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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.63 no.3 São Paulo jul. 2011

    http://dx.doi.org/10.21800/S0009-67252011000300006 

     

    RED-POP

    A profissão de divulgador científico em debate

    Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. Os versos de João Cabral de Melo Neto inspiraram um dos inúmeros trabalhos apresentados na 12ª Bienal da Rede de Popularização da Ciência e da Tecnologia da América Latina e do Caribe (Red-Pop), ocorrida na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) no final de maio. Este é um dos principais eventos de discussão da popularização da ciência, e as palavras do poeta traduzem bem o espírito que motivou a criação da rede, "uma das mais consolidadas em divulgação científica", afirma Jorge Grandi, representante da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) no Brasil.

    Ela surgiu em 1990 a partir da ideia de um grupo de 40 representantes de 11 países da América Latina que se reuniram no Rio de Janeiro, através da Unesco no programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade. No ano seguinte, somente seis participantes continuaram a empreitada, mas, "apesar de períodos de turbulência, a rede sobreviveu e hoje está maior e maisfortalecida", considera o argentino Joaquín Fargas, atual presidente da Red-Pop. Para Graciela Merino, também representante da Argentina, que presidiu a entidade de 1995 a 99, "o sucesso se deve à união e contínua cooperação entre os países que compõe a rede". Na época de sua concepção, lembra Graciela, a popularização da ciência era um tema emergente e se discutia o conhecimento científico como forma de liberdade e eliminação da pobreza dos países do nosso continente. Além disso, "começou-se a promover congressos por causa da preocupação com o ensino de ciências e o desinteresse dos jovens por carreiras duras, como as engenharias", diz Agustín Carpio, membro fundador da Red-Pop e diretor do Museu Interativo de Ciências Puertociencia, na Argentina.

     

     

    ENCONTRO DE CAMPINAS O estímulo aos jovens por carreiras científicas continua sendo um debate atual e permeou as apresentações durante o evento da Unicamp, que comemorou 20 anos da criação da rede. Foram mais de 350 inscritos de 11 países (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Venezuela, Uruguai, República Dominicana, El Salvador, Costa Rica, México e Espanha) e 298 trabalhos apresentados, entre comunicações orais, pôsteres digitais, minicursos e oficinas, além das conferências magnas com palestrantes convidados.

     

     

    O cronograma do encontro abarcou cinco eixos: educação não formal em ciências; avaliação dos programas de popularização de ciências; jornalismo científico; materiais para popularização científica; e centros de ciências. Mas o carro-chefe da discussão foi a profissionalização do trabalho de divulgação científica que, segundo Carpio, "não é reconhecido por nenhum sistema científico do mundo".

    O trabalho de divulgação científica envolve duas questões centrais. Em primeiro lugar, como comunicar temas científicos com o rigor necessário de conceitos e detalhes que a ciência exige, sem deixar a informação e o ambiente demasiado árido para o público? Em contrapartida, como tratar os feitos científicos de modo atraente e palatável ao público, sem banalizar o tema frente aos olhos dos cientistas?

    Do lado dos cientistas, o grande entrave é que "mesmo ultraespecialistas e no domínio de suas áreas, frequentemente não conseguem transmitir seus achados de forma inteligível ao público leigo em ciências", afirmou o físico Sergio de Régules, da Universidade Autônoma do México. Esse ajuste perfeito entre as áreas cabe ao divulgador de ciência. Há forte demanda por tais profissionais capacitados que "saibam conduzir discussões verdadeiramente científicas e mostrar a dimensão social que a ciência tem", afirmou Diego Golombek, da Universidade Nacional de Quilmes na Argentina. Biólogo e divulgador, Golombek chama a atenção para o fato de que investimentos governamentais devem incluir, além das áreas de produção científica básica e aplicada, também o trabalho de divulgação e educação para a ciência. Dessa forma, "inclui-se nos debates científicos as pessoas que não trabalham com ciências e, também, busca-se despertar a vocação científica nos mais jovens", concluiu.

    PROPOSTAS EDUCACIONAIS Com o foco na formação de futuros cientistas e, também, na popularização dos temas junto a uma parcela cada vez maior da população, no encontro da Red-Pop várias sugestões e projetos foram debatidos. Entre os vários pontos abordados, está a participação dos museus de ciências em atividades complementares da aprendizagem e o uso de instrumentos lúdicos na educação científica formal em sala de aula. As apresentações orais trouxeram novidades, como o ensino de física no formato do atualíssimo stand up commedy, com o argumento de que o humor é ótima ferramenta para atrair o interesse dos alunos.

    No sarau científico, uma apresentação teatral discutiu o plantio de organismos geneticamente modificados, os famosos transgênicos. "Assim, o público se sente à vontade para interagir, perguntar e se envolver com o assunto", diz Luisa Massarani, diretora do Museu da Vida da Fundação Oswaldo Cruz e idealizadora da peça.

    Embora se possa, e seja recomendável, lançar mão de jogos e brincadeiras para ensinar ciências, o assunto é sério. O processo de formação científica das crianças exige rigor e atenção para evitar a construção de conceitos errados. "Modelos mentais mal construídos são difíceis de serem desfeitos futuramente", avalia Fábio Freitas, físico e divulgador científico da Universidade Federal da Bahia.

     

    Daniel Blassioli Dentillo