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    Ciência e Cultura

    On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.3 São Paulo July/Sept. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000300005 

    MUNDO
    ENTREVISTA: PAUL HENRY

     

    Contra a evidência das oposições

     

     

    Mariana Garcia de Castro Alves

     

     

    Em tempos de crise, a utilidade do conhecimento em geral é posta em questão. Assim, a relação entre a filosofia e a ciência torna-se uma discussão necessária. Para falar sobre o tema, a revista Ciência&Cultura traz uma entrevista com Paul Henry, 81, pesquisador do Centre National de La Recherce Scientifique (CNRS) e ex-presidente do Colégio Internacional de Filosofia. Bastante conhecido no campo de estudos de linguagem, Henry é um dos fundadores da análise do discurso francesa - juntamente com Michel Pêcheux e Michel Plon - trazida pela linguista Eni Orlandi às universidades brasileiras nos anos 1980. Licenciado em ciências da matemática em Paris, com certificado de estudos superiores em linguística geral, etnologia e história das religiões, Paul Henry encarna a modernidade caracterizada, por ele, pelo questionamento das oposições, inclusive à suposta entre ciências "duras" e "moles".

    Ao transitar, de modo rigoroso, entre áreas diversas do conhecimento, com o livro A ferramenta imperfeita, de 1977, traduzido pela Editora da Unicamp, o autor parte de uma indagação da lógica e chega a uma configuração da linguagem ordinária como sendo o impossível que lhe escapa. Sobre ele e essa obra, o psicanalista Jacques Lacan chegou a afirmar, em janeiro de 1978, que não podia dizer melhor o que Paul Henry dissera sobre a linguagem: "un mauvais outil"(ou seja, uma ferramenta imperfeita, remetendo ao título da obra). Em passagem mais recente pelo Brasil, em 2017, deu palestras em diversas cidades e ministrou seminários no curso de Mestrado em Divulgação Científica e Cultural, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo, Labjor/Unicamp (com financiamento da Fapesp).

     

     

    Ciência&Cultura: Em um mundo em crise orçamentária, a redução de recursos para as ciências humanas, as primeiras a serem alvo de cortes, inclusive no Japão, supõe a existência da separação entre a filosofia, as ciências sociais e as ciências "duras", como a matemática, física, engenharia. Para o senhor, existe separação entre ciência e filosofia?

    P. Henry: É necessário questionar a distinção entre ciência e filosofia. Não é óbvio. É só pensar em Descartes, Leibniz ou Pascal, entre outros, para lembrar que essa distinção nem sempre foi feita, que ela tem uma história. Essa distinção foi estabelecida durante o século XIX no âmbito da instituição universitária como era então estruturada. Essa separação tem um caráter fundamentalmente acadêmico. Todos os grandes avanços científicos se deram junto com as reconfigurações do lado da filosofia. Mas não podemos apenas dizer que esses grandes avanços científicos forçaram retrabalhos na filosofia ou, inversamente, que esta última, por meio de sua transformação, preparou o caminho para as transformações da ciência.

    C&C: Por quê?

    P. Henry: Porque a segmentação acadêmica não poderia deixar de ser posta em questão. Essa evolução se fez dentro do contexto de um questionamento geral das grandes oposições metafísicas que estruturam tanto a metafísica envolvida no trabalho científico quanto o discurso filosófico em si. A consequência foi que começamos a falar de interdisciplinaridade, de multidisciplinaridade, mas essa era apenas uma maneira superficial de designar as transformações fundamentais do campo do conhecimento que estavam em andamento.

    C&C: Quais transformações?

    P. Henry: As oposições como natureza e cultura, consciente e inconsciente, masculino e feminino etc., passam a ser questionadas. Essas oposições não foram pura e simplesmente abandonadas, mas deixaram de parecer óbvias. Isso, para mim, é a característica do que nós podemos chamar de modernidade. Devemos a Jacques Derrida por ter formulado da maneira mais acabada essa transformação.

    C&C: Quais são as consequências do questionamento dessas oposições?

    P. Henry: A dimensão ética e política dessa mutação põe em embaraço os dogmatismos e os fanatismos sob todas as suas formas. E, claro, provocou a reação de todos os reacionários dos diversos conservadorismos e fanatismos. Essas reações atualmente assumem formas extremas em todos os lugares. Entre muitas outras coisas, as manifestações contrárias massivas suscitadas pelo estabelecimento do casamento para todos na França é o resultado de tal movimento, ao apresentar uma oposição intangível, de essência, do masculino e do feminino.

    C&C: E a filosofia questiona a essência...

    P. Henry: A oposição caracteriza a maioria dos fanatismos e conservadorismos presentes, tanto do Daech [Estado Islâmico] quanto do movimento contra o aborto, especialmente nos Estados Unidos. Portanto, não é surpreendente que, nessas condições, estamos atacando as ciências humanas e sociais que foram formadas no escopo da modernidade e que lhe são solidárias. Tomemos o caso da física cósmica com este universo que ela nos diz estar infinitamente em expansão sem ter nenhum exterior. Isso não supõe que estamos questionando uma oposição tão fundamental quanto a do interior e do exterior, a do dentro e do fora? O que poderia estar dentro que não estaria do lado de fora? O que torna possível conceber isso, de pensá-lo?

     

     

    C&C: Sua formação primeira é em matemática, mas o senhor foi levado a outros campos como a linguística e a filosofia. Nos anos 1960, enquanto Althusser propunha que todos fossem filósofos e depois entrassem em áreas específicas, Desanti, por outro lado, propunha ir direto para as ciências positivas. Como se deu esse trânsito no seu caso?

    P. Henry: Eu fui formado nesse contexto que acabei de mencionar. Eu achei natural, para não dizer necessário, depois de ter recebido uma formação em matemática (que incluía uma parte importante da física) complementar esses estudos com linguística, etnologia, história das religiões, história e filosofia das ciências, psicologia.... Conheci os modelos formais das estruturas elementares do parentesco, bem como o status igualmente formal das gramáticas gerativas. Tive a sorte de poder estar com os dois pés neste campo do saber da modernidade. Sobre a diferença entre Althusser e Desanti, acho que deve ser levado em conta que Desanti estava interessado em matemática inclusive a partir de um ponto de vista filosófico (ele é o autor de um trabalho fundamental sobre "As idealidades matemáticas duras"). Althusser não teve, parece-me, qualquer prática em matemática. Tudo o que posso dizer hoje é que a relação entre matemática e filosofia parece-me bastante singular.

     

     

    C&C: Como a matemática se reflete no seu trabalho hoje? Se não há descontinuidade entre filosofia e ciência, como se dá a relação entre disciplinas?

    P. Henry: Mais recentemente, tenho estado particularmente interessado na distinção entre sentido e significação. Essa distinção interessa notadamente à filosofia, à linguística e mais amplamente às ciências da linguagem ou à psicanálise. O que eu quero dizer a você hoje é que, de repente, tive a intuição de que, apelando para o conceito matemático da sequência numérica, eu poderia iluminar essa distinção que se mostrou promissora e convincente para aqueles aos quais pude apresentar meu trabalho. Não vejo qualquer descontinuidade entre as ciências chamadas "duras", representadas neste caso pela matemática e pela filosofia ou ciências humanas. Isso não significa que não haja diferenças. Eu não "apliquei" o conceito de sequência numérica ao problema da distinção entre sentido e significação. O que falta reconhecer, segundo penso, é que não se pode sair de uma disciplina, qualquer que seja ela, para ser capaz de conceber uma série de questões que nela se enquadram.

    C&C: É lícito pedir utilidade "científica" para a filosofia?

    P. Henry: Não penso que tudo o que se chama filosofia tenha alguma utilidade para as ciências, embora eu não goste de falar em termos de utilidade. Não é um argumento de utilidade que hoje é apresentado para questionar o interesse das ciências humanas e da filosofia? Do meu ponto de vista, as ciências, quaisquer sejam elas, implicam a filosofia particularmente em suas dimensões teóricas. Mas há filosofia e filosofia. Lembremo-nos de que a ciência se tornou moderna essencialmente só com Galileu, ao se apoiar sobre as matemáticas. Mas isso supunha que fôssemos, ao menos em parte, libertos da filosofia e da metafísica escolástica inspirada em Aristóteles. A filosofia que pode ser «útil» para a ciência hoje é aquela que vem da modernidade, uma filosofia que questiona as oposições fundamentais.