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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.62 n.1 São Paulo  2010

     

    CURTA-METRAGEM

    REALIZADOR BRASILEIRO ADERE AO CINEMA DE ZUMBIS

     

    Dentro ou fora do ambiente universitário, tem crescido a produção de curtas-metragens, aumento estimulado, em grande parte, pelo barateamento e simplificação dos equipamentos assim como ampliação dos meios de divulgação como a internet, via YouTube e congêneres. Nesse ambiente facilitador, um velho personagem parece renascer das cinzas nos curtas-metragens brasileiros dos últimos anos: o zumbi.

    Em sua origem, o personagem do zumbi foi associado a mistérios da religião egípcia como em The ghoul (O zumbi), filme britânico de 1933, dirigido por T. Hayes Hunter e produzido pela Gaumont-British Picture Corporation. Com Cedric Hardwicke e Ernest Thesiger, O zumbi traz Boris Karloff no papel do professor Morlant, egiptólogo obcecado pela ideia da imortalidade, alcançada por meio de um contrato com Anúbis. Mas os planos do professor Morlant não são respeitados e este retorna como zumbi para se vingar daqueles que violaram sua tumba.

    Mais de 50 anos depois, o zumbi servirá aos propósitos do cinema independente americano em A noite dos mortos vivos (1968), de George Romero. Desta vez não exatamente um único zumbi, mas um exército deles, uma horda de vagantes furiosos famintos de carne e sedentos de sangue. É o começo da "cientificcionalização" do filme de zumbi, com a menção a uma epidemia que transforma pacatos cidadãos norte-americanos em bestas comedoras de cérebro. A noite dos mortos vivos fundou uma franquia, influenciou diversas produções subsequentes e gerou um remake, em 1990, por Tom Savini. A fórmula, eficiente e sedutora: um jogo de pega-pega envolvendo um punhado de heróis, abandonados à própria sorte numa cidade fantasma, repleta de zumbis. Pouca luz, abandono, muito sangue e gritaria.

    O pesquisador e professor de cinema Lúcio Reis, da Faculdade de Educação e Estudos Sociais de Lambari (MG), observa que, "em termos de assiduidade na realização, sem dúvida George Romero é o grande exemplo. E isso apesar de ter rodado até agora apenas cinco filmes sobre zumbis". Reis acrescenta que George Romero inaugurou, com A noite dos mortos vivos a era do zumbi canibal, lançando as bases que renovariam o gênero daí em diante. Permanece fiel ao assunto até hoje, já com a sexta sequência – o último foi o ótimo Diário dos mortos (2007) – em andamento.

    ORIGEM DO TERMO ZUMBI Especialista em cinema de horror e exploitation, Reis explica que "a palavra zumbi vem do quimbundo nzumbi (fantasma, espectro) e acabou ligada à religião haitiana, relacionada à ideia – recorrente em várias culturas e tradições – de um morto se erguer da sepultura. Ao que tudo indica, o vodu desenvolveu-se primeiro no Haiti entre os escravos que trabalhavam nos canaviais e incorporaram aos seus deuses nativos aspectos da religião de seus senhores". O historiador acrescenta que "esse personagem ganhou mais tempero graças aos preconceitos de viajantes que, com sua visão colonialista, descreveram o Haiti como local de sangrentos rituais de magia negra, orgias selvagens e mortos reanimados. O que acabou reforçado pela superstição nativa, sem falar na indústria de turismo e estrutura de poder haitiana. Vale lembrar que a ditadura Duvalier se utilizava das crenças religiosas locais como um dos sustentáculos de seu regime. E foi o cinema que deu maior dimensão ao zumbi e o redirecionou, desde as primeiras décadas do século XX, em filmes como Zumbi branco (White zombie,1932), com Bela Lugosi revivendo os mortos para trabalharem em sua plantação e as produções de Val Lewton para a RKO, iniciadas com I walked with a zombie (1943)".

     

     

    ZUMBI DO BRASIL No ambiente do curta-metragem brasileiro, o zumbi encontrou acolhida nos últimos anos. Reis considera que a motivação dos realizadores independentes vem, sobretudo, da influência da produção estrangeira, que teria grande circulação no mercado de vídeo."Grande parte dos filmes de zumbi feitos lá fora, principalmente os realizados a partir do final da década de 1970, foram lançados em VHS por diversas empresas, algumas de caráter bem duvidoso. Ainda que com distribuição precária, serviram de inspiração para uma geração de aficionados do horror, pelos extremos gráficos a que chegavam. Gente sendo comida viva pelos zumbis, entranhas expostas, sangue… E alguns deles, por esse caráter radical, resolveram experimentar em suas próprias produções fundo-de-quintal, já nos anos 1990, momento em que câmeras já estavam bem acessíveis. É o caso do pioneiro Petter Baiestorf com seu Zombio (1999), se não a primeira, a mais interessante produção sobre o tema até então".

    Para Reis, Zombio é o mais interessante filme de zumbis realizado no Brasil. "Escrito e dirigido pelo catarinense Petter Baiestorf, é uma homenagem aos filmes de zumbi, especialmente os italianos do diretor Lucio Fulci. Repleto de referências ao cinema B de horror e ficção científica, o longa-metragem narra a história de um casal que resolve acampar numa ilha e é atacado por um grupo de mortos canibais", comenta Reis. Outro título que merece ser colocado em evidência, na opinião do pesquisador, é o curta Crônicas de um zumbi adolescente (2002), de André ZP. "Este parece aqueles filmes de adolescentes que se tornam monstros, feitos nos anos 1950 (na linha I was a teenage werewolf). Rodado em preto-e-branco, trata do fracassado Zeca que volta da sepultura como um cadáver repugnante que tenta se integrar novamente na rotina. Mais recentemente posso citar ainda outro curta, a comédia de horror Minha esposa é um zumbi (2006), de Joel Caetano (que numa versão mais longa e com um pouquinho mais de dinheiro poderia figurar no catálogo de uma Troma) e os recém-vistos e bem elaborados Era dos mortos (2007), de Rodrigo Brandão, e Capital dos mortos (2007), de Tiago Belotti. Filmes que podem ser o prenúncio de uma linha de filmes de zumbis brasileiros, pelas mãos de realizadores independentes", observa Reis.

    Minha esposa é um zumbi, curta-metragem de 24 minutos lançado em 2006, é o maior sucesso do cineasta paulistano Joel Caetano e sua empresa, a Recurso Zero Produções. O filme venceu a categoria máxima do júri popular da I Mostra do Curta-metragem Fantástico de Ilha Comprida, em 2006, e participou de mostras em São Paulo, Porto Alegre e Goiás. Sobre seu curta, Joel Caetano comenta: "O filme foi escrito para ser trash mesmo, eu não tinha a intenção de fazer uma obra-prima ou um filme sério. Uma vez, ouvi de um professor meu a seguinte frase: 'se for para fazer bem feito, faça o melhor; se for para fazer mal feito, faça o pior que puder. Assim evita ficar no meio termo.' E foi o que fiz. Espero acertar quando for fazer o 'bem feito' também!". A declaração de Caetano foi dada em entrevista à Rogério Ferraraz para o artigo "Minha esposa é um zumbi e a mistura de gêneros no cinema de Joel Caetano", publicado em Gelson Santana (Org.), Cinema de Bordas 2, editora A Lápis, 2008).

    Era dos mortos, de Rodrigo Brandão, tira vantagem da vocação metonímica do cinema para criar em Santos Dumont (MG) uma cidade-fantasma assombrada por zumbis. Trechos de telejornais e imagens de arquivo, "costuradas" a "fragmentos" da cidadezinha, estabelecem o regime narrativo propício a uma aventura apocalíptica num lugar indeterminado. Guardadas as devidas proporções, o recurso assemelha-se ao utilizado por filmes como Ensaio sobre a cegueira (2008), de Fernando Meirelles, no qual "retalhos" de São Paulo, Montevidéu, Toronto etc, "costuram" uma cidade-protótipo. Segundo o próprio Brandão, o principal modelo da narrativa de Era dos mortos está na dinâmica de videogames como Doom ou Resident Evil.

    Embora não tenha sido a estreia de Brandão em projetos audiovisuais, foi sem dúvida sua realização mais ambiciosa. Seu conteúdo pode ser baixado no site oficial de Era dos mortos (http://www.eradosmortos.com.br/), onde também está disponível para download a trilha sonora original do filme, que vai de Ambient music a Metalcore e foi composta por AlienAqtor, Disorder of Rage (DxOxRx), Flanicx e o próprio Brandão.

    No contexto de um cinema de difícil inserção comercial e mesmo sustentabilidade, o personagem do zumbi parece servir perfeitamente aos propósitos "de guerrilha" de alguns jovens realizadores independentes brasileiros. Um personagem impessoal, teleguiado, que prescinde de maquiagem ou caracterização sofisticada, de fácil manipulação e inserção em qualquer cenário. E de grande afinidade em relação ao conteúdo de novas mídias como o videogame ou a internet. Enfim, um personagem-coringa que oferece boa margem de manobra para os impulsos iniciais de qualquer jovem realizador fã de cultura pop, cinema de gênero e vida digital. Muito provavelmente, os filmes de zumbi continuarão a proliferar na vizinhança. E se você nunca assistiu a um, prepare-se: chegará o dia em que algum vai bater à sua porta.

     

    Alfredo de Oliveira Suppia