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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.2 São Paulo abr./jun. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000200004 

    BRASIL
    MEIO AMBIENTE

     

    Existe alternativa para o uso dos rejeitos de mineração?

     

     

    Patricia Piacentini

     

     

     

    A mineração é uma atividade econômica importante para o país. Dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) apontam que o setor respondeu, em 2017, por 16,7% do PIB industrial brasileiro. É uma produção que ultrapassa os dois bilhões de toneladas por ano e gera 180 mil empregos diretos e mais dois milhões de indiretos. "Os bens minerais são componentes essenciais de grande parte dos produtos utilizados pela sociedade moderna, tendo um papel fundamental tanto para a economia quanto para a população. Cada brasileiro consome, em média, anualmente, cerca de 5,4 toneladas de insumos de origem mineral. Considerando uma expectativa de vida de 70 anos, esse consumo alcança 328 toneladas, sendo gerados três mil toneladas de rejeitos por habitante", destaca Sandra Lúcia de Moraes, engenheira e pesquisadora do Centro de Tecnologia de Metalurgia e Materiais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT).

     

    GERAÇÃO DE REJEITOS

    A geração de rejeitos é uma consequência dessa atividade. De acordo com Maurício Guimarães Bergerman, engenheiro de minas e professor da Universidade de São Paulo (USP), a atividade mineral produz dois tipos principais de resíduos (subprodutos da extração sem valor comercial). "Um deles são os materiais estéreis, compostos por fragmentos grosseiros de rocha (com alguns centímetros de tamanho), resíduos da lavra (exploração da jazida mineral). São materiais dispostos em pilhas, chamadas pilhas de estéril, que costumam ser estáveis. Não temos relatos de problemas significativos com elas. O outro tipo são os rejeitos, produtos do beneficiamento mineral, que são mais finos (de alguns milímetros a frações de milímetros) e são dispostos em barragens de rejeitos", explica.

    Alguns bens da mineração geram apenas materiais estéreis em sua produção, como o caso da brita para a construção civil. Assim, não existe a necessidade de um beneficiamento desse material: tudo que sai da terra ou é produto ou vai para a pilha de estéril. "Mas, com os minerais metálicos (ferro, cobre, zinco etc.), é necessário um processamento da rocha lavrada para a retirada dos minerais portadores dos elementos de interesse, que estão finamente disseminados na rocha. A ideia é reduzir o tamanho da rocha até liberar esses minerais. Nesse caso, o rejeito do processo de beneficiamento, será necessariamente fino", explica Bergerman.

     


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    A composição do rejeito da flotação (processo de beneficiamento) varia de mina para mina. "No caso das usinas de minérios de ferro (como as de Mariana e Brumadinho), a composição é essencialmente quartzo, argilominerais e minerais portadores de ferro, como hematita, magnetita e goetita. Existe ainda uma parcela de produtos químicos usados no beneficiamento", esclarece o engenheiro.

    Um levantamento realizado pelo IPT, complementando os dados gerados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2012, indica que cerca de 4,86 bilhões de toneladas de rejeitos foram acumuladas entre 2009 e 2014 no Brasil, levando em consideração apenas 15 substâncias minerais de um total de 70 que o país produz. "Desse total, as produções de minério de ferro, ouro e fosfato superaram individualmente o patamar de um bilhão de toneladas, sendo que somente ferro e ouro já são responsáveis por mais da metade do total de rejeitos gerados. Isso indica que não apenas uma ou duas aplicações podem resolver o problema, mas muitas alternativas com potencial de uso de grandes quantidades dos rejeitos precisam ser desenvolvidas", aponta Moraes.

     

    PROCESSAMENTO DO MINÉRIO

    Segundo Renata Rodriguez, especialista em tratamento biológico de efluentes industriais e professora da Universidade Federal de Alfenas (Unifal), a indústria de mineração faz uso de grandes volumes de água em seus processos produtivos. "Como consequência, temos a produção de elevados volumes de efluentes líquidos, que devem ser armazenados em barragens ou destinados ao tratamento para remoção de todos os compostos poluidores antes que a água retorne ao meio ambiente". Para alguns tipos de efluentes podem ser utilizados reagentes químicos em etapas que envolvem a precipitação de uma fase sólida, que possa ser separada da fase líquida. "As desvantagens desse método são o alto custo dos produtos e a produção de uma lama (fase sólida) de difícil disposição. No caso do tratamento de águas ácidas de mineração (aquelas com pH abaixo de 5,0), os custos operacionais estimados são cerca de R$ 1,00 a R$ 9,00/m3, dependendo dos poluentes e do pH do efluente em questão", explica.

    Como alternativa, acrescenta Rodriguez, atualmente existem tecnologias que empregam o uso de reagentes contendo sulfeto, que levam à precipitação de sulfetos metálicos, produtos que têm potencial de comercialização ou, ainda, o uso de sistemas mais avançados que levam à produção de uma fase sólida mais concentrada, o que reduz os volumes de disposição e armazenamento e, consequentemente, os custos. "Entretanto, essas escolhas sempre vão depender da localização da mina, do tipo de minério extraído, dos rejeitos produzidos e da qualidade final que se deseja obter para a água que retorna ao meio ambiente", ressalta.

     

    USO DAS BARRAGENS

    De acordo com Bergerman, as barragens são utilizadas normalmente devido ao menor custo. Mas existem alternativas que permitem sua eliminação parcial ou total. "Os rejeitos podem ser dispostos a seco, em pilhas (como é feito com o material estéril que sai da mina), após processos de desaguamento (peneiramento, espessamento, filtragem e, eventualmente, secagem). Há, no Brasil e no mundo, diversos exemplos de minerações que operam com esses sistemas. São processos que funcionam bem, mas que agregam custos à produção. No caso de algumas minas de ferro, com volume de produção muito grande, os processos para desaguamento do rejeito também teriam custos altos", comenta o engenheiro.

    Ele acrescenta que há possibilidade de usos alternativos dos rejeitos, como fabricação de tijolos. "Cada rejeito precisa ser analisado individualmente, mas a implementação de processos industriais para esse reaproveitamento esbarra, normalmente, em questões econômicas e logísticas. Apenas uma pequena parcela dos rejeitos de uma mina permitiria fabricar todos os tijolos de que o Brasil precisa. Mas o custo de transporte desses materiais inviabilizaria a operação, além de destruir cadeias produtivas por todo o país", acredita.

     

    TECNOLOGIAS PARA MINERAÇÃO

    O aperfeiçoamento dos processos de produção e o desenvolvimento de técnicas para processar resíduos seguem como desafios para a ciência. Segundo Lucia de Moraes, do IPT, o teor do bem mineral e outros fatores relativos à eficiência do processo, fazem com que os rejeitos tenham alto percentual de material de interesse que não são recuperados e acabam descartados em pilhas ou barragens de rejeitos.

    "A abordagem de economia circular é extremamente aderente a esse contexto. Ela se baseia na ideia de desenvolvimento como um ciclo positivo contínuo que preserva e aprimora o capital natural, otimiza a produção de recursos e reduz riscos sistêmicos, administrando estoques finitos e fluxos renováveis. Esse conceito abrange a necessidade de transformar os resíduos em insumos para a produção de novos produtos", conclui a pesquisadora do IPT.