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</front><body><![CDATA[ <P align="center"><font size=5><b><a name="top"></a></b></font><font size="4"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1secro.gif"></font></P>     
<P align="center">&nbsp;</P>     <p align="center"><font size=5><b>Bizarra, n&atilde;o?<a href="#back">*</a></b></font></p>     <p align="center"> H<small>ILDA</small> H<small>ILST</small></p>     <P align="center">&nbsp;</P>     <P align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n1/1a33f1.jpg"></P>     
<P align="center">&nbsp;</P>     <P>Aí é assim: você resolve escrever, de verdade, faz toda uma opção de vida de    caráter definitivo, rejeita frivolidades, vai morar no mato, sim porque antes    era mata, gado, pastagem, há pouco é que virou “zona de expansão urbana” e com    aquele IPTU que te aniquila, bem, mas continuando, você se entrega totalmente    a essa absurda tarefa de escrever num país com milhões e milhões de analfabetos    (sim, a opção foi sua, coda-se), os vietnamitas por exemplo tinham a maior paixão    pela literatura, e segundo a biografia de Marguerite Duras eram cultos, refinados    e ficaram escravos dos franceses (isso lá pelos idos de 1930), os brancos eram    os reis do Vietnã, eram os patrões, a elite, e os vietnamitas eram os párias,    esfarrapados, miseráveis, sim, mas já estou tentada a enveredar pelos caminhos    daquela cólera sagrada, silêncio, calma Hilda! Então continuando, aí, depois    de trinta anos você consegue lá algum renome, aí as pessoas praticamente suplicam    para te conhecer, você fica a princípio acanhada, receosa, depois fica encantada,    nossa! não é mesmo que me querem bem? Aí eles vêm, os supostos amantes do teu    trabalho, e você se delicia, conta aos poucos teus medos, que você também é    de carne e osso, que muitas vezes chora muito, horrorizada com toda a crueldade    da Terra, aí você alguns dias se descabela, fica bêbada, sim queridos, porque    um escritor se é muito bom escritor, tem mesmo que beber, porque (é bom ser    didática) se ele é muito bom, ele sente muito diferente do açougueiro da esquina,    do príncipe boboca também, ele, esse bom escritor, sente fundo e dilatado, sofre    de compaixão e impotência, vê todos os canalhas do Planeta cometendo atrocidades,    conhece todos os métodos do Poder para aniquilar esperanças, métodos os mais    ignóbeis (agora me lembrei de um cara que tinha um irmão que se chamava Nobel,    eu disse: foi em homenagem ao Nobel do prêmio Nobel? ele respondeu: não, mamãe    achou a palavra “ignóbil” e o apelido dele ficou Nobel quando a mãe soube o    significado da palavra). Continuando: aí o escritor que se pensava amado, fica    íntimo daqueles que amavam o texto dele, e então só faltam cuspir nele quando    ele se descabela, bebe, chora, arrota, quando ele se mostra derrotado diante    das grandes perguntas, perplexo diante do mistério da vida e da morte, diante    da maldade, do simiesco fútil da maior parte da humanidade. Então, os amiguelhos    que te amavam, a essa altura já te acham um lixo e dizem pros outros que ainda    te amam: é, vai conviver com o gênio e aí você vai ver como ele é. “Bizarro?”    “Põe bizarro nisso, bicho!” E como é que vocês queriam que fosse, esse que escreve    coisas geniais? Certinho, arrumadinho, abstêmio, fino, dissimulado, pactuando    com elegância com todos os ignóbeis donos da miséria e do Poder?</P>     <P>&nbsp; </P>     <P> P.S. Consta que Shakespeare era “normal”(!!!).</P>     ]]></body>
<body><![CDATA[<P>&nbsp; </P>     <P>&nbsp; </P>     <P> <I>Hilda Hilst é uma das principais escritoras brasileiras. Sua vasta obra,    que inclui prosa de ficção, poesia, teatro e crônica, está sendo reeditada pela    Editora Globo. Entre seus títulos mais conhecidos estão </I>A Obscena Senhora    D, Cartas de um Sedutor, Bufólicas, Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão<I>.</i></P>     <P>&nbsp; </P>     <P><I> <a name="back"></a><a href="#top">*</a>Texto publicado como colaboração    dominical no jornal </i>Correio Popular<I>, de Campinas (SP), em 2 de abril    de 1995. Não é parte do volume de crônicas de Hilda reunidos e publicados em    </I>Cascos e Carícias<I>, embora referente ao mesmo período de sua colaboração.</i>&nbsp;</P>      ]]></body>
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