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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.59 n.1 São Paulo jan./mar. 2007

     

     

    ANTROPOLOGIA

    AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE INDÍGENA NO ESPORTE

     

    Várias etnias indígenas reúnem-se, todo o ano, para festas e eventos esportivos no Brasil. São diferentes modalidades – como cabo-de-guerra, corrida de toras, bola de borracha com cabeça, arco-e-flecha, canoagem e zarabatana – numa competição onde não se espera o anúncio dos campeões: todos são ganhadores. Alguns pesquisadores que integram a parceria da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com a Universidade Politécnica de Madri (Espanha) são freqüentadores assíduos desses eventos desde 2005, quando iniciaram sua coleta de material (equipamentos e vestuário), o que possibilitou, em outubro último, realizar a primeira exposição sobre o tema na capital espanhola. A mostra itinerante vai cumprir um roteiro pelo país até chegar ao Brasil.

    A equipe é formada por Maria Beatriz Rocha Ferreira e Vera Regina Toledo Camargo, da Unicamp, e Manuel Hernández Vázquez, Alicia Sánchez Gómez, Pedro Jiménez Martín e Diana Belén Ruiz Vicente, da Politécnica de Madri. O interesse de Vázquez no projeto vem de sua experiência como diretor do Museu de Desportes do Instituto Nacional de Educação Física (INEF), em Madri, e, por isso, entusiasta da idéia de o Brasil investir em um museu dedicado ao tema.

    O Brasil é uma das principais nações com representação indígena, distribuída em 261 etnias e mais de 350 mil indivíduos. Mesmo assim, ainda há poucas exposições relevantes sobre a cultura indígena e menos ainda sobre seus esportes, lembram as pesquisadoras da Unicamp. Existem pelo menos quatro museus, encontráveis na internet mas não listados pela Funai: Museu do Índio da Fundação Biblioteca Nacional (RJ), o Museu do Índio Tuküna, em Novo Hamburgo (RS), o Memorial dos Povos Indígenas em Brasília (DF) e o Museu do Índio, em Cuiabá (MT).

    Em maio, a equipe apresentará os primeiros resultados desse trabalho no Fórum Social Indígena, para que os índios sejam informados sobre a pesquisa em que participaram como objeto. A colaboração firmada entre as duas universidades inicia, este ano, a segunda fase e deve focar-se na divulgação das informações colhidas, por meio de exposições, publicações de livros e artigos, assim como a edição e digitalização de filmes capturados por algumas etnias e que correm o risco de se deteriorar.

     

     

    TROCAS CULTURAIS Iniciados há cerca de dez anos, os jogos de povos indígenas regionais, estaduais e nacionais têm cumprido o papel, também, de estimular o intercâmbio cultural e servir de fórum para discussões, o que fortalece a cultura das diferentes tribos. Esses eventos são promovidos pelo Comitê Intertribal – Memória e Ciência Indígena e pelo Ministério dos Esportes, entre outros apoiadores. Os jogos estaduais já ocorreram em Tocantins, Pará, Amazonas, Mato Grosso do Sul, Paraná, Goiás e Bahia.

    Com a divulgação de atividades de lazer, rituais e ritos de sobrevivência, os índios têm conseguido não apenas mostrar a importância de sua cultura para os não-índios e outras etnias, como também reforçá-la internamente, considera a antropóloga Maria Beatriz, do Laboratório de Antropologia Biocultural da Faculdade de Educação Física da Unicamp. "O depoimento de caciques mostra que eles vêem o esporte como recreação e meio de fixar o índio nas aldeias", conta. Além dos problemas de pobreza, alcoolismo e prostituição que costumam acometer alguns dos que estão próximos das cidades, o suicídio é um drama que atinge algumas etnias. Esse é o caso dos Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul, cuja média de suicídio é de 50 mortes ao ano, em uma população de 38 mil pessoas. Entre as explicações para o fato está o "esgotamento de qualquer possibilidade de recuar no espaço, diante da ‘civilização ocidental’, e, simultaneamente, ter seus valores de dignidade humana aviltados", afirma Anastácio Morgado, da Escola de Saúde Pública da Fiocruz em artigo sobre o suicídio na etnia nos Cadernos de Saúde Pública (vol.7, n.4, 1991). "O esporte não vai resolver o problema do suicídio, mas é um meio minimizar o drama", enfatiza a antropóloga da Unicamp, há 15 anos dedicada ao estudo da antropologia desportiva.

     

    Germana Barata