. É bem provável que as mulheres o amassem tanto justamente por isso.

     

    AND THE WINNER IS…

     

    Você gosta de Eisenstein?

    take um.
    Malu me respondeu com um tratado de semiótica que poderia ter sido escrito pelo cameraman do Dziga Vertov. Fui comprar cigarros e não voltei mais. Não era o caso.

    take dois.
    Camila me disse que não entendia nada de física, mas "adorei aquela foto que ele aparece mostrando a língua, tenho o pôster no quarto, ao lado do Che Guevara e Chaplin". Fiquei na dúvida.

    take três.
    "Olha, acho chato, mas gosto". Foi um amor ceifante. Trepamos. Casamos. Temos dois filhos e um jardim pra cuidar. Depois que se formou na UFF, Patrícia fez uma pós graduação onde levanta a hipótese de que O encouraçado Potemkin é um merchandising muito do bem bolado das Sopas Campbell, mas essa já é uma outra história.

     

    TERRA EM TRANSE

     

    Ele encostava a cabeça no colo da mulher que, paciente e amorosamente, catava os piolhos do grande chefe indígena. Recitavam ladainhas e riam muito. O sol se punha e o antropólogo, triste e carente, olhava aquela cena saudoso de sua amada. Tinham se passado três anos desde o começo da expedição. No dia da despedida, o grande chefe puxou de seus próprios cabelos um chumaço de piolho, colocando-os na cabeça do antropólogo. E lhe disse:

    — Toma. Pra você brincar com teu mulher!

     

     

    Furio Lonza, 52 anos, é ítalo-carioca, tem 13 livros publicados, entre eles, Eric com o pé na estrada (Cia. das Letras, 2002), As mil taturanas douradas (Editora 34, 1995), Como enlouquecer seu filho (Ed. 34, 1996), Máquina de fazer doidos (Matrix, 2003) e O que é isso, maconheiro (Relume Dumará, 1999).