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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.2 São Paulo abr./jun. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000200002 

    TENDÊNCIAS

     

    A Função social dos museus e centros de ciências: integração com escolas e secretarias de educação

     

     

    Livia Mascarenhas de PaulaI; Grazielle Rodrigues PereiraII; Robson Coutinho-SilvaIII

    IDoutora em ensino em biociências e saúde pelo Instituto Oswaldo Cruz – IOC/Fiocruz, produtora cultural da Casa da Ciência – Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e colaboradora no Espaço Ciência Viva
    IIDoutora em ciências biológicas pelo Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ e diretora de ensino do campus Mesquita do Instituto Federal do Rio de Janeiro
    IIIProfessor titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ e diretor científico do Espaço Ciência Viva

     

     

    N uma sociedade permeada pela ciência e tecnologias (C&T), faz-se necessário conhecer suas potencialidades, contribuições e desafios para que as pessoas possam exercer de forma plena a sua cidadania. Nesse contexto, entre os diversos agentes que podem atuar na divulgação e popularização da C&T, os museus e centros de ciências apresentam-se como espaços profícuos para essas ações. Valente destaca que "É tendência mundial utilizar cada vez mais os museus e centros de ciência não só como instrumento de divulgação do conhecimento científico e tecnológico, mas também de democratização do acesso a esse conhecimento" [1].

    Ao longo da história, os museus e centros de ciências sofreram transformações significativas, principalmente em relação às abordagens das expografias, à sua relação com o público e à sua função social. Atualmente, discute-se um museu mais participativo, onde os visitantes são sujeitos autônomos e críticos. Muitos têm buscado se tornar espaços de reflexão e discussão acerca de temas de ciência e tecnologia, contemplando em suas ações o dia a dia da comunidade local. Adotamos aqui a perspectiva da divulgação científica e dos museus de ciências como espaços e ferramentas de inclusão social [2], uma vez que tais espaços podem atuar na promoção da inclusão de grupos que por vezes não teriam acesso ao conhecimento científico e às discussões geradas em seu entorno.

    No Brasil, houve um crescimento expressivo no número de museus e centros de ciências desde a década de 1990. A visitação a esses espaços, no entanto, ainda é muito baixa quando comparada à de museus de ciências em países mais desenvolvidos. Dados da pesquisa de percepção pública da ciência nacional de 2015 apontam que mais de 80% da população entrevistada não havia visitado nenhum centro ou museu de ciência nos 12 meses anteriores [3].

    Outro ponto relevante a se considerar é a distribuição desses espaços pelo Brasil. De acordo com o levantamento realizado para o Guia de Centros e Museus de Ciências do Brasil em 2015, houve um aumento de 41% no número de instituições do gênero no país em relação a 2009 [4]. Do total de 268 espaços, no entanto, 155 estão localizados na região Sudeste e 43 no Sul. Em um cenário como esse, de má distribuição dos espaços museais, ainda é comum que parte da população não visite ou sequer saiba de sua existência.

    Como estratégia para aumentar o seu público, muitos museus e centros de ciências têm buscado uma relação mais próxima com as pessoas que já os frequentam, mas também com aquelas que ainda não o fazem. Na perspectiva da inclusão social, destacamos a importância da escola, que se constitui como uma ferramenta essencial para possibilitar o acesso aos espaços museais, em especial para as camadas da sociedade com menor poder aquisitivo. Conforme destaca Costa, o trabalho colaborativo dos museus com as escolas é fundamental para a ampliação do seu alcance social, "uma vez que a escola é a instituição com maior penetração na sociedade e com maior capacidade de promover a sistematização com continuidade da ação educativa" [5].

    A relação dos espaços museais com o público escolar, por sua vez, passa por ações de parceria e de trabalho colaborativo entre museu, escola e secretarias de educação. Conforme afirma Köptcke: "A parceria educativa entre o ensino formal e o museu encontra justificativa dentro de um projeto social e político de democratização da cultura e da educação" [6].

    A partir das reflexões tecidas, buscamos verificar se e quais relações de parceria entre museus de ciências, escolas e secretarias de educação vêm sendo desenvolvidas pelos espaços do gênero localizados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Realizamos entrevistas semiestruturadas com os responsáveis por seis museus que aceitaram participar do estudo.

    Entre as atividades voltadas para o público escolar, todos os espaços mencionaram realizar visitas mediadas às suas exposições e ofertar cursos e programas específicos para professores. Pereira, Paula e Coutinho-Silva salientam que museus e centros de ciência "têm atuado como coadjuvantes no processo de educação científica e, com sua pedagogia própria, têm investido em ações e atividades que visam abarcar desde o sujeito que visita a exposição até o professor que busca uma formação continuada" [7].

    Se por um lado ficam evidentes os esforços dos museus no sentido de aproximação com os professores, a relação desses espaços com a direção das escolas e com as secretarias de educação demonstrou-se precária. Observamos que, em alguns casos, a parceria limita-se à divulgação das atividades do museu por meio das secretarias. Uma das dificuldades atribuídas para a construção de relações mais sólidas são as constantes mudanças de gestão da administração pública, que levam à descontinuidade de contatos feitos anteriormente.

    As parcerias entre museus e secretarias de educação faz-se necessária na medida que grande parte das ações realizadas pelas escolas, como as visitas aos museus de ciências, devem passar pelo crivo de tais instâncias. A participação dos professores nos cursos propostos pelos espaços museais também demanda a anuência das secretarias de educação e a reorganização do espaço escolar a fim de suprir a ausência do docente. Pereira, em seu estudo sobre os programas formativos de professores nos museus e centros de ciências, aponta que a falta de apoio das secretarias de educação é um empecilho na divulgação desses programas junto aos docentes e na participação dos mesmos [8].

    Ou seja, a fragilidade das relações entre museu-escola-secretaria de educação dificulta a mobilização de professores e alunos para visitas aos museus e a realização de atividades de formação nesses espaços, bem como a criação de políticas de incentivo a esse tipo de ação. A relação contínua e estruturada entre tais atores é necessária para a efetiva integração das visitas aos museus às práticas pedagógicas das escolas. Ainda que o estabelecimento dessas parcerias seja complexo, por conta de questões burocráticas e políticas, é importante que as instituições se empenhem nessa busca. Somente com esforços contínuos que visem o fortalecimento da parceria museu-escola-secretaria de educação será possível criar uma cultura de visitação aos museus e centros de ciências, o que se constitui como parte essencial da função desses espaços numa perspectiva de inclusão social.

     

    Referências

    1. Valente, M. E. A. "Os museus de ciência e tecnologia: algumas perspectivas no Brasil dos anos 1980". Anais do XVII Encontro Regional de História – O lugar da História. ANPUH/SP-Unicamp. Campinas, 6 a 10 de setembro de 2004. Cd-rom.

    2. Cazelli, S.; Coimbra, C. A. Q.; Gomes, I. L.; Valente, M. E. "Inclusão social e a audiência estimulada em um museu de ciência". Museologia & Interdisciplinaridade. Vol.1V, nº.7, p. 206-223. Out./nov. de 2015.

    3. Brasil. Percepção pública da ciência e tecnologia 2015: ciência e tecnologia no olhar dos brasileiros. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, Ministério de Ciência e Tecnologia. 2015. Disponível em: <http://percepcaocti.cgee.org.br/>

    4. Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência. Centros e museus de ciência do Brasil 2015. Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Centros e Museus de Ciência: UFRJ/FCC. Casa da Ciência; Fiocruz. Museu da Vida, 2015. 312p.

    5. Costa A. F. "A importância da colaboração museu-escola". In: Andrade, A. R. P. (org), Guia de visitação ao Museu Nacional: reflexões, roteiros e acessibilidade. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, p.7-10, 2013.

    6. Köptcke, L. S., "Parceria museu e escola como experiência social e espaço de afirmação do sujeito". In: Gouvêa, G. et al. (org), Educação e museu – A construção social do caráter educativo dos museus de ciência. Rio de Janeiro: Access, p. 107-128, 2003.

    7. Pereira, G. R.; Paula, L. M.; Coutinho-Silva, R. "Motivações para a implantação de programas formativos de professores nos museus de ciência do Rio de Janeiro". Anais do Lasera 2016, San José de Costa Rica, p.1-11, 2016.

    8. Pereira, G. R. "O ensino de ciências nos anos iniciais do ensino fundamental e a formação continuada de professores: implantação e avaliação do programa formativo de um centro de ciência", 231 p. Tese (doutorado). Programa de Pós-Graduação em Ciências Biológicas, Biofísica, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2014.