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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.70 no.4 São Paulo out./dez. 2018

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602018000400007 

    MUNDO
    RECURSOS NATURAIS

     

    Bioeconomia é a nova fronteira para o futuro da América Latina

     

     

    Meghie Rodrigues

     

     

    O uso de alta tecnologia para mudar processos produtivos, tornando-os mais sustentáveis, é a principal força motora da bioeconomia. Esta é o que muitos especialistas consideram como uma das fronteiras mais importantes da chamada quarta revolução industrial, em que tecnologias físicas, biológicas e digitais se fundem para moldar o futuro - que não está tão longe assim. "Bioeconomia avançada não se resume à biotecnologia avançada", clarifica José Vitor Bomtempo, pesquisador do Grupo de Estudos em Bioeconomia da Escola de Química da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um dos conceitos mais bem estabelecidos em torno desse tema, prossegue ele, tem a ver com a bioeconomia como motor "da produção e do uso inovador e sustentável de recursos biológicos renováveis para a produção de energia, produtos químicos e materiais como plásticos ou alimentação humana e animal". A produção de etanol de segunda geração a partir do bagaço de cana e a produção de produtos cosméticos com o uso de biotecnologia são exemplos de setores onde a bioeconomia já é uma realidade.

     

     

     

     

    A Amazônia representa uma grande oportunidade para a expansão da bioeconomia, mas ainda está bastante subutilizada. O uso de altas tecnologias em cadeias produtivas "ainda é muito precário" no bioma amazônico, observa Carlos Nobre, pesquisador sênior do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Mas o potencial de crescimento é enorme.

    Aproveitar melhor a riqueza da floresta amazônica e aperfeiçoar a legislação para que esses recursos sejam bem utilizados é um passo importantíssimo para inserir o Brasil de vez na discussão mundial sobre o tema. Para Bomtempo, "precisamos avançar na elaboração de um marco regulatório para acesso ao nosso patrimônio genético".

     

    INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA

    Rafael Aramendis, especialista em administração ambiental e desenvolvimento sustentável na Colômbia, concorda com Bomtempo. Para ele, integrar os países da América Latina para o desenvolvimento da bioeconomia de ponta seria um avanço enorme para a área. No entanto, marcos regulatórios para a área "têm um desenvolvimento muito díspar entre países latinos", apesar de todos os esforços e o trabalho sério que se tem feito nos governos da região, frisa ele.

    Surpreende que o Brasil, com toda sua riqueza genética, não seja um dos líderes em termos de legislação e na integração da bioeconomia avançada no continente. A Argentina, conta Aramendis, é o país mais desenvolvido em termos de formulação de políticas e regulação nesse sentido. "Foi o primeiro país a ter uma política nacional de bioeconomia na América Latina (em 2016) bastante focada na governança regional nos diversos territórios do país". O Equador também tem tido iniciativas bastante interessantes na área, como a criação de um fundo para bioempreendimentos lançado ano passado e nos muitos acordos entre governo e universidades para desenvolvimento do setor.

    O avanço é um pouco mais lento por aqui, mas as bases para uma legislação de bioeconomia estão se formando. "Vocês têm políticas de biotecnologia, de desenvolvimento sustentável, o programa nacional de biodiesel, uma política nacional de resíduos sólidos. Com todos estes elementos é possível construir uma política nacional de bioeconomia". Esse é um setor da economia mundial, observa José Vitor Bomtempo, em que países de economias avançadas não estão muito mais à frente de países em desenvolvimento, como aconteceu com a indústria de petroquímica ou automobilística. "Estamos contemporâneos nessa transformação. A Europa tem mais tecnologia, mas não tem matéria-prima. Nós a temos. Estamos todos ajudando nessa construção em conjunto com outros países, no mesmo nível".

    O desenvolvimento da bioeconomia a partir de recursos da Amazônia é "uma proposta nova, disruptiva e acessível - com a quarta revolução industrial, muitas tecnologias se tornaram muito baratas e fáceis de usar", eliminando a necessidade de grandes laboratórios e complexos industriais para se desenvolver, observa Carlos Nobre. "É possível que as populações locais façam uso dessas tecnologias para o desenvolvimento de pequenas bioindústrias para gerar mais valor agregado do que temos hoje". Transformar isso em uma empreitada pan-amazônica está sendo "um desafio enorme", completa Nobre – e esse é o horizonte para onde os esforços estão sendo direcionados.