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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.62 n.1 São Paulo  2010

     

    RESENHA

    LITERATUA E CINEMA: ADAPTANDO LINGUAGENS

     

     

    A literatura e o cinema possuem um relacionamento tão estreito que, em alguns casos, é difícil dizer onde um começa e o outro termina. Esse caso de amor é antigo, remonta às origens da sétima arte, à época em que o francês George Méliès, pioneiro na arte do cinema, se inspirou no livro de Júlio Verne Da Terra à Lua para criar seu mais famoso filme Viagem à Lua (1902) – talvez a primeira adaptação de uma obra literária para a grande tela. Mas esse caso de amor nem sempre foi tranquilo: o cinema recebeu (e ainda recebe) muitas críticas no sentido de realizar adaptações superficiais, de não compreender o verdadeiro sentido da obra literária e até mesmo de as desvirtuar. Mas o livro A literatura através do cinema – realismo, magia e a arte da adaptação (Ed. UFMG, 2008), de Robert Stam, professor titular da Universidade de Nova Iorque, tenta mudar essa ideia.

    Stam é autor de mais de 15 livros sobre cinema, entre os quais Brazilian cinema (Columbia University Press, 1995, ainda sem tradução) e O espetáculo interrompido: literatura e cinema de desmistificação (Paz e Terra, 1981). Em sua última obra, lançada pela Editora UFMG, o pesquisador faz uma análise das adaptações fílmicas de obras canônicas que vão desde Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, e Robson Crusoé, de Daniel Defoe, a clássicos da literatura brasileira, como Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, e Macunaíma, de Mário de Andrade. Sem tratar o cinema como uma arte menor, subordinada à literatura, Stam discute a arte da adaptação realizada por cineastas como Stanley Kubrick, Luis Buñuel e Orson Welles.

    O livro de Stam mostra que o cinema não é a literatura em imagens, mas possui linguagem e recursos próprios. Para levar a cabo as adaptações, o autor aponta que é preciso "desempenhar transformações temporais e sobreposições espaciais", além de "fusões e deslocamentos metonímicos e metafóricos", de modo a criar um diálogo entre o livro e o filme. Nesse diálogo a obra cinematográfica consegue, muitas vezes, lançar luzes sobre a obra literária, captando e revelando, melhor do que muitos críticos e resenhas, sua essência, afirma o pesquisador norte-americano.

    Esse é o caso de Dom Quixote, obra de 1605, considerado o primeiro romance moderno, adaptado para o cinema, em 1992, por Welles. A obra ganhou várias adaptações ao cinema, mas Robert Stam escolhe justamente a versão de Welles – mais "infiel" ao texto original, porém mais próxima do espírito da obra. Nela, o diretor pinça as principais características da obra e a transfere para um tempo moderno, em que Dom Quixote e Sancho Pança convivem com carros, televisões e até homens chegando à Lua. Apesar da narrativa acidentada, que levou dez anos de filmagens, Welles capta a modernidade do clássico de Cervantes, suas observações sagazes sobre a humanidade e toda a tradição espanhola que transpira da obra. De acordo com Robert Stam, a obra de Welles é um excelente exemplo de que a arte da adaptação não é simplesmente tirar as histórias das páginas de um livro e colocá-las na tela, mas um exercício de criatividade e liberdade, a criação de uma nova obra – e às vezes até mesmo de uma nova história.

    Mas não é sempre que esse diálogo é revelador. Muitas vezes as adaptações cinematográficas ficam devendo às obras literárias, analisa o autor de A literatura através do cinema. Em Robinson Crusoé (1719), obra adaptada para o cinema por Luis Buñuel (1954), o personagem burguês individualista e possessivo de Defoe é apresentado como mais sociável e gregário, em uma obra estranhamente conservadora à qual Stam não poupa críticas "A adaptação de Buñuel é de uma conivência frustrante com as convenções racistas e imperialistas que estão no romance de Defoe", afirma. Em Lolita, de Vladimir Nabokov (1955), a adaptação feita for Stanley Kubrick (1962) exagera na sutiliza (imposta pela censura), cortando as passagens mais densas da obra literária e não atingindo toda sua plenitude. Enquanto que Madame Bovary, de Auguste Flaubert (1857), adaptado por Claude Chabrol (1991) para o cinema, deixa de fora a riqueza estilística do livro e trata com superficialidade o que a obra tem de mais importante: sua personagem principal, Emma Bovary, com seus conflitos psicológicos, suas emoções conturbadas, seu comportamento tolo e trágico.

     

     

    CINEMA NACIONAL Sendo também um brasilianista, Robert Stam não poderia deixar de analisar as obras brasileiras. Entre elas, destaca Macunaíma (1928), adaptada para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade (1969). Para o autor, o filme consegue captar a essência da obra literária, aproveitando bem as possibilidades políticas e artísticas da adaptação. Andrade filmou Macunaíma no auge da ditadura, e transferiu o enredo para o mesmo período, condensando no filme não apenas uma crítica ao militarismo, mas também as efervescentes manifestações culturais brasileiras do período, como o Cinema Novo e a Tropicália.

    Imprimindo um olhar contemporâneo à releitura dessas obras e suas narrativas cinematográficas, Robert Stam evidencia os efeitos correlatos de uma linguagem para a outra, mostrando que a arte da adaptação ainda tem possibilidades inexploradas. Abordando questões cruciais como reflexividade, paródia, realismo e magia, ele aponta os sucessos e insucessos de se transferir as obras de uma linguagem para a outra. Para ele, o cinema não está subordinado à literatura e não é uma arte menor, concedendo, assim, uma nova dignidade à arte da adaptação.

     

    Chris Bueno