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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.3 São Paulo jul./set. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000300002 

    TENDÊNCIAS

     

    A reconstrução do Museu Nacional: bom para o Rio, bom para o Brasil!

     

     

    Alexander W. A. Kellner

    Diretor do Museu Nacional/UFRJ. Contatos: kellner@mn.ufrj.br; kellner@KellnerMn

     

     

    No momento no qual escrevo estas linhas, estou na Alemanha e França em busca de ajuda para a reconstrução do Museu Nacional, instituição alocada na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 1946. A cada dia fica mais nítida a impressão de que governos do exterior dão mais importância ao museu do que o nosso. Aqui fui recebido por diversas autoridades, inclusive a ministra de Relações Exteriores da Alemanha, que anunciou a liberação de mais uma cota de um valor total de um milhão de euros prometidos ao museu. Na França, fui recebido por representantes de diferentes ministérios que atuam na área da pesquisa e cultura, todos interessados em saber a quantas anda a reconstrução do museu e como eles poderiam ajudar. Enquanto isso, em terras brasileiras, tenho enorme dificuldade em ser ouvido pelo nosso governo. Já perdi a conta de quantas audiências solicitei para mostrar a situação e as necessidades da nossa instituição, sem contar os convites enviados para que ministros visitassem o museu e se inteirassem in loco da nossa realidade. Recentemente, houve uma sinalização positiva de uma audiência no Ministério da Educação (MEC) que, espero, se concretize. Como procuro sempre enfatizar, nem tudo se resume a verbas! Sem o apoio do MEC teremos uma enorme dificuldade em reconstruir o Museu Nacional.

    Estando na França, não há como não traçar um paralelo entre a recente tragédia que atingiu a catedral de Notre Dame (15/4/2019) e o incêndio do Museu Nacional (2/9/2018). Praticamente, em menos de 48 horas, a promessa de doações para a catedral da "cidade luz" ultrapassou o valor necessário para a sua reconstrução: segundo a Reuters, quase um bilhão de euros. Sim, um bilhão, e da moeda europeia. Enquanto isso, no caso brasileiro, as doações nacionais somavam até 2 de junho, nove meses depois da tragédia, R$ 316 mil. Adicionando os R$ 756.106,60 do governo alemão, passamos para pouco mais de um milhão de reais. Apesar de não se saber exatamente quanto custará a recomposição da sede do museu, uma estimativa inicial é que menos de 15% do valor arrecadado para a catedral francesa seria suficiente. Entretanto, nesse valor não está computado o acervo perdido, cuja recomposição será uma luta à parte - mais longa e mais problemática. Isso porque a destruição de parte das coleções do Museu Nacional, infelizmente, extrapola em muito as perdas de Notre Dame. No caso da catedral francesa, além da secular construção em si, não se perdeu praticamente nada do acervo francês, o que somente foi possível graças à ação diligente dos bombeiros e das condições existentes para a contenção do fogo. Enquanto isso, no caso brasileiro, não havia água em pressão suficiente nos hidrantes nas cercanias do museu que pudesse ser utilizada. Por mais absurdo que possa parecer, esse fato não é o pior! O que realmente chama a atenção é que, mesmo meses após a tragédia, eles continuam não funcionando!

    Evidentemente, temos a consciência de que faltou muito mais do que água nos hidrantes para evitar o sinistro, mas acho que aqui cabe aquela anedota da pólvora e do canhão. Entre os 99 motivos que o soldado queria apresentar ao general para justificar porque o canhão não funcionou, ao ouvir o primeiro - a falta de pólvora - o militar graduado não precisou escutar mais nada. Sem água não se combate um incêndio...

    Nessa viagem à Europa também ficou evidente algo que muitos no Brasil se perguntam: como foi possível que uma nação deixasse o seu bem cultural maior, com o qual a história do país se confunde, abandonado à própria sorte por décadas? O palácio de São Cristóvão abrigou a família real portuguesa e a família imperial. O nosso segundo imperador, D. Pedro II, nasceu naquele imóvel, assim como a sua filha, a princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea. Ali morou - e faleceu - Dona Leopoldina, uma mulher esclarecidíssima, que tanto influenciou o processo que culminou na independência do Brasil. A nossa primeira imperatriz sabia o valor da ciência e tinha uma boa noção sobre a importância do desenvolvimento cultural de um país.

    Depois tivemos a proclamação da República, em 1889. E onde foi realizada a primeira Assembleia Constituinte Republicana? Exatamente na antiga residência da família imperial. Ou seja, até mesmo a origem do sistema político atual do Brasil teve o seu berço no palácio do parque da Quinta da Boa Vista, que em 1891 se tornou a sede do Museu Nacional. Se existe uma edificação no país que deveria contar com a máxima atenção dos governantes, era esse palácio! Isso sem falar que ele abrigava um acervo extremamente raro e importante.

    A perda de parte das coleções é, talvez, o pior aspecto dessa tragédia. Estimamos que entre 75% e 78% do acervo foi afetado pelo incêndio. Havia múmias, tanto egípcias como andinas, milhões de espécimes representando a biodiversidade atual e do passado da Terra, minerais, documentos raros, como cadernos da imperatriz Leopoldina e o acervo da bióloga e ativista feminista Bertha Lutz (1894-1976), e muito mais.

    Um alento é o fato de que nem tudo foi perdido. As coleções dos departamentos de vertebrados, botânica, coleções específicas de invertebrados e de arqueologia, como também a biblioteca, não foram afetados por estarem em outras edificações. Esse era um projeto antigo do museu - retirar as coleções e a parte administrativa do palácio, que seria reformado e as exposições ampliadas. Mas o país priorizou estádios de futebol e até mesmo a construção de novos equipamentos museais ao invés de cuidar dos antigos e suas valiosas coleções.

    A maior ironia de toda essa situação é o fato de que, depois de décadas de descaso, a instituição havia finalmente conseguido um financiamento por parte do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) que previa, inclusive, sistemas de prevenção de incêndios e anti-pânico. Infelizmente, tarde demais.

    Porém, depois de toda catástrofe, sempre há o dia seguinte. Sem procurar mitigar os efeitos trágicos do incêndio, abre-se agora uma nova janela de oportunidade: a de reconstruir o museu, de forma que este sirva de modelo para outras instituições! Não é uma meta fácil, porém ela é factível e se encontra no horizonte. Os projetos de reconstrução e das novas exposições já foram iniciados. As primeiras verbas - com ou sem cortes - já foram alocadas pela bancada federal do Rio de Janeiro. Neste momento, também temos a oportunidade de repensar a interação entre museu e sociedade, algo que muitas instituições museais pelo mundo já fizeram. Precisamos fazer do museu um centro onde, ao mesmo tempo, possamos inspirar as pessoas com a beleza da natureza e chamar atenção para a sua fragilidade. Baseados na geração de conhecimento de qualidade, nós podemos atuar com instituições congêneres nas discussões que afetam a nossa sociedade e o futuro do planeta.

    Também temos que alertar o governo sobre a importância de reconstruir o Museu Nacional, um dos poucos exemplos de instituição que transcende fronteiras e que pode ser considerada um patrimônio mundial, o que traz enormes benefícios, mas também demanda responsabilidades. A reconstrução desse que é o museu mais antigo do país, prestes a completar 201 anos, tem que ser vista como uma das iniciativas que poderão devolver vigor e autoestima para o Rio de Janeiro, tanto a cidade quanto o estado, tão desacreditados nos dias de hoje. O mesmo vale para o nosso país, cuja imagem está bastante arranhada no exterior, inclusive pelo abandono dos seus bens culturais. Muitas instituições internacionais estão dispostas a auxiliar na reconstrução do Museu Nacional, mas o nosso país tem que fazer a sua parte. Sempre devemos relembrar aos nossos governantes que um museu que não dialoga com a sociedade está condenado à extinção; porém uma sociedade que não valoriza e não investe em seus museus já está, pelo menos em parte, culturalmente extinta.

    Finalizo com o que talvez possa vir a ser um novo slogan: Reconstrução do Museu Nacional – bom para o Rio, bom para o Brasil!