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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.62 n.1 São Paulo  2010

     

     

     

     

    RÁDIOS UNIVERSITÁRIAS

    Potencial a ser explorado para divulgação da ciência

     

    No caminho para a escola ou o trabalho, seja no carro ou pelo fone ligado ao celular guardado na mochila de quem anda de ônibus ou de bicicleta, o rádio continua sendo um dos veículos de comunicação mais presentes na vida dos brasileiros de todas as idades. E as emissoras de rádio abrigadas em universidades poderiam ser um importante canal a mais para a divulgação do conhecimento produzido no meio acadêmico para esse amplo e diversificado público. Esse potencial, no entanto, segundo estudos recentes, ainda é pouco ou mal explorado.

    O Brasil tem, atualmente, 56 rádios vinculadas a universidades, das quais 31 são de instituições privadas, 20 são de universidades federais e 5 de universidades estaduais. Em Pernambuco, a federal tem duas estações, uma AM e uma FM. No Rio Grande do Sul, as quatro federais têm emissoras próprias, uma das quais é a mais antiga do país. Em 1950, o curso de engenharia da UFRGS inaugurou transmissões que serviam como laboratório para atividades didáticas. Embora o reitor tivesse conseguido obter, dois anos depois, um sinal verde do gaúcho Getúlio Vargas, então na presidência da República, para ter um canal de ondas médias, é apenas em 1957 que começa a operar oficialmente a Rá­dio Universidade na frequência 1080 kHz, que ainda permanece.

    Em 2007, Sandra de Deus, professora da UFRGS e ex-diretora da rádio, orientou um trabalho de monografia segundo o qual certos programas que divulgam a produção da universidade têm como única fonte o próprio pesquisador ou apenas reproduzem o que já saiu no portal da instituição. E esses programas de caráter informativo são curtas inserções intercaladas à programação musical, dominada pela música erudita: ela ocupa 85% do tempo, nas transmissões. Segundo Sandra, a rádio, nesse caso, contempla apenas os ouvintes que já são apreciadores desse gênero musical e não tem nenhuma estratégia de penetração para despertar o interesse entre ouvintes que não o conhecem.

    "Penso que esse deveria ser um ponto a ser colocado em um plano de gestão das rádios universitárias e desta (a da UFRGS) especialmente. Quando dirigi a rádio (no início dos anos 2000), fiz um plano de gestão visando renovar a programação", afirma. Ela cita o pesquisador mexicano Irving Berlin Villafaña que defende o planejamento das rádios universitárias com base na audiência e em suas demandas, mas diz que a pluralidade na programação não implica apenas em apresentar novas possibilidades musicais, e sim novos formatos de programa jornalístico. "Há alguns anos, depois de muita resistência, consegui colocar no ar o programa Motivos de campo, fruto de uma ação de extensão, sobre cultura gaúcha", conta. Apesar de não estar mais no horário nobre, como no início, o programa continua no ar até hoje.

    Um estudo apresentado em setembro de 2009 no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, sobre a divulgação de ciência e tecnologia em rádios universitárias mineiras, atribui à dificuldade orçamentária das emissoras educativas a falta de conhecimento sobre o seu público e o que ele espera ouvir, mas diz que é preciso vencer esse desafio. "O aspecto não comercial dessas emissoras, muitas vezes, deixa em segundo plano a preocupação com a audiência, diferente de uma emissora comercial que necessita desta inclusive para fechar novos contratos publicitários", afirma Marta Maia, professora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), uma das co-autoras do trabalho.

    A maioria dos programas analisados nesse estudo, a exemplo do que acontece nos informes científicos da rádio gaúcha, têm como única fonte os pesquisadores da própria universidade, além de terem a predominância do formato tradicional de entrevista. A exceção, segundo o trabalho das pesquisadoras, é uma edição do programa Ufop Ciência dedicada ao tema da disfunção erétil, que usou o forró Ovo de codorna, de Luiz Gonzaga, como tema de fundo, e ouviu as perguntas e os comentários de pessoas comuns, nas ruas, sobre o assunto. "A linguagem radiofônica guarda uma relação direta entre conteúdo e forma, que, hoje, dado o avanço tecnológico, é muito tênue. O estigma de que tudo que se refere à ciência tem que ser 'sério' permeia boa parte das produções, que deixam, muitas vezes, de levar em consideração que algo pode ser sério e informal ao mesmo tempo. Seriedade não implica em sisudez. Acho que a falta de contexto, inúmeras vezes, também pode ser responsável por formatos convencionais", diz Marta.

    Se a restrição orçamentária, por um lado, impede a realização de pesquisas para conhecimento do público e de suas demandas, esse não seria o problema para se fazer programas que fujam do convencional e contemplem entrevistas com pessoas de fora da universidade, segundo a pesquisadora da UFRGS. "Já teve esse entrave no passado. Nos anos 1990, especialmente, essas rádios foram abandonadas pelas universidades. Hoje, elas não fazem (um jornalismo plural) porque não querem. Têm recurso e não têm pessoal preparado para a execução do jornalismo", diz Sandra. "Não deveria ser assim, se pensarmos que a universidade é o lugar da heterogeneidade. Infelizmente é, não por uma imposição político-administrativa, mas por uma falta de vontade de todos. É mais cômodo", avalia.

    Marta Maia não apenas concorda como faz uma comparação entre a pluralidade no jornalismo e o próprio fazer científico. "Há que se considerar o contraditório no processo de produção da informação, assim como no campo do conhecimento. Quando se fala no aspecto contraditório, não se está falando, necessariamente, em elementos negativos, mas sim em aspectos que poderiam ser contemplados e não o foram, ou ainda em outras pesquisas que levantam questões pertinentes ao assunto". Para ela, o questionamento e a crítica devem fazer parte não apenas do processo jornalístico, mas, sobretudo, do campo científico, mas acabam sendo deixados de lado no momento de divulgação da ciência.

    A pesquisadora mineira destaca que as novas tecnologias contribuem para facilitar a pluralidade dos depoimentos. "É possível entrevistar uma pessoa em outro país, captar esse áudio e utilizá-lo em um programa radiofônico", exemplifica. Mas isso, segundo Marta, não impede o repórter de rádio de ouvir as vozes das ruas, o que ela considera imprescindível. "Se o burburinho das ruas não aparece no rádio é porque o estúdio ficou restrito, literalmente, às suas paredes, o que não coaduna com os propósitos históricos do veículo, conhecido como caixa de ressonância da sociedade", conclui.

    A ex-diretora da rádio da UFRGS defende que as emissoras universitárias, especialmente as de instituições públicas, tenham uma programação diferenciada em relação às rádios comerciais. "Seu forte tem que ser a produção de documentários e a cobertura dos temas que não passam pelo rádio tradicional. Se não for assim, qual a razão de uma universidade pública possuir uma emissora de rádio?", questiona Sandra. O desafio, portanto, para aproveitar melhor o potencial das rádios universitárias para a divulgação da ciência, é aprimorar o trabalho jornalístico, fugir da comodidade de ficarem restritas às entrevistas convencionais apenas com as "pratas da casa" e aproveitar as possibilidades da linguagem radiofônica para não cair na chatice. Uma boa oportunidade para se discutir isso é o próximo Encontro Nacional de Rádio e Ciência. A terceira edição desse evento, criado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em 2006, será realizada este ano em Recife, em data ainda não definida.

     

    Rodrigo Cunha