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</front><body><![CDATA[ <p><font size="4">Hist&oacute;ria</font></p>     <p><font size=5>D<small>IALOGANDO COM S&Eacute;RGIO BUARQUE DE HOLANDA</small></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p> Sérgio Buarque de Holanda, escritor com uma sensibilidade crítica exarcebada,    sofisticada vocação literária e certa disposição lúdica para a gozação, discretamente    provocador, se não veladamente impertinente, é por vezes um autor desconcertante    para o leitor desavisado. A sua é uma obra aberta para infindáveis releituras.  </P>      <p> Há os que o querem weberiano, há os que o têm como hegeliano. Há os que diferenciam    a sua obra como crítico literário de sua obra como historiador, os que o vêem    como sociólogo e mesmo os que o destacam como antropólogo da cultura material    do Brasil colonial. O conhecimento crítico é, sobretudo transdisciplinar, pois    dispensa o viés classificador de disciplinas acadêmicas, as palavras-chaves    dos catálogos bibliográficos e o interesse de mercado por convencionar áreas    genéricas do conhecimento. Como pensador e crítico da cultura reivindicava o    direito de resistir a um método preciso que de alguma forma o aprisionasse ao    escrever. Para ele, ser historiador era cultivar uma atitude e um modo de ser    crítico apropriado para interpretar a cultura e a sociedade na sua dimensão    histórica, temporal, universal. Esta atitude avessa a conformações de pensamento    pré-fixadas, a escolas, a métodos bem delineados, a teorias abstratas se lhe    afigurava imprescindível para interpretar de modo inovador, combativo e, portanto,    interpretativo no sentido hermenêutico do conhecimento, entendido como um processo    de desconstrução de tradições herdadas, de desocultamento de tendências de vir-a-ser    na sociedade e na cultura brasileira. Num meio intelectual como o nosso, em    que mesmo os inovadores tinham um viés conservador, se não autoritário, sua    obra teria por vezes uma reverberação dissonante. </P>      <p> O mais lido de seus livros foi <I>Raízes do Brasil</I>, e certamente o que    suscitou maior número de polêmicas. Foi de início mal entendido como um livro    que procurava definir as peculiaridades do caráter nacional brasileiro. Na verdade,    em plena década do Estado Novo, em meio aos programas oficiais de nacionalização    do ensino, de disciplinarização do idioma e de formalização de uma cultura nacional,    Sérgio Buarque de Holanda fazia uma crítica acirrada ao conceito de uma identidade    nacional permanente ou fixa. Alguns leram neste livro uma teoria sobre a formação    do Estado brasileiro, outros procuraram diretrizes para o estudo das relações    Estado e sociedade civil, outros, ainda balisas para o estudo do processo de    modernização no Brasil. </P>     <p>&nbsp;</P>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a32f1.jpg"></P>     
<p>&nbsp;</P>     <p>Seu livro é um acerto de contas e um desfilar de negações para com posicionamentos    tanto de seus colegas modernistas, como de autores tradicionalistas, como Oliveira    Viana. Ser do contra, estar na contra-mão é o que o levou a escrever um ensaio    sutil sobre impasses e dificuldades atávicas da sociedade brasileira. Em vez    de consolidar uma teoria, escreveu um livro sobre a ausência de equilíbrio entre    elites dirigentes, Estado e os contornos congênitos da sociedade brasileira    que, a seu ver, custavam a se expressar, tal o arcabouço de preconceitos acumulados    por uma ideologia europeizada e elitista.</P>      ]]></body>
<body><![CDATA[<p> Nos últimos dez anos no Brasil vem se entabulando, entre estudiosos das mais    diferentes vertentes, um diálogo cada vez mais intenso entre os leitores de    sua obra, tanto no campo da literatura, da história como no da crítica da cultura.    Surpreende a riqueza de espaços abertos para o debate dos temas que explorou    e pelos quais se interessa um número cada vez maior de estudiosos do Brasil    contemporâneo. Um eixo de temas presentes em sua obra, que frutificou numa produção    historiográfica renovadora é o estudo da pátria ausente e da crítica do processo    elitista de formação da nacionalidade, sobre o qual se multiplicaram interpretações    as mais variadas e para as quais infelizmente não há espaço neste artigo. Outro    eixo de reflexões que nos surpreende pela riqueza de interpretações que tem    suscitado é o conceito de <I>homem cordial</I>, que a ele parecia, em certo    momento, esgotado, e que tem adquirido um sentido novo, inspirando interpretações    cada vez mais significativas. O mundo deu voltas desde o lançamento de <I>Raízes    do Brasil</I> em 1936 e hoje nos confrontamos com novas possibilidades de conceituar    a politização do privado; temos necessidade de reinterpretar a urdidura de poder    das relações pessoais, suas novas formas de inserção na cultura de comunicação    de massa, no processo de globalização, nas teorias de recepção da literatura,    nos estudos que exploram a circulação dos textos, a sociabilidade do mundo editorial,    a historicidade do público leitor, assim como <I>last but not least</I> nas    relações de gênero, assim como no problema da corrupção política. </P>      <p> Um exemplo destas correntes críticas que deram atualidade às suas obras são    os novos diálogos entabulados entre sua obra e as de pensadores contemporâneos    como Jürgen Habermas ou Hans Georg Gadamer, juntamente com releituras inovadoras    de seus trabalhos. A obra de João César de Castro Rocha, <I>Literatura e cordialidade</I>    (UERJ, 1998) é um belo exemplo de como a obra de Sérgio Buarque de Holanda tem    contribuído para trabalhos inovadores. Os ensaios de Antonio Arnoni Prado desvendaram    uma parte inexplorada da obra de Sérgio Buarque de Holanda como crítico literário.    É preciso ressaltar a importância da edição organizada e comentada por Antonio    Arnoni Prado dos seus ensaios de crítica literária reunidos em dois preciosos    volumes, <I>O espírito e a letra</I>, (Companhia das Letras, 1996). Está para    ser editada uma edição crítica da correspondência do historiador com Mário de    Andrade, elaborada por Vera Cristina Newman Wood, que trará uma contribuição    inestimável para os estudos de suas obras.</P>      <p> Na trilha das releituras teóricas de sua obra citem-se as teses de mestrado    defendidas na Unicamp, como o livro de Pedro Meira Monteiro, <I>A queda do aventureiro</I>    (Unicamp, 1999), que consiste numa interpretação erudita, correta e sensível    das afinidades que Sérgio Buarque de Holanda cultivava com Max Weber. A dissertação    de Marcus Vinicius Correa Carvalho aprofundou as afinidades do historiador com    a obra de Wilhelm Dilthey (Unicamp, 1997). Não há como dar conta exaustiva neste    espaço dos inúmeros ensaios críticos que vêm renovando as interpretações da    obra multifacetada do historiador, entre os quais o ensaio de Lucia Maria Paschoal    Guimarães sobre afinidades do autor com Capistrano de Abreu (1996), assim como    o livro inovador de Robert Wagner, <I>A conquista do Oeste</I> (UFMG, 2000),    que aprofunda afinidades entre o conceito de fronteira de Frederick Jackson    Turner e o de Sérgio Buarque de Holanda. </P>      <p> O fato de estarem momentaneamente esgotadas tanto a coletânea de ensaios da    coleção Cientistas Sociais da Ática, como a coletânea lançada em 2000 pela Fundação    Perseu Abramo é significativo de um crescente interesse por sua obra. </P>      <p> Livros disponíveis no mercado: <I>Monções</I> (1990) e <I>Visão do Paraíso</I>    (1999) foram republicados pela editora Brasiliense e <I>Raízes do Brasil</I>    (1997) e <I>Caminhos e fronteiras</I> (1994) pela editora Companhia das Letras.    Em 1997, <I>Raízes do Brasil</I> chegou a sua nona edição, tendo sido traduzido    para o japonês, o italiano e o espanhol. Sérgio Buarque de Holanda, com seu    temperamento irreverente, aberto, boêmio e sociável, se pudesse, estaria certamente    se divertindo com a sociabilidade prazerosa suscitada por este diálogo com seus    novos intérpretes.</P>      <p>&nbsp; </P>      <p ALIGN=RIGHT> <B><I>Maria Odila Leite da Silva Dias    <br>   </I></B><I>é historiadora, professora do Programa de Pós-graduação em História    da PUC-SP.</I></P>     <p ALIGN=RIGHT>&nbsp;</P>     <p ALIGN=center><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a32f2.jpg"></P>      
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