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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.2 São Paulo abr./jun. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000200017 

    CULTURA
    LITERATURA

     

    Setenta anos de 1984

     

     

    Armando Martinelli

     

     

    1984, uma das mais importantes distopias do século XX, cuja primeira edição foi publicada em 1949, completa setenta anos em 2019. Trata-se da obra mais conhecida de George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, jornalista, ensaísta e romancista nascido na Índia (então colônia inglesa), crescido na Inglaterra, e autor de outros livros importantes como: A revolução dos bichos, Dias na Birmânia, A flor da Inglaterra, Caminhos para Wigan Pier, Na pior em Paris e Londres, além de resenhas, cartas e ensaios. Traduzido para mais de 65 idiomas, 1984, está presente em quase todas as listas de livros imprescindíveis da literatura mundial. É uma obra que transcende seu tempo e o mundo das palavras para inspirar inúmeras manifestações artísticas, seja em adaptações no cinema, no teatro e na música.

    Nascido em 1903, George Orwell teve uma vida marcada pelos grandes conflitos do século XX. Era adolescente durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), lutou contra os fascistas na Guerra Civil Espanhola (1936 a 1939), quando levou um tiro no pescoço. Como correspondente da BBC, viu de perto os horrores da Segunda Grande Guerra (1939 a 1945). Todos esses acontecimentos se refletem nos seus livros, especialmente nos mais famosos como a Arevolução dos bichos e 1984, notoriamente críticos aos Estados totalitários. Uma crítica que serviu, por exemplo, para que os Estados Unidos tentassem usar 1984 como instrumento de propaganda contra o comunismo da União Soviética no período da Guerra Fria.

     

     

    Para Fabio Akcelrud Durão, livre-docente do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a obra ultrapassa as dicotomias simplistas de esquerda e direita. "É preciso reconhecer que o Partido descrito por Orwell em 1984 tem semelhanças com os da antiga União Soviética e de seus aliados no Leste Europeu. Entretanto, uma reflexão mais profunda permite observar que a burocracia hoje, principalmente no setor privado, atingiu graus absurdos, como bem mostra o antropólogo norte-americano David Graeber em The utopia of rules (2015) e em Bullshit jobs (2018). Seria assim factível notar indícios de 1984 também nas democracias liberais e seus regimes de linguagem", aponta.

     

    O "GRANDE IRMÃO" ENTRE NÓS

    1984 não só se mantém contemporâneo, como surpreendente em suas previsões. No romance, todas as pessoas têm a vida literalmente comandada pelo Grande Irmão, líder máximo que assume o poder depois de uma guerra de escala global que eliminou as nações e que resultou na criação de três grandes estados transcontinentais. Orwell descreve cartazes espalhados pelas ruas mostrando a figura dessa autoridade suprema juntamente com o slogan: "O Grande Irmão está de olho em você". Esse controle é feito por meio das chamadas "teletelas", espalhadas em lugares públicos e nos espaços mais íntimos dos lares, espécie de televisor capaz de monitorar, gravar e espionar a população. Se imaginarmos o número de monitores nos grandes centros urbanos hoje em dia, além da capacidade da internet de filtrar informações, chega a ser espantoso vislumbrar a capacidade de Orwell de prever esse mundo repleto de câmeras.

    Nesse sentido, as declarações do ex-analista da agência de segurança norte-americana Edward Snowden, que revelou a existência de uma rede de espionagem eletrônica por parte dos Estados Unidos, dão a dimensão do fato. Em dezembro de 2013, então refugiado na Rússia, Snowden disse ao canal britânico, Channel 4, que todas as pessoas carregam sensores nos bolsos capazes de os denunciarem em qualquer lugar, fazendo referência aos aparelhos celulares.

     

    ESCREVENDO A HISTÓRIA

    O livro de Orwell retrata uma sociedade onde o Estado se impõe sobre todas as instâncias. Winston Smith trabalha no chamado Ministério da Verdade, departamento responsável por falsificar registros históricos. Dessa forma, além de manipular as informações, repassando ao povo somente fatos positivos da administração central, o Estado interfere também na noção de passado, remodelando a história a seu bel prazer.

    Para Durão, o fato mais atual da obra diz respeito "à sistematização e instrumentalização da mentira como elemento político, como material a ser racionalmente explorado com fins de dominação". Ainda segundo ele, no livro "o desaparecimento total de qualquer lastro para o mundo dos valores, de qualquer resquício da moralidade ou de possibilidade de imaginação criadora nos choca profundamente, porém isso está muito próximo do que vem ocorrendo em relação ao conceito de verdade no campo político, com as chamadas fake news".

    1984 antecipou a manipulação da informação como conceito chave na esfera política. "É fato que a manipulação de informações sempre fez parte do jogo político de governos autoritários, como no nazismo, por exemplo, mas a grande diferença é que antes havia alguma noção da origem das mensagens, que de qualquer modo pertenciam à esfera pública; agora as notícias falsas se originam nos mais diversos espaços, penetrando inclusive, e principalmente, nos círculos pessoais e íntimos. A velocidade e quantidade assombrosa faz com que sejam ainda mais nocivas, com impactos decisivos nas eleições de candidatos a governos democráticos", finaliza o pesquisador da Unicamp.