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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. v.62 n.1 São Paulo  2010

     

     

    AYDE VEIGA LOPES

     

    CAMPO DE AGRIÃO

     

     

    À tardinha a mãe mandou que ele fosse pela última vez colher o agrião. Que amanhã isto já não seria possível, nem depois de amanhã, nem depois de depois de amanhã, nem nunca. Que amanhã muito cedo chegariam homens e madeira para levantar o armazém, e ainda que algumas touceiras resistissem ao pisoteio da construção, o que era quase impossível, e ele depois pudesse ir até o lugar delas pelo alto vão que ia ficar entre chão e assoalho, isto de nada adiantaria, pois que lá estariam longe do sol, e longe do sol nem mesmo uma verdura valente como o agrião do seco é capaz de viver. Que amanhã, pois, quando o apito da serraria anunciasse a hora de sempre o pai chegar e ele fosse colher o agrião fresco para o almoço, o canteiro de agrião já não existiria.

    Então ele tomou a tijelinha das mãos da mãe, desceu os três degraus da varanda e ficou a contemplar a vastidão do terreiro, que ele sempre imaginara coberto de pés de mexerica e de melancias. Porém ali, onde antes houve pinheiros como havia ainda em toda volta da vila, ali era terra nua, nada havia, a não ser, justo no lugar em que se construiria o armazém, aquelas touceiras de agrião do seco, a que ninguém, exceto ele e o pai, dava muito valor. Amanhã nem isto haveria. Morreria o agrião para que em seu lugar se fizesse o armazém de três portas com muito comprido balcão, e por trás da parede de prateleiras o depósito de mercadorias, lugar de nichos e penumbras, bom para as brincadeiras de esconder. Sim, havia de ser bom, mas seria outra coisa, não esta que vinha desde sempre e de repente se acaba. Pois isso de as coisas se acabarem era mesmo possível, e todas as folhas que sobrassem da última colheita, até as mais tenras, acabadas de brotar, amanhã deixariam de existir. Restariam esmagadas sob os pés dos carpinteiros, sob as tábuas de pinho que aqui e ali se empilhariam à espera de se armar em construção idêntica a de todas as casas da vila, da escola, da igrejinha, do escritório, da serraria mesma, e afinal pintarem-se as paredes de idêntico amarelo e as portas e janelas do mesmo verde do mar de pinheiros.

    E quando o menino acordou no dia seguinte, tudo já começava a consumar-se.

    Muito tempo se passou desde então. As margens do pinheiral foram aos poucos se afastando na direção do horizonte, e tanto se afastaram que decerto despencaram pelas bordas do mundo, pois nem mesmo ao longe se via mais o contorno das araucárias. Daí que acabou por se esvaziar o pátio de toras, acalmaram-se os vapores da serraria, e tudo ficou muito quieto. Depois, uma a uma, milhares de tábuas se despregaram e foram apodrecer, ou existir, talvez, ainda, em lugar insabido; desmontaram-se as máquinas, arrasaram-se os últimos vestígios de que algo ali tenha acontecido, e por cima de tudo semeou-se um campo de soja. Por fim, mãe e pai desapareceram, o menino mesmo desapareceu, de modo que é impossível saber agora onde houve o canteiro de agrião.

     

    Ayde Veiga Lopes nasceu em 1955, em Ponta Grossa, interior do Paraná. Em 1990 mudou-se de Curitiba para Campinas. Exerceu, durante muitos anos, a profissão de engenheira civil, na área de hidráulica/hidrologia.