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    Ciência e Cultura

    versão On-line ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.71 no.3 São Paulo jul./set. 2019

    http://dx.doi.org/10.21800/2317-66602019000300015 

    CULTURA
    CINEMA

     

    130 anos de Charlie Chaplin

     

     

    Amando Martinelli

     

     

    A cena na qual Carlitos divide uma garrafa de leite com um cão de rua, no filme Vida de cachorro (1918), é uma, dentre tantas cenas memoráveis produzidas ao longo da prolífica carreira de Charlie Chaplin. Não é incomum que imagens associadas com a pureza e o sorriso do vagabundo mais cativante do cinema invadam a mente das pessoas diante de uma simples citação sobre o diretor, produtor, humorista, empresário, escritor, comediante, dançarino, roteirista e músico britânico Charlie Spencer Chaplin, que completaria 130 anos em 2019.

    Como parte dessa comemoração, em outubro do ano passado foi lançada uma biografia musical de Chaplin, baseada em transcrições de 60 anos de partituras originais. O livro revela a história não contada do artista que também foi o compositor de famosas (e não tão famosas) músicas que ele utilizou em seus filmes. Esse lançamento é uma das homenagens previstas para marcar seu aniversário de nascimento, dentro de uma vasta e merecida programação (https://www.charliechaplin.com/en/infos). "Desde o começo de sua carreira Chaplin demonstra forte envolvimento com a música. Ele aparece em alguns filmes tocando violino ou piano e apresenta um interesse em óperas e espetáculos musicais", explica a cineasta e pesquisadora Julhia Quadros. No entanto, segundo ela, a composição de trilhas sonoras começa somente em 1941. "Chaplin não sabia escrever partituras, a princípio, e precisou de pessoas que transcrevessem as músicas que ele queria nos filmes", conta Quadros.

     

     

    Dar visibilidade à essa faceta artística menos lembrada desse artista múltiplo demonstra a potência do talento de Chaplin, cuja obra é composta por 81 filmes, produzidos entre 1914 e 1967, e que tem na comédia a expressão mais marcante, em uma trajetória emblematicamente representada na figura de Carlitos.

    Vale lembrar, entretanto, que o artista viveu e produziu no período das grandes guerras e nunca deixou de se posicionar politicamente, ao contrário, esse assunto ocupou frequentemente o centro de suas tramas, por meio do humanismo contido nos filmes. Como recorda Quadros, "Chaplin percebe a potência da comédia para discutir assuntos extremamente profundos e sérios, investindo em roteiros que misturam comédia e tragédia, como ele define nos créditos iniciais de O garoto (1921), um filme com um sorriso e, talvez, uma lágrima, reiterando a famosa definição de humor de Bernard Shaw".

    Ainda para a cineasta, "conforme a carreira avança seus filmes tornam-se mais complexos em termos de conteúdo. Dois exemplos são a cena do globo em O grande ditador (1940) ou a da linha de montagem em Tempos modernos (1936), onde ele explicita suas visões políticas de forma criativa e impactante. As críticas estão lá, por meio das metáforas muito bem trabalhadas e toda ironia que a comédia permite", complementa Quadros.

     

    LINGUAGEM ÚNICA

    As contribuições de Chaplin para o cinema são inegáveis e cada vez mais valorizadas, seja pelas questões técnicas, seja na criação de personagens. "Com Carlitos, Chaplin expressava uma capacidade incrível de transformar objetos no que ele quisesse. Folhas viravam escovas de dentes, manequins ganhavam vida, escadas e portas se tornavam grandes obstáculos", lembra Quadros. Para ela, esse era o maior talento da construção visual de Chaplin: a ressignificação das coisas, que confere plasticidade à sua produção cinematográfica e corrobora a narrativa de que ele estaria sempre à margem. "É como se os objetos desfrutassem da mesma liberdade do vagabundo Carlitos. Isso resume seu principal talento, ou seja, algo característico da personagem evolui para a forma como ele se relaciona com o ambiente e com a cena em si, estabelecendo aí uma linguagem única em seus filmes, criando a linguagem cinematográfica chapliana", acredita a pesquisadora.

    Com uma obra tão extensa e diversa, qual seria o melhor filme de Chaplin? Para Quadros, "Chaplin é um cineasta que se constrói com a obra inteira". Mesmo assim, ela aponta Twenty minutes of love (1914), Luzes da cidade (1931) e Luzes da ribalta (1952) como os seus preferidos. "São escolhas que representam o melhor de todas as fases da carreira de Chaplin: o começo, com a experimentação da técnica; o meio, em que ele já teria atingido um domínio maior sobre seu estilo; e o final, em que ele revê diversos aspectos de sua vida", explica.

    As comemorações dos 130 anos de Chaplin são uma oportunidade para impulsionar novos olhares e descobertas em torno desse incrível legado. "Acredito que é sempre importante exibir os filmes de Chaplin e discuti-los depois, criando assim, um olhar contemporâneo para a sua obra", finaliza Quadros.