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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.63 no.3 São Paulo jul. 2011

    http://dx.doi.org/10.21800/S0009-67252011000300015 

     

    O Cerrado na perspectiva dos povos indígenas de Goiás: a arte de vida do povo Tapuia do Carretão-GO

    Eguimar Felício Chaveiro
    Lorranne Gomes da Silva
    Sélvia Carneiro de Lima

     

    Os estudos geográficos sobre o Cerrado, especialmente os que são feitos pela perspectiva da abordagem territorial, têm almejado edificar uma interpretação integrada em que, num único pleito, aglutine os componentes que compreendem o conceito de bioma e de ecossistema; os que dizem respeito ao modo como os diferentes sujeitos apropriam do solo, das espécies, do relevo, das águas etc; os que fazem referências à cultura e ao seu rico manancial simbólico.

    Ao sair da referência simples de bioma e derivar o Cerrado como um bioma-território a contradição se aclara por meio desses estudos: houve um tempo em que o Cerrado praticamente não era objeto de estudo e de pesquisa da geografia, embora, naquele tempo, o bioma fosse relativamente preservado; agora os estudos são alavancados mas o bioma, especialmente um contingente de suas espécies de fauna e flora, é destruído (1).

    Há que expor a razão dessa contradição ou, pelo menos, perguntar o seu fundamento. Ora, a mesma intenção que promulgou o silêncio da geografia sobre o Cerrado pode evidenciá-lo na farta corrente de informação própria desse tempo. Vê-se que o silêncio devia-se ao julgamento de que o Cerrado não oferecia condições físico-biológicas que fossem capazes de alimentar a sanha da economia capitalista no Brasil; agora a destruição das espécies e de outros componentes segue também o mesmo critério economicista, uma vez que angariou-se maneiras de fazê-lo gerar renda e lucro.

    O olhar hegemônico do Cerrado, dentro e fora da geografia, portanto, sofreu antes, como tem sofrido agora, o anteparo economicista. Antes das elaborações das pesquisas recentes da geografia e mesmo sofrendo todo tipo de pressão – desde a tentativa de escravidão pela forma de aldeiamento, grilagem de terras, ameaças, torturas, expulsões, chacinas e fragmentação de suas terras, subordinação de sua cultura – os povos indígenas de Goiás, os Karajá, os Avá-canoeiros e os Tapuia, por meio de sua cultura ecológica, souberam ver, amar e usar o Cerrado para a sua arte de vida sem destruí-lo. Ao contrário, os vetores economicistas destroem o bioma – e também esses povos.

    Como sujeitos primordiais – e primazes – do Cerrado, sem os signos cartoriais, sem as cercas que definem o controle das propriedades e sem a ganância que aquece o interesse das instituições hegemônicas e dos sujeitos que o veem na medida do lucro, os povos indígenas de Goiás desenvolveram saberes, mitologias, arte, antroponímias e bases de sobrevivência e culturais que são compatíveis com a profunda biodiversidade e com o rico patrimônio simbólico desse bioma-território (2).

     

     

    No presente texto cabe insistir em uma interrogação que tem sido, recorrentemente, ressaltada nas pesquisas e nos estudos empreendidos: como os povos indígenas do Cerrado desenvolvem a sua arte de vida em meio a um território marcado por um processo vertiginoso de mudanças aceleradas, cuja intenção é inserir Goiás no mundo global pela correia do mercado?

    Essa interrogação recai em outra: como o povo Tapuia que se localiza na aldeia Carretão, nos municípios goianos de Rubiataba e Nova América, numa contínua luta pela terra e por uma identidade étnica – violada pela interferência de interesses econômicos de fazendeiros da região –, estabelece a representação do Cerrado?

    Os dilemas, os conflitos e as tentativas de adaptação, inserção e/ou resistência do povo Tapuia no mundo sensível e denso do Cerrado, além da luta pela garantia da demarcação de suas terras e pela sua permanência em seus territórios, inclui a exigência de respeito pelos seus saberes, pela sua arte de vida, hábitos, tradições, lazer e festas.

    A DIMENSÃO POLÍTICA DA IDENTIDADE INDÍGENA NO TERRITÓRIO DO AGRONEGÓCIO O caminho parece longo, quando se deixa o asfalto e se direciona à cidade de Nova América, com vagar, trafegando sobre as estradinhas vicinais e sinuosas rumo às terras do povo Tapuia. O caminhante pode ver casinhas feitas ao modo do camponês goiano e se emocionar com a cenografia exuberante das cristas da Serra Dourada. O encontro com esse povo é igualmente um encontro com uma novidade: depois de viajar bastante tempo ladeado por imensas lavouras de cana-de-açúcar, o que transparece – no olho que palmilha as terras do povo Tapuia – são ambientes profundamente preservados. É o Cerrado imbricado na vida de um povo; é um povo em total atitude de respeito com o Cerrado.

    Localizada na mesorregião de Goiânia e microrregião de Ceres, distando-se 200 quilômetros da capital do estado de Goiás, Goiânia, e caracterizado por ter acesso fácil ao norte do estado, o povo Tapuia radica-se numa região constituída por vinte e dois municípios.

    Além de manchas verdes, relativamente intactas, o território Tapuia é cortado por vários córregos, o que torna a sua reserva abundante em água. Postado sobre pontos medianos ou mais elevados, o painel da drenagem desenha encontros de vários pequenos córregos que cruzam as terras alimentando as glebas das famílias. A região serrana, entrecortada de planícies, que fazem paralelas com a rede de drenagem, apresenta um mosaico enorme de espécies do Cerrado, notadamente do Cerrado stricto senso e do Cerradão. Os aclives e declives da terra interferem no modo como são desenvolvidas as culturas estritamente para a sobrevivência da população: nos declives são desenvolvidos praticamente todos os tipos de pecuária extensiva e rudimentar; nos terrenos mais planos se pratica a agricultura simples.

     

     

    Fora as atividades que se baseiam apenas na sobrevivência, a sua luta inicial foi – e é – para compor forças na construção da identidade. Proveniente das políticas indigenistas que incidiram em Goiás mediante a prática de aldear para civilizar, domesticar, escravizar e pacificar, o povo Tapuia foi juntado forçadamente pela tática do aldeamento. Por esse tipo de tática de pressão territorial cumpria-se um objetivo: criar um modo rápido e sem defesa de desocupar as terras habitadas pelos povos indígenas.

    Dessa feita, sua origem étnica está vinculada aos primeiros habitantes do aldeamento Carretão ou Pedro II, construído na região central da Província de Goiás, em 1788, para abrigar os índios Xavantes, Kaiapó do sul, Xerente, Karajá e Javaé e escravos negros e brancos.

    Ao se estabelecer na terra com uma identidade forçada, o povo Tapuia sempre lutou por sua identidade étnica, tanto nas formas institucionais para o reconhecimento pelo Estado como "índio", como nas formas sociais, com a pretensão de ser respeitado como índio pela sociedade (3).

    Quando nos deparamos, à distância, com o seu modo de vida, num primeiro momento, a maneira como lida com a culinária, a paixão pelo futebol, o trato com a pecuária, com a agricultura e a prática de conversar em círculo, são elementos que podem nos conduzir a pensar que se trata apenas de uma arte de vida igual à do camponês goiano. Entretanto, quando nos aproximamos mais profundamente de seus valores e de sua organização, e vemos seu jeito de ligar-se ao tempo, o olhar profundo e demorado no ermo, às vezes desencantado, os traços corporais na pele, nos cabelos e o seu vasto saber sobre as espécies do Cerrado, enxergamos que se trata de um povo indígena especificado pelo aldeamento.

    Mas, mais que a luta pela identidade, é a luta pela terra que é, igualmente, uma luta pela vida, o que ocorre na vizinhança do agronegócio. Na adjacência de aproximadamente 60 fazendas, o território do povo Tapuia é ilhado. Os conflitos pela terra são marcas históricas que, às vezes, ocorrem silenciosamente. Outras vezes com maiores ímpetos e veemência. Deve ser certificado que a terra é, para os povos indígenas, especialmente para o povo Tapuia, além de artefato para sobrevivência, um recurso para lazer, um componente cultural, em que os hábitos e os costumes que alicerçam a sua arte de vida podem ser mantidos.

    Além disso, a importância da terra decorre do fato de que mais da metade da população Tapuia encontra-se desaldeada atualmente. Um dos principais motivos da fuga necessária de parte considerável do povo Tapuia, segundo o cacique atual, é a pequena dimensão da terra que não garante o sustento de todas as famílias. E muitos sujeitos indígenas, apesar de morarem na aldeia, trabalham fora, geralmente em Rubiataba, Nova América e nas fazendas próximas.

    Forçados a fazerem atividades como a de diaristas, vaqueiros, empreiteiros, estão fragmentados na vivência do seu território. Desde modo, a sua pouca terra cria laços de subordinação e de violação de sua cultura. Por isso, se pode dizer: a terra é atributo essencial da liberdade indígena.

    O POVO TAPUIA E O CERRADO: SABERES DE VIDA Conforme foi enunciado, mais que proporcionar a sobrevivência, fortalecer os lastros culturais, a terra para o povo Tapuia, por se situar no bioma-território Cerrado, possui um aspecto relevante: a biodiversidade. É da rica tradição indígena de Goiás, a estreita ligação de sua vida com os elementos da natureza. A relevância do conhecimento que os povos indígenas possuem das espécies, dando a elas sentidos variados, como os de caráter mitológico, o uso de espécies da flora ou da fauna para colocar nomes nos filhos, o uso diário de frutos, a edificação do artesanato, da pintura etc, dá ao Cerrado o caráter nobre de qualificar o conteúdo de sua vida.

    No caso do povo Tapuia, os seus saberes sobre as espécies se estendem para uma diversidade de funções. O cacique Tapuia, numa caminhada, além de nomear as espécies, revelou que ele e seu povo conhecem mais de 160 tipos. Todos esses tipos são usados na medicina popular, na alimentação, na construção de instrumentos de trabalho e para ensinar aos entes das gerações mais novas o valor das plantas, dos animais, dos frutos etc. O Cerrado é um mundo de seu mundo por onde se diz o nome e consagra a vida. Numa conversa em círculo, um dirigente da Associação argumentou:

    "Nós interessamos muito para aprender sobre o Cerrado. Aqui mesmo na associação nós falamo disso. Queremos que as mulher aprenda a fazer doce, compota. Pegamos mel, fruta. E também queremo cuidá do que já tem porque nas terra dos fazendeiros num tem quase nada mais. Nós sabemos que precisamo do Cerrado e ele preciso de nós".

    De maneira contraditória, cada fração de suas terras que foi tomada por fazendeiros representa perda de seu ambiente natural que seria destinado apenas à reprodução de sua vida e às suas práticas culturais. O uso de rabo de tatu, sucupira, cabeça de nego, buchinha, velame branco, barbatimão e outras espécies, acaba sendo limitado pela redução das terras, levando-os a mudarem suas tradições e colocando-os na dependência dos medicamentos vendidos em farmácias, o que os obriga a ter que entrar diretamente na operação mercantil e financeira.

    A síntese é que o Cerrado, na perspectiva dos povos indígenas do Cerrado, especialmente do povo Tapuia, tem sido objeto de ligação direta com a sua arte de vida. A destruição do bioma-território, pela sua transformação numa arena capitalista mediado pela renda fundiária, destrói, igualmente, a cultura do povo e as suas condições de liberdade.

     

    Eguimar Felício Chaveiro é professor associado do Instituto de Estudos Socioambientais, integrante do projeto – Biotek-IRD.

    Lorranne Gomes da Silva é professora da Universidade Estadual de Goiás – Quirinópolies – integrante da pesquisa – Biotek -IRD.

    Sélvia Carneiro de Lima é mestre em geografia – Iesa/UFG – integrante do projeto de pesquisa Biotek -IRD.

     

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

    1. Calaça, M. "Territorialização do capital: Biotecnologia, biodiversidade e seus impactos no Cerrado". Revista Ateliê Geográfico. Goiânia, Vol. 1, Número 9, fev/2010. Pág. 6-23. Número Especial. Disponível em: www.revistas.ufg.br/index.php/atelie/article/view/9388/6469

    2. Gomes, H. (Coord.). Universo do Cerrado. Goiânia: Editora da UCG, 2008. Vol. 2.

    3. Ossami, Marlene, Castro. "Os Tapuia e a territorialidade: fortalecimento da consciência étnica", Revista de Divulgação Científica, Goiânia, N 1. P. 25-37, 1996.

     

    BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

    Almeida, Maria Geralda de. Tantos Cerrados. Goiânia: Vieira, 2005.

    ______. Diversidade paisagística e identidades territoriais e Culturais – Brasil Sertanejo. In: Almeida, Maria Geralda (Orgs.). Geografia e cultura: os lugares da vida e a vida dos lugares. Goiânia: Vieira, 2008.

    Barbosa, Altair Sales. Andarilhos da claridade: Os primeiros habitantes do Cerrado. Goiânia: Ed. UCG, 2002.

    Chaveiro, Eguimar Felício. "O Cerrado em disputa: sentidos culturais e práticas sociais contemporâneas". In: Geografia e cultura: os lugares da vida e a vida dos lugares. Almeida, Maria Geralda de;

    Chaveiro, Eguimar Felício; Braga, Helaine Costa (orgs). Gráfica e Editora Vieira. Goiânia, 2008. pp. 75-97.

    Chaveiro, E. F; Castilho, D. "Cerrado: patrimônio genético, cultural e simbólico". In: Mirante - revista on line. Pires do Rio, GO: Universidade Estadual de Goiás, Ano 1, n. 2, jul. 2007. Mimeografado.

    Chaveiro, E. F. & Calaça, M. "A dinâmica demográfica do Cerrado: O território goiano apropriado e cindido". In: Gomes, Horieste (Coord.). Universo do Cerrado. Goiânia: Ed. UCG, 2008a. Pág 287-307. Vol. II.

    Conservação Internacional. Hotspot Revisitados. 2005. Disponível em: http://www.conservation.org.br/publicacoes/files/HotspotsRevisitados.pdf>. Acesso em: 12 Setembro 2010.

    Coutinho, Leopoldo Magno. "O conceito de bioma". São Paulo: Acta Botânica Brasileira, Vol.2. 2006. p.13-23

    Diniz-Filho, José Alexandre Felizola e Pinto, Miriam Plaza. "Biodiversidade no Cerrado". In: Almeida, Maria Geralda de. Tantos Cerrados. Goiânia: Vieira, 2005. p. 115-128.

    Ferreira Júnior, L. G. (Org) A encruzilhada socioambiental: biodiversidade, economia e sustentabilidade no Cerrado. Goiânia: Editora da UFG, 2008.

    Gonçalves, Carlos Walter P. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

    Inocêncio, M. E. "O Prodecer e as tramas do poder na territorialização do capital no Cerrado". Tese (Doutorado) – Universidade Federal de Goiás, Instituto de Estudos Socioambientais, 2010.

    Lima, S. C. de. "A permanência do estranho: os Karajá, os Tori e as disputas territoriais do Cerrado goiano". (Mestrado em geografia) - Programa de Pós-Graduação em Geografia – Universidade Federal de Goiás, 2010.

    Mendonça, Marcelo Rodrigues. "A urdidura do capital e do trabalho no capital do sudoeste goiano". 2004. Tese de doutorado em geografia do programa de pós-graduação em geografia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Presidente Prudente. 2004.

    Walter, B. M. T.; Carvalho, A. M. e Ribeiro, J. F. "O conceito de savana e de seu componente Cerrado". In: Sano, S. M.; Almeida, S. P. e Ribeiro, J. F. (Eds.). Cerrado: ecologia e flora. Planaltina: Embrapa Cerrados. 2008, p. 19-45.

     

     

    * O presente texto é parte da pesquisa intitulada "Terras indígenas: Território, cultura e acesso aos recursos naturais" – Biotek-IRD-França, Laboratório de Estudos e Dinâmica Territoriais (Laboter)-Iesa-UFG.