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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.61 no.4 São Paulo  2009

     

    WOODSTOCK

    40 ANOS DO FESTIVAL QUE MARCOU A MÚSICA E AS GERAÇÕES

     

     

     

    Eles não queriam causar grande sensação, preferiam morrer antes de ficarem velhos. De cabelos compridos e vestindo calças jeans, eles ouviam rock e a música, mais do que entretenimento, era um instrumento de contestação, de mudança social e política. E mudou. Uma das principais manifestações desse movimento aconteceu no Woodstock Music & Art Fair ou, simplesmente Festival de Woodstock, que aconteceu há 40 anos, no verão de 1969, na pequena e até então desconhecida cidade de Bethel, estado de Nova York. Era para ser um encontro para afirmar a cultura hippie, celebrar a paz e o amor e protestar contra a Guerra do Vietnã (1959-1975), mas se tornou um dos marcos culturais do século XX. Realizado com boa dose de improviso, inclusive no nome, o plano era que o encontro ocorresse na cidade de Woodstock, que durasse só três dias, que não chovesse torrencialmente, que os músicos seguissem o programa estabelecido, ao invés de tocarem noite adentro, mas apesar disso, ou por causa disso, o festival causou, sim, muita sensação.

    Para Emiliano Rivello, sociólogo e pesquisador da Universidade de Brasília, o festival representou um marco cultural e simbólico para as gerações posteriores. Revolucionou não somente a forma do artista cantar e compor, sua performance no palco, mas também os hábitos culturais da sociedade norte-americana. Woodstock deve ser compreendido dentro de um contexto histórico específico em que os Estados Unidos se defrontavam com a segregação social e racial, com a revolução feminista e com uma guerra para a qual milhares de seus jovens iam, para não mais voltar. "O festival é a base de um processo sociocultural que se desenrola por anos nessa sociedade de maneira conflituosa e se materializa ou tem seu desfecho metaforicamente na presença de um público ávido por mudanças estruturais", diz ele. "O rock'n roll adquire um grau de legitimidade que acaba por catalisar os ideais da contracultura, por meio de uma mensagem musical engajada e contestatória", continua.

     

    INDÚSTRIA CULTURAL Nos anos 1960, mais do que música, o rock era uma atitude, um modo de ver o mundo. Na década seguinte, no entanto, na euforia de vendas da indústria fonográfica, o rock foi, pouco a pouco, tornando-se mais produto comercializável do que mensagem ideológica de protesto. "Pode-se dizer que a indústria cultural obliterou, em certos aspectos, os ritmos ideológicos que embalavam o movimento rock'n roll, caracterizado pelo protesto e pela crítica à cultura, substituindo-os por novos elementos como, por exemplo, a fragmentação dos estilos (rock progressivo, heavy metal, new wave), para serem explorados comercialmente", afirma Rivello. Os anos 1980 assistiram a definitiva conversão do rock à cena da indústria cultural. "Isso não significa que, vez por outra, os próprios jovens consumidores não façam uso criativo e inesperado do pop-rock ofertado pela indústria cultural, ou mesmo que criem circuitos alternativos de música independente como as tendências do punk e do heavy metal", acredita Luís Antonio Groppo, professor do Centro Universitário Salesiano de São Paulo e pesquisador de movimentos estudantis.

     

    NOVAS CONQUISTAS Para ele a cultura hip-hop, no qual se inclui o rap, tem suas origens ligada à autenticidade perdida pelo rock, como expressão de jovens negros urbanos: seus problemas, seus desejos, suas críticas sociopolíticas. "Parte da cena hip-hop, hoje, tem algo dessa autenticidade; parte importante, entretanto, em especial aquela levada adiante pelos principais setores da indústria cultural, trocaram a politização pela ode ao consumo, as imagens de denúncia pelas imagens sensuais. Não consigo entrever, no momento, alguma tendência de música juvenil, com maior expressão, com elementos contestadores e revolucionários; mesmo que haja, entretanto, só iremos conhecê-la, provavelmente, quando ele se tornar grande por demais, e não puder ser ignorado pelo que pensa e faz a indústria cultural. Conhecemos e pensamos o que passa pela indústria cultural, e hoje por lá não passa aquele tipo de contestação e revolução que um dia Woodstock anunciou e vendeu", afirma Groppo.

    "Penso que a geração de 1960 lutou por seus ideais com base na matriz cultural daquela época. A geração de hoje se defronta com outra realidade", aponta Emiliano Rivello. Para ele, no contexto atual, a juventude não tem como propósito a luta por direitos. No entanto, alguns locais, momentos e bandas podem propiciar a interiorização de valores e sentimentos políticos. "Em grandes espetáculos musicais como os do U2 ou da Madonna, o bom senso é aproveitar porque, como diria um dos grandes críticos da indústria cultural, o filósofo frankfurtiano Theodor Adorno: 'A música não deve olhar a sociedade com um horror desesperado'", finaliza.

     

    OUTROS VALORES O Festival de Woodstock foi reeditado em 1994 e em 1999, porém sem a repercussão da primeira edição, em 1969. O motivo disso é que a matriz cultural que estruturava o movimento hippie, o punk ou o rock'n roll havia se modificado. Na verdade a percepção sociocultural da sociedade norte-americana seria composta por novos ideais. "É a cultura que estrutura a sociedade, e não o contrário", pontua Rivello. "Não se pode transpor acontecimentos culturais, políticos ou religiosos de uma época específica para outra", diz. Um exemplo, segundo ele, seria a música de Geraldo Vandré, Para não dizer que não falei das flores, vista como canção engajada nos anos da ditadura e hoje esquecida pela indústria do disco e pelo público. "No caso das versões posteriores de Woodstock, os elementos fundantes do festival original ganharam uma nova interpretação: a guerra é vista hoje como parte de uma política expansionista necessária e benéfica; as mulheres ocupam cargos de prestígio; os conflitos raciais encontram terreno específico para debate", conclui.

     

    INDÚSTRIA CULTURAL FICOU DE FORA DE WOODSTOCK Woodstock surpreendeu porque esperava reunir bem menos pessoas. Foram vendidos cerca de 180 mil ingressos, mas diante do intenso fluxo de pessoas chegando à fazenda onde o evento estava acontecendo, os organizadores decidiram torná-lo gratuito. A multidão fez sua própria música, experimentou sexo, drogas, compartilhou comida, convivendo por três dias com sujeira, lama e falta de estrutura. "Woodstock foi pensado como um evento lucrativo. Era a irresistível comunhão entre pop-rock e a indústria cultural. Mas a multidão, em sua criatividade e ilusões, fez parecer que 1969 era o ano zero de uma nova civilização", conta Luís Antonio Groppo. "Transformado em filme, o festival recuperou facilmente os lucros perdidos com a derrubada das cercas. A indústria cultural não deixou de vencer e absorver, pouco a pouco, a criatividade juvenil expressa na música pop-rock do final dos anos 1970", finaliza.

     

    Patrícia Mariuzzo