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    Ciência e Cultura

    Print version ISSN 0009-6725On-line version ISSN 2317-6660

    Cienc. Cult. vol.75 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2023

    http://dx.doi.org/10.5935/2317-6660.20230011 

    REPORTAGEM

     

    O papel da universidade na pandemia: frente a uma série de desmontes, a universidade manteve-se fundamental, ativa e solidária em ações nas mais diversas áreas para o enfrentamento da maior crise do século

     

     

    Karina Francisco

    Jornalista, mestranda em Divulgação Científica e Cultural, ama ler sobre ciência e ficção científica

     

     

    Pensar a pandemia é abranger todos os âmbitos da sociedade moderna: moradia, saúde, economia, educação, transporte, alimentação e lazer, entre tantas outras áreas afetadas pelo coronavírus. Também é lembrar de todas as ações feitas para seu contingenciamento e os atores envolvidos nas práticas, ideias, projetos e iniciativas. Entre eles, a universidade com certeza foi um dos mais importantes devido a suas inúmeras iniciativas inéditas.

    Em uma segunda-feira agitada no Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP), Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, consegue um tempo em seu primeiro dia pós-férias para conversar sobre algo que viu de perto: a pandemia. Ele se recordou de muitos episódios vividos, lamentou a perda de colegas e ficou visivelmente abalado com as memórias tristes. Como médico patologista, foi uma das pessoas que mais se debruçou no estudo do vírus e seu contingenciamento, desde seu início, em 2020. Em seus 40 anos como professor na universidade, pela primeira vez pode se debruçar em apenas uma função: estudar o vírus. Não havia mais reuniões de órgãos colegiados, relatórios, atividades corriqueiras de pesquisador, mas apenas um objetivo: descobrir como derrotar o vírus, o que incluía de quê morriam as crianças.

    O médico se abalou ao contar sobre a primeira vítima criança. "Era uma criança que tinha sido enviada pela mãe para cuidar de uma avó que morava na mesma comunidade porque na época se considerava que as crianças não eram afetadas pela doença. E a criança morre de COVID. Eu conversei com a mãe, me coloquei no lugar dela que, sem saber, tinha exposto a criança e a perdera. Você não consegue voltar indiferente a uma situação dessa", conta o pesquisador, acrescentando que nunca tinha sido religioso, mas naquele dia ele rezou. Rezou para tentar encontrar um sentido em tudo aquilo.

    Saldiva também relata, em meio ao caos que via no hospital, sobre seus pensamentos em relação às manifestações que negavam a existência do vírus ou sua alta letalidade. "Eu tenho um privilégio doloroso de conhecer um pouco a doença. Eu me defrontava, às vezes, com manifestações na rua de gente que negava a existência da doença. Isso me causava desassossego e desconformidade. Porque morreram muitos colegas meus, morreu quem manteve a cidade funcionando para que os outros pudessem parar e essas pessoas não tinham muita alternativa na pandemia. São as mortes invisíveis".

    A pandemia reproduziu o imaginário da desigualdade brasileira. Saldiva lembrou da tragédia da pandemia de COVID-19. Uma tragédia que não pode ser esquecida ou amenizada com o tempo, precisa se manter na memória do brasileiro. "Eu tenho esperança que o mundo saia disso com uma visão um pouco mais solidária", finaliza o professor.

     

    As ações

    É preciso manter na memória o papel estratégico das universidades e seus profissionais e estudantes nessa jornada. As ações tomadas dentro das universidades para colaborar com a mitigação do vírus foram, na maioria das vezes, iniciativas individuais. Na maior parte dos casos, não houve uma reunião de Conselho Universitário ou uma decisão da reitoria de quais ações seriam tomadas para o enfrentamento da pandemia. Não houve ação coordenada ou um plano estratégico, mas houve solidariedade.

    Assim, diversas universidades em toda a extensão territorial decidiram se envolver na luta. Um exemplo é a parceria entre o Centro de Estudos SoU_Ciência, situado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) [1], e a Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES), que juntos desenvolveram estudo com o intuito de mapear e compreender como as universidades públicas, institutos de pesquisa e tecnológicos, pesquisadores, estudantes, técnicos, professores e cientistas brasileiros trabalharam (e ainda trabalham) no enfrentamento da pandemia da COVID-19. Como principal produto desse trabalho conjunto, foi construído o painel informativo "Universidades em Defesa da Vida: atuação das federais na pandemia da COVID-19" [2], compondo um quadro sistematizado das ações desenvolvidas pelas universidades públicas federais em diferentes áreas de conhecimento. O painel é composto por cinco eixos: organização para atuar no contexto da pandemia; atenção à saúde; extensão e solidariedade; pesquisa, tecnologia e inovação; e ações em comunicação (Figura 1).

     

     

    A pesquisa apresenta uma perspectiva ampliada de garantia do direito à vida, abarcando ações na linha de frente em saúde e pesquisas relacionadas à prevenção, tratamento e controle da pandemia, ações nas áreas de direitos humanos, combate à fome, redução de vulnerabilidades sociais e apoio à educação básica, bem como informações acerca da produção bibliográfica no tema e estudos de casos sobre atuações regionais, centros e temas emergentes e contribuições mais notáveis. Pedro Arantes, coordenador do Centro de Estudos SoU_Ciência [1] e professor da Escola de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Unifesp, participa da construção do painel e defende que ele é de extrema importância para organização em futuras crises e como memória. "É um painel que serve para mostrar quem esteve em defesa da vida nesse período crítico da história brasileira. Estamos fazendo uma documentação para fortalecer o sistema, conhecer as boas práticas, fazer com que universidades saibam fazer atuações em momentos de crise e se preparem para novas situações como essa", justifica o pesquisador.

    Mas os exemplos não param por aí. Os cursos de engenharia, representados por grupos de pesquisa, desenvolveram ventiladores mais baratos para que a fabricação fosse mais rápida e menos custosa. A área da geografia montou um painel de acompanhamento dos casos.

    Para a área do ensino não foi diferente, as universidades também assessoraram a educação básica nesse momento da transição para o ensino remoto, "atuando junto à secretaria de educação e diretorias de ensino com as escolas, às vezes até caso a caso, ajudando a construir material didático, ferramentas, softwares, ou treinando para uso dos softwares para fazer o ensino remoto", comenta Arantes. Esses são só alguns exemplos do nível de envolvimento e resposta das universidades nesse período crítico.

    "Houve também uma parte de pesquisa socioeconômica, o pessoal, sobretudo da área de Economia e de Ciências Sociais, fez uma análise da crise do ponto de vista de perda de renda, aumento de pobreza, aumento da fome e eficiência do auxílio", exemplifica o pesquisador. Como aponta Remi Castioni, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), as universidades trouxeram soluções, acompanhamentos e ajudaram a população nos mais diversos aspectos, nas mais diversas áreas, como é sua missão primordial.

    "As universidades trouxeram soluções, acompanhamentos e ajudou a população nos mais diversos aspectos, nas mais diversas áreas, como é sua missão primordial."

     

    Os percalços

    Ao mesmo tempo em que se afirma o papel fundamental das pesquisas e ações acadêmicas, deve-se lembrar da falta de apoio e recursos que as universidades vêm sofrendo há anos com um desmonte estatal. Diminuição de incentivos dos mais diversos, além de ataques sobre sua eficiência, importância, responsabilidade e postura. "O Brasil infelizmente foi pego despreparado dado o desmanche que nós estávamos vivendo de políticas de ciência e tecnologia, de saúde e ataques às universidades nos últimos anos", explica Arantes. "Fomos pegos despreparados com as nossas instituições fragilizadas com cortes de financiamento e os hospitais universitários, SUS e laboratórios de pesquisa, todos de algum modo defasados em relação à tecnologia, suprimentos, equipamentos, perda de pesquisadores e fuga de cérebros", completa.

    Mesmo com a precariedade e o sucateamento, a universidade pública manteve-se vital no enfrentamento da tragédia da pandemia da COVID-19. Saldiva, dentro de um hospital universitário, viveu as transformações, sendo impossível não comparar com uma tática de guerra. Os hospitais centrais decidiram atender apenas casos de COVID-19 e profissionais especializados nas mais diversas áreas foram atender pacientes críticos na UTI. Um curso de telemedicina foi necessário para preparar esses profissionais de outras áreas e estudantes residentes, o que reduziu em 30% a mortalidade no hospital.

    Tudo isso em um contexto de desorganização sistêmica por parte do governo. "Mesmo assim, a reação do sistema público brasileiro foi heroica. Foi importante conseguir limitar o tamanho da tragédia. Evidentemente que, se nós tivéssemos uma ação coordenada incentivada corretamente e apoiada pelo Governo Federal, o sucesso das iniciativas teria sido muito maior", completa Arantes. O professor também exemplifica ações inéditas desse período como um sistema de compras públicas de vacina de quase 50 hospitais universitários para que houvesse insumos em maiores escalas e com maior desconto.

    "Mesmo com a precariedade e o sucateamento, a universidade pública manteve-se vital no enfrentamento da tragédia da pandemia da COVID-19."

    Os professores Saldiva e Arantes também realçam a importância das agências de fomento nesse período, que redirecionaram seus recursos para a área e aprovaram diversos projetos de contenção do vírus. A velocidade em que tudo aconteceu pela necessidade imposta foi muito maior do que o tempo médio em que a ciência ocorre - isso devido ao engajamento dos diversos atores do sistema. A resposta das universidades foi uma colaboração que partiu de seus grupos, assim ações coordenadas foram tomadas em uma escala inédita. "Cria-se uma gestão transdisciplinar de uma crise que é melhor do que qualquer projeto transdisciplinar acadêmico, porque foi gerada a partir da necessidade. Você aproximou mais saberes distintos com muita eficiência porque havia essa necessidade", explica Saldiva. Sem o apoio da Federação, muitos sistemas se uniram, juntando secretarias estaduais, municipais, o próprio SUS e as universidades em ações conjuntas não unificadas. As verbas complementares federais chegaram muito tardiamente em valores muito baixos.

    Como relata o pesquisador, a universidade foi capaz de atingir regiões remotas e contar com a participação da sociedade civil como doadora frente a uma necessidade, inclusive com o terceiro setor captando recursos. A universidade pôde entender como as comunidades menos favorecidas se organizam e como é exequível trabalhar com elas. A capacidade de colaboração foi o papel estratégico das universidades nesse período. Como Arantes pontua, "a maneira de mobilização da pandemia não pode ser uma exceção, deve ser a nova regra. O aprendizado é que a universidade claramente disse a que veio e para quem veio na garantia da vida da população brasileira e assim deve continuar. Foi uma ação voltada à sociedade numa intensidade tal que eu não lembro de outro momento da história brasileira. " (Figura 2).

     

     

    Para Saldiva, esses momentos "ensinam como resolver problemas dramáticos de uma forma diferente daquela que se faz dentro do gabinete, pois envolve a comunidade. Portanto, a pandemia, de alguma forma, cimentou ou aproximou elos de vários níveis da sociedade que estavam meio frouxos". Arantes também lembra as tantas populações que foram auxiliadas pelas universidades que constantemente são invisíveis ao Estado e ficaram mais expostas ao risco de contaminação: a população carcerária, de rua, indígenas, idosos, população com baixo grau de saneamento e acesso à água potável. Criaram-se redes de solidariedade entre essas populações, inclusive com combate à violência que aumentou na pandemia, principalmente a violência doméstica, infantil e contra idosos.

    As universidades estiveram presentes para todas essas pessoas, com aconselhamento jurídico, soluções tecnológicas, sessões de terapia, atendimento na área de saúde, comunicando as informações necessárias para todos se adaptarem. "Todo esse atraso do Governo Federal na assistência inicial foi muito crítico e as Universidades atuaram nessas condições", completa Arantes.

     

    Comunicação

    Uma área que trouxe mudanças nesse período foi a da comunicação da universidade com a sociedade. "Foi muito importante que tais universidades ajudassem a combater as fake news e o negacionismo. Muitos professores colaboraram com a mídia, os grupos de pesquisa passaram a colocar como prioridade estratégica sua comunicação com a sociedade. A mídia abriu espaços para cientistas falarem e deu para perceber que a ignorância sobre ciência no Brasil está diminuindo", destaca Arantes.

    Mas esse é um caminho longo que ainda deve ser percorrido. Arantes também lembra que há o desafio de entender melhor o tamanho do negacionismo e da fake science, além da maneira como ela está contaminando a população brasileira a um ponto tal que a adesão a todas as campanhas de vacinação está reduzindo de uma forma drástica, e não só a vacina contra a COVID.

    O que ainda falta para a universidade é se comunicar melhor com quem é de fora, explorar mais as redes sociais, com uma comunicação profissionalizada, o que o professor Remi Castioni acredita que as universidades ainda não estão preparadas devido ao seu modelo de comunicação tradicional. "Ainda há poucos produtos feitos por professores com informações de interesse da sociedade. Nós somos muito mais inundados por fake news do que propriamente coisas ligadas à ciência", explica o pesquisador.

    "Em meio a toda a crise instaurada, a ciência provou que tem que ser pautada pelo bem comum e pelo interesse público."

     

    E agora?

    A pandemia não acabou, mas a rotina da universidade já está mais próxima do normal. Muitos projetos e iniciativas devem continuar e prosperar para uma universidade mais focada no interesse público. "O Brasil tem um pacote de problemas e a universidade tem que fazer parte do pacote de soluções", resume Saldiva.

    Em meio a toda a crise instaurada, a ciência provou que tem que ser pautada pelo bem comum e pelo interesse público. Saldiva explica que "a universidade viu que tem que agir não só pelo índice H de produtividade, mas com interesse público e voltada para a solução de problemas". Com todas essas ações, a ciência chamou atenção para seu valor quando vinha sofrendo um desmonte sistemático de imagem. Como lembra o pesquisador, "houve um reconhecimento da população frente às universidades e centros de pesquisa que eram vistos como lugares dissociados do mundo real".

    Agora é preciso repensar a universidade para melhor, como Arantes explica, criar "a ideia de uma universidade realmente pública. Não uma universidade feita para os pesquisadores, pelos pesquisadores, mas uma universidade que está profundamente conectada com os destinos do seu país e do seu povo". O professor usa a expressão de Darcy Ribeiro, uma "universidade necessária", que queira defender o bem-estar para toda a sua população, reduzir a pobreza, desigualdade, ampliar o pensamento brasileiro descolonizado. "Essa universidade sempre esteve latente, em construção, e também sempre sendo destruída e constantemente colocada contra a parede", finaliza.

     

    Referências

    1. UNIFESP. SoU_Ciência - Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência. São Paulo (SP): UNIFESP, 2020.

    2. SOU_CIÊNCIA. Universidades em Defesa da Vida: atuação das federais na pandemia da COVID-19. São Paulo (SP): UNIFESP, 2020.