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<institution><![CDATA[,Instituto Butantan  ]]></institution>
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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tp7.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><b><font size=5>I<small>NSTITUTOS: &Aacute;GEIS PARCEIROS DE </small>C&amp;T    <br>   </font></b><b><i>Erney Plessmann Camargo</i></b></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><font size=5><b>A</b></font>s pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para Ci&ecirc;ncia    e Tecnologia, quando existem, s&atilde;o implementadas por universidades, institutos    de pesquisa e segmentos do parque industrial p&uacute;blico ou privado. Este    &uacute;ltimo segmento, por&eacute;m, nem sempre se submete &agrave; pol&iacute;tica    de Estado para C&amp;T. Portanto, a tarefa cabe aos institutos, que respondem    a curto prazo &agrave;s demandas do setor e &agrave;s universidades, que as    atendem a longo prazo, mas de forma mais abrangente. Neste artigo me restringirei    aos institutos da &aacute;rea de sa&uacute;de, mas tenho certeza que muitas    das considera&ccedil;&otilde;es podem ser estendidas a outras &aacute;reas.</p>     <p>Universidades e institutos operam de maneira diferente. Universidades foram    criadas segundo modelos definidos a partir do s&eacute;culo XI. Os modelos se    aperfei&ccedil;oaram, mas continuaram perseguindo os mesmos ideais acad&ecirc;micos    de gera&ccedil;&atilde;o e transmiss&atilde;o do conhecimento sem barreiras    e sem compromissos com press&otilde;es externas.</p>     <p>Institutos, n&atilde;o. Institutos come&ccedil;aram a ser criados no s&eacute;culo    XIX, com objetivos espec&iacute;ficos, embora distintos entre si. Foram projetados    para cumprir pap&eacute;is definidos dentro de cen&aacute;rios e planos temporais    restritos. A diversidade de objetivos caracterizou os institutos desde a origem.    A aus&ecirc;ncia de modelos sempre foi o seu modelo.</p>     <p>A cria&ccedil;&atilde;o dos institutos respondeu a press&otilde;es sociais    ou a antevis&otilde;es de administradores iluminados. Apesar da diversidade,    sua cria&ccedil;&atilde;o sempre objetivou atender a necessidades urgentes da    sociedade, preencher lacunas do conhecimento, e a solucionar problemas definidos    e concretos. Em quaisquer dos casos, os objetivos seriam atingidos por meio    da pesquisa cient&iacute;fica, caracter&iacute;stica essa inalien&aacute;vel    dos objetivos dos institutos.</p>     <p>A cria&ccedil;&atilde;o dos primeiros institutos na &aacute;rea da sa&uacute;de    ilustra bem essa situa&ccedil;&atilde;o. No fim do s&eacute;culo XIX, ap&oacute;s    a descoberta dos pat&oacute;genos microsc&oacute;picos, governos de todo o mundo    necessitavam conhecer mais sobre os microrganismos causadores de doen&ccedil;as.    Para contornarem a intoc&aacute;vel autonomia das universidades, criaram institutos.    Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, no curto espa&ccedil;o de tr&ecirc;s anos, entre    1888 e 1891, nasceram os institutos das principais capitais da Europa: o <i>Instituto    Pasteur</i> em Paris; o <i>Instituto de Doen&ccedil;as Infecciosas</i> em Berlim    e o <i>Instituto Lister</i> de Londres. Seguiu-se a cria&ccedil;&atilde;o de    institutos semelhantes em todo o mundo, inclusive no Brasil: <i>Manguinhos</i>    (1900), e pouco antes (1986) em S&atilde;o Paulo, o <i>Laborat&oacute;rio Vacinog&ecirc;nico</i>    e o <i>Bacteriol&oacute;gico</i>, que deram origem ao <i>Instituto Butantan</i>.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A especificidade de objetivos dos institutos fica bem clara na cria&ccedil;&atilde;o    de alguns deles no s&eacute;culo XX no Brasil. O <i>Instituto Pasteur</i> de    S&atilde;o Paulo foi criado em 1903 com a ativa participa&ccedil;&atilde;o,    inclusive financeira, da sociedade paulista, com a finalidade espec&iacute;fica    de produzir vacina e soro contra a raiva e cuidar de seu controle. O <i>Instituto    Biol&oacute;gico</i> de Defesa Agr&iacute;cola e Animal de S&atilde;o Paulo    derivou diretamente dos trabalhos de uma Comiss&atilde;o do Estado, presidida    por Artur Neiva, para estudar a broca do caf&eacute;. O <i>Instituto Serumterapico</i>,    que originaria o <i>Instituto Butantan</i>, foi criado em 1899 para produzir    soros contra a peste bub&ocirc;nica, que eram, at&eacute; ent&atilde;o, importados    da Fran&ccedil;a.</p>     <p>Desde o in&iacute;cio, ficou muito claro que a pesquisa cient&iacute;fica era    indissoci&aacute;vel da miss&atilde;o dos institutos e que deveria dirigir-se    aos objetivos dos institutos, com uma proposta definida. Por atenderem, em um    dado momento, a uma demanda urgente da sociedade, os institutos se beneficiaram    de uma atmosfera que atra&iacute;a para seus quadros, os melhores cientistas    e as melhores cabe&ccedil;as do cen&aacute;rio da pesquisa. Conseq&uuml;entemente,    em certos momentos de nossa hist&oacute;ria, a melhor ci&ecirc;ncia foi produzida    nos institutos.</p>     <p>Ao longo do tempo, os cen&aacute;rios m&eacute;dico, social e cient&iacute;fico    em que os institutos foram criados se transformaram e os problemas que os geraram    foram sendo resolvidos, em parte pelo sucesso dos pr&oacute;prios institutos.    Paradoxalmente, esse mesmo sucesso levou ao esvaziamento da atmosfera de pioneirismo    dos institutos, e muitos deles entraram em lenta mas progressiva deteriora&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>V&aacute;rios fatores contribu&iacute;ram de maneira sinerg&iacute;stica para    esse processo. Alguns merecem destaque:</p>     <p>&#149; Equacionados ou resolvidos os problemas que motivaram a cria&ccedil;&atilde;o    de um dado instituto, os seus aportes financeiros especiais deram lugar &agrave;    indiferente rotina or&ccedil;ament&aacute;ria enquanto a carreira cient&iacute;fica    dos pesquisadores mergulhava no mon&oacute;tono destino do funcionalismo p&uacute;blico.</p>     <p>&#149; As melhores cabe&ccedil;as dos institutos foram atra&iacute;das para    novos projetos ou recrutadas pelas universidades. O esvaziamento intelectual    levou quadros menores a assumirem o comando dos institutos, levando &agrave;    banaliza&ccedil;&atilde;o das gest&otilde;es e &agrave; ascens&atilde;o de lideran&ccedil;as    corporativas sem compromisso com os objetivos institucionais.</p>     <p>&#149; Ao mesmo tempo, a pesquisa inovadora dos institutos foi sendo inexoravelmente    absorvida pelas universidades. Por exemplo, a busca por conhecimentos sobre    microrganismos patog&ecirc;nicos, que entre 1888-91 gerou a cria&ccedil;&atilde;o    dos institutos de Londres, Paris e Berlim, hoje faz parte da rotina curricular    de qualquer universidade do mundo, mesmo das piores. Essa evolu&ccedil;&atilde;o    do conhecimento subtraiu dos institutos muito de sua originalidade e alguns    acabaram tornando-se meros caudat&aacute;rios da pesquisa universit&aacute;ria.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14785f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A resultante dessa conjun&ccedil;&atilde;o de fatores negativos foi que boa    parte dos institutos entrou em franca insolv&ecirc;ncia: muitos empalideceram    e outros se preparam para definhar. Para ser honesto, acho que alguns institutos    j&aacute; poderiam ter desaparecido sem grande perda para o pa&iacute;s.</p>     <p>Cabe perguntar se ser&aacute; esse um destino previs&iacute;vel mas inevit&aacute;vel,    se a auto-extin&ccedil;&atilde;o dos institutos seria como uma das profecias    de Cassandra?</p>     <p><b>N&atilde;o, claro que n&atilde;o</b>. O que &eacute; historicamente inexor&aacute;vel,    e at&eacute; muito desej&aacute;vel, &eacute; que os problemas que originaram    os institutos sejam solucionados. Por&eacute;m, o corol&aacute;rio desse sucesso    n&atilde;o precisa ser a deteriora&ccedil;&atilde;o institucional. Os institutos    podem perfeitamente se reposicionar no panorama cient&iacute;fico em que est&atilde;o    inseridos at&eacute; com ganhos consider&aacute;veis.</p>     <p>Por&eacute;m, diferentemente do momento de sua cria&ccedil;&atilde;o, o estabelecimento    de metas e novos objetivos pode (e talvez deva) nascer dentro dos institutos    e ser produto da reflex&atilde;o de seu corpo cient&iacute;fico e administrativo,    em fun&ccedil;&atilde;o de uma percep&ccedil;&atilde;o correta de seu momento    e papel hist&oacute;ricos. As ag&ecirc;ncias de fomento &agrave; pesquisa podem    ajudar nesse processo de renova&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o como simples provedoras    de recursos a fundo perdido, mas como parceiras na condu&ccedil;&atilde;o das    pol&iacute;ticas de C&amp;T. Trata-se de reviver, atrav&eacute;s de programas    especiais e direcionados, o esp&iacute;rito pioneiro que levou &agrave; cria&ccedil;&atilde;o    dos institutos. Trata-se de utilizar o potencial dos institutos na tarefa de    incrementar a participa&ccedil;&atilde;o da C&amp;T na agenda do pa&iacute;s.</p>     <p>Na &aacute;rea de sa&uacute;de, a renova&ccedil;&atilde;o dos institutos passa    pelo desenvolvimento de novos agentes terap&ecirc;uticos e biol&oacute;gicos,    de m&eacute;todos diagn&oacute;sticos adaptados &agrave; nossa realidade territorial    e social, e de vacinas e soros direcionados a essa mesma realidade. Afinal,    os problemas da sa&uacute;de n&atilde;o desapareceram, apenas foram substitu&iacute;dos    por outros. Hoje, equivalentes aos problemas de antes, s&atilde;o a AIDS, a    dengue, as hepatites, as neo-viroses, as arborviroses, as viroses sinciciais,    e as bacterioses emergentes, al&eacute;m de endemias tradicionais ainda n&atilde;o    resolvidas como a perp&eacute;tua mal&aacute;ria, as leishmanioses e a leptospirose.    Para algumas dessas patogenias ainda faltam m&eacute;todos de diagn&oacute;stico    ou recursos terap&ecirc;uticos ou profil&aacute;ticos ou todos. Isto sem falar    nas patogenias n&atilde;o-infecciosas.</p>     <p>A esses problemas, acrescentem-se os decorrentes do desenvolvimento da gen&eacute;tica    e da gen&ocirc;mica com a natural demanda pela terapia g&ecirc;nica ainda ausente    das plataformas de C&amp;T. Falta, tamb&eacute;m, entrosamento adequado entre    as fontes produtoras de insumos e de conhecimento e as ag&ecirc;ncias encarregadas    de coloc&aacute;-los a servi&ccedil;o da na&ccedil;&atilde;o. A rigor, faltam    essas pr&oacute;prias ag&ecirc;ncias.</p>     <p>Esse elenco de problemas &eacute; apenas um esbo&ccedil;o da problem&aacute;tica    geral da pesquisa em sa&uacute;de do pa&iacute;s. O panorama final dever&aacute;    ser desenhado por minist&eacute;rios, ag&ecirc;ncias, universidades, institutos    e segmentos pertinentes da sociedade em geral. Dessa an&aacute;lise dever&aacute;    resultar a defini&ccedil;&atilde;o de uma pol&iacute;tica de C&amp;T para a    sa&uacute;de tendo os institutos como parceiros util&iacute;ssimos em sua execu&ccedil;&atilde;o.    Nem todos os institutos, por&eacute;m, est&atilde;o preparados para participar    com sucesso dessa tarefa. Por isso, projetos de renova&ccedil;&atilde;o e reformula&ccedil;&atilde;o    de institutos talvez devam embasar a pr&oacute;pria pol&iacute;tica de C&amp;T.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><b><i>Erney Plessmann Camargo    <br>   </i></b><i>&eacute; diretor do Instituto Butantan</i></p>     ]]></body>
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