SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.71 número3 índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Indicadores

    Links relacionados

    • Em processo de indexaçãoCitado por Google
    • Não possue artigos similaresSimilares em SciELO

    Compartilhar


    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.3 São Paulo jul./set. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000300006 

    ARTIGOS
    100 ANOS DO ECLIPS EDESOBRAL

     

    Apresentação

     

     

    Alfredo TolmasquimI; Ildeu de Castro MoreiraII

    IDiretor de desenvolvimento científico do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro
    IIDocente no Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

     

     

    O eclipse total do Sol tem encantado e amedrontado os seres humanos desde os tempos mais remotos. Caraterizado pela passagem da Lua na frente do disco solar, as pessoas eram surpreendidas pelo encobrimento do Sol e o repentino escurecimento do dia. Praticamente todas as sociedades antigas criaram seus mitos e explicações sobre o eclipse do Sol. Para os chineses, dragões e cães gigantescos devoravam o astro, para os vikings eram grandes lobos, já para os tupis-guaranis era a onça que devorava os irmãos Sol e Lua. Para muitas dessas comunidades, era preciso fazer muito barulho para espantar o monstro que engolia o Sol. Para algumas tribos africanas, era um sinal de que os deuses estavam bravos, e era preciso que os vizinhos fizessem as pazes para que a luz retornasse. Enquanto para muitos povos o eclipse do Sol era visto como um anúncio do fim do mundo, para outros era um sinal de fertilidade, quando o masculino (Sol) e o feminino (Lua) se encontravam, e indicava tempos de fartura.

    Também para astrônomos e cientistas de diversas áreas, os eclipses totais do Sol têm um significado muito importante, embora por outros motivos. Eles aprenderam, ao longo dos séculos, a calcular as órbitas e os movimentos dos corpos celestes e a prever quando e de onde seria possível observar o fenômeno astronômico. A partir dessa capacidade de previsão, era possível se preparar para observar o eclipse, fazer medidas e aproveitar a ocasião em que o Sol é encoberto pela Lua para tentar responder a novas questões, em particular sobre a estrutura do astro e sobre o comportamento da luz. Em 1912, em Cristina (MG), houve uma tentativa frustrada de uma comissão astronômica argentina, chefiada por Charles Dillon Perrine, de se medir a deflexão da luz durante um eclipse solar.

    A tentativa bem sucedida veio a ocorrer no eclipse solar de 29 de maio de 1919, que foi observável em uma faixa que ia do Nordeste/Norte brasileiro à costa oeste da África. Uma comissão brasileira do Observatório Nacional aproveitou a ocasião para estudar os fenômenos que ocorriam na parte mais externa do Sol - a coroa solar -, possível de ser observada quando o restante do disco solar está ocultado. Uma comissão americana, por sua vez, estava interessada em estudar a influência do Sol sobre o magnetismo terrestre e sobre as propriedades eletrostáticas do ar, comparando o momento em que a Lua se interpõe entre o Sol e a Terra com as demais ocasiões, quando a Terra é atingida diretamente pelos raios solares.

    Provavelmente, esse eclipse seria apenas mais um entre tantos outros que ocorrem de tempos em tempos se não fosse o objetivo de duas comissões astronômicas britânicas de comprovar um dos fenômenos previstos na teoria da relatividade geral: a deflexão da luz proveniente das estrelas quando passasse próxima ao Sol. Essa teoria, que Albert Einstein havia elaborado quatro anos antes, propunha uma nova explicação para o movimento dos corpos no espaço, contrapondo-se à teoria gravitacional de Isaac Newton formulada dois séculos antes e que era amplamente aceita.

    Uma dessas expedições, composta pelos astrônomos Arthur Eddington e Edwin Cottingham, observou o eclipse na Ilha do Príncipe, na costa oeste da África, na época pertencente à Portugal, e a outra, formada por Andrew Crommelin e Charles Davidson, observou o fenômeno da cidade de Sobral, no Ceará. As sete excelentes chapas fotográficas tiradas em Sobral apresentaram resultados bem mais precisos do que as duas da Ilha do Príncipe. O Brasil se tornou, assim, o local onde foi realizada a principal observação astronômica que proporcionou uma evidência muito forte para a confirmação e a aceitação da teoria da relatividade geral de Einstein, que alteraria profundamente a nossa visão sobre o universo. Quando Einstein esteve no Brasil em 1925, seis anos após o eclipse, ele escreveu uma dedicatória aos brasileiros: "A teoria que minha mente formulou foi respondida pelo ensolarado céu do Brasil".

    Em maio de 2019 foram comemorados em vários locais do Brasil e do mundo, e especialmente em Sobral, os 100 anos da observação do eclipse total do Sol que mudou a história da ciência. Neste Núcleo Temático apresentamos textos de pesquisadores brasileiros e portugueses que nos ajudam a compreender o contexto, o significado e os resultados obtidos durante o eclipse de 1919.

    O primeiro deles, escrito por Jorge Castiñeiras e Luís Carlos Bassalo Crispino, e intitulado Relatividade geral: fundamentos e primeira comprovação experimental, explica no que consiste a teoria da relatividade geral e porque a observação da deflexão da luz medida durante o eclipse foi decisiva para a sua comprovação. Para tal, eles partem de Galileu Galilei para explicar três princípios básicos da física: o princípio da relatividade, que estabelece que o movimento é relativo ao seu observador; o princípio da invariância da velocidade da luz; e o princípio da equivalência, que estabelece a equivalência entre a massa gravitacional e massa inercial de um corpo. Esses conceitos foram tomados por Einstein como ponto de partida para a construção de sua teoria da relatividade geral e conduziram à superação das leis do movimento e da gravitação universal enunciadas por Isaac Newton em 1686. O texto apresenta ainda os diversos instrumentos utilizados, tanto em Príncipe como em Sobral, e os resultados obtidos, que levaram à verificação do desvio e à medida do ângulo de deflexão da luz.

    No texto seguinte, A participação brasileira no eclipse solar total de maio de 1919: observando a coroa solar para melhor defender a ciência, Antonio Augusto Passos Videira nos remete à realidade brasileira da época. Podemos acompanhar o envolvimento dos astrônomos do Observatório Nacional na observação do eclipse, com as observações sobre a coroa solar, bem como dando suporte à comissão britânica. A partir principalmente dos relatos de Henrique Morize, diretor do Observatório Nacional e presidente da comissão brasileira, além de presidente da Sociedade Brasileira de Ciências, precursora da atual Academia Brasileira de Ciências, é possível perceber as dificuldades de se fazer ciência no Brasil naquela época (muitas delas persistem até hoje). O eclipse de 1919 acontecia em um momento em que os cientistas brasileiros tentavam mostrar aos governantes a importância de se fazer ciência, mesmo que sem uma utilidade pré-definida, o que era chamado na época de "ciência pura".

    Em seguida, Joyce Mota Rodrigues, por meio do artigo Observar é preciso: a cidade e os "illustres hóspedes", retrata a movimentação em Sobral para a observação do eclipse e o cotidiano das expedições britânica, americana e brasileira. Pela análise de artigos e anotações dos cientistas, a autora mostra a visão dos astrônomos sobre os habitantes da cidade, enquanto que, por meio dos jornais locais, registra a forma como a população de Sobral compreendia o eclipse e como via aquele grupo de cientistas brasileiros e estrangeiros. O artigo ilustra também as relações travadas entre os cientistas, as autoridades e a imprensa local, contrastando suas diferentes visões de mundo.

    Ildeu de Castro Moreira, no artigo O eclipse solar de 1919, Einstein e a mídia brasileira, faz um mergulho nas notícias publicadas nas revistas e jornais brasileiros sobre o eclipse de 1919. Ele analisou, de início, o interesse e o tipo de cobertura da mídia sobre o eclipse solar observado em 1912 no sul de Minas Gerais e em São Paulo. No caso do eclipse de 1919, foi investigada a cobertura dos periódicos brasileiros sobre o fenômeno, o dia a dia dos astrônomos e os textos explicativos dos cientistas. Curiosamente, ao contrário do que ocorreu com as mídias britânica e norte-americana, os resultados do eclipse de Sobral, que confirmaram a previsão de Einstein, tiveram pouco espaço na mídia brasileira, com exceção de textos curtos escritos por Manoel Amoroso Costa e por Morize.

    Em seguida, Ana Simões nos conduz para a Ilha do Príncipe. Amparada principalmente nas cartas trocadas por Arthur Eddington com a mãe Sarah Ann e com a irmã Winnifred, o artigo O eclipse de 1919 e a teoria da relatividade: rumo à Ilha do Príncipe apresenta o dia a dia e as dificuldades enfrentadas pelos astrônomos ingleses que se dirigiram àquela região. Por meio de seu relato, é possível perceber a organização e a infraestrutura necessárias para um projeto de tal envergadura: escolher o melhor local para a observação, transportar duas toneladas de equipamentos por longas distâncias (7.200 km no caso de Sobral e 5.800 km para Príncipe), montar uma infraestrutura no local para receber os instrumentos, entre outras exigências. O roteiro de Eddington e Cottingham começou com a viagem de trem de Greenwich para Liverpool, depois de navio para Lisboa e, em seguida, para Funchal, na costa da Ilha da Madeira. Por fim, a comissão se dirigiu à vila de Santo Antonio na Ilha do Príncipe e, de lá, alguns quilômetros em lombo de burro até a fazenda Sundy. Uma longa e difícil jornada transportando sensíveis equipamentos.

    Alfredo Tolmasquim apresenta a trajetória de Einstein e como o anúncio do resultado da observação do eclipse de 1919 impactou sua vida. O texto O impacto do eclipse de 1919 na vida e trajetória de Albert Einstein possibilita que o leitor acompanhe o processo que o levou a Berlin poucos meses antes do início do Primeira Guerra Mundial e as dificuldades de comunicação entre os cientistas durante aquele conturbado período. É possível também acompanhar a movimentação que envolveu o anúncio da comprovação da deflexão da luz na sessão conjunta da Royal Society e da Royal Astronomical Society e sua repercussão em diversos países, inclusive o Brasil. A fama adquirida a partir do anúncio do resultado do eclipse influenciaria sua vida e moldaria sua trajetória futura.

    Por fim, temos o artigo de Roberto Vergara Caffarelli, Einstein e o Brasil, publicado originalmente na Ciência & Cultura de dezembro de 1979, quase 40 anos atrás. O autor aborda a viagem que Einstein fez ao Brasil em 1925, quando passou uma semana no Rio de Janeiro, então capital do país. Através das notícias publicadas nos jornais da época é possível conhecer o dia a dia de Einstein, como foram suas palestras e a impressão que ele deixava tanto nos jornalistas como em seus cicerones. Como nos demais países, sua visita foi um grande evento, com direito a encontro com o presidente Arthur Bernardes, ministros e prefeito. Ele deu palestras no Clube de Engenharia, na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e na Academia Brasileira de Ciências. E, como não podia deixar de ser, foi levado aos principais pontos turísticos da cidade.

    As observações do eclipse de 1919 são importantes para compreendermos a história da ciência em geral, e do Brasil, em particular. A comprovação da teoria da relatividade geral e a fama de Einstein, são, contudo, exceções em relação ao que ocorre na atividade científica. Com seu cotidiano longe das manchetes de jornais e de grandes anúncios públicos, a ciência acontece no dia a dia dos laboratórios, das universidades e das bibliotecas e nas interações de milhões de cientistas espalhados pelo mundo. É resultado de um esforço coletivo e, na maioria dos casos, anônimo, no qual se forja e se constrói a compreensão da humanidade sobre a natureza, a vida e a sociedade. Boa leitura!