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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tb2.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14796f1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A<small>NTROPOLOGIA</small></p>     <p><font size="4"><b>Destino incerto dos quilombolas</b></font></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A titula&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios das comunidades remanescentes    de quilombos no Brasil tem enfrentado dificuldades jur&iacute;dicas e institucionais,    apesar de ser um direito constitucional. Ap&oacute;s tramitar por mais de seis    anos entre a C&acirc;mara e o Senado, um projeto de 1995, de autoria da ent&atilde;o    senadora Benedita da Silva para regulamentar o direito previsto na Constitui&ccedil;&atilde;o    de 1988, foi vetado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele alegou ser    suficiente a legisla&ccedil;&atilde;o atual.</p>     <p>Das 743 comunidades identificadas oficialmente pela Funda&ccedil;&atilde;o    Palmares apenas 29 receberam titula&ccedil;&atilde;o definitiva. O or&ccedil;amento    deste ano prev&ecirc; gastar R$ 4,1 milh&otilde;es em processos de titula&ccedil;&atilde;o;    at&eacute; o dia 19 de julho,no entanto, o desembolso do Minist&eacute;rio da    Cultura somava apenas R$ 150 mil. C&aacute;lculos da Funda&ccedil;&atilde;o    Palmares, &oacute;rg&atilde;o respons&aacute;vel pelas titula&ccedil;&otilde;es,    calculam em R$ 50 milh&otilde;es por ano a quantia necess&aacute;ria para as    titula&ccedil;&otilde;es e para manter os projetos de desenvolvimento sustent&aacute;vel    no local.</p>     <p>No veto presidencial consta parecer do Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a    argumentando que a proposta viola a Constitui&ccedil;&atilde;o. Segundo o Minist&eacute;rio,    a Carta de 1988 asseguraria o direito &agrave; terra aos "remanescentes das    comunidades de quilombos"; j&aacute; o projeto de regulamenta&ccedil;&atilde;o    atribuiria esse direito &agrave;s "comunidades remanescentes de quilombos".    Ou seja, com a regulamenta&ccedil;&atilde;o, o que era um direito individual,    do descendente das comunidades de quilombos, passaria a ser um direito coletivo,    atribu&iacute;do &agrave;s comunidades remanescentes. "Em geral, quem pleiteia    esses direitos s&atilde;o as comunidades. Nunca vi pedidos individuais", afirma    a antrop&oacute;loga Eliane O'Dwyer, da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira    de Antropologia (ABA), que aprovou em assembl&eacute;ia, em sua &uacute;ltima    reuni&atilde;o anual, uma carta de rep&uacute;dio ao veto presidencial. "A argumenta&ccedil;&atilde;o    do minist&eacute;rio ignora todas as manifesta&ccedil;&otilde;es das associa&ccedil;&otilde;es    quilombolas e toda a produ&ccedil;&atilde;o de laudos e textos antropol&oacute;gicos    sobre o assunto, ao afirmar que o artigo trata de um direito individual", refor&ccedil;a    a antrop&oacute;loga Ilka Boaventura Leite, tamb&eacute;m da ABA</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Os pareceres contr&aacute;rios ao Projeto de Lei n&atilde;o foram consensuais    nem na Funda&ccedil;&atilde;o Palmares, ligada ao Minist&eacute;rio da Cultura,    nem no Minist&eacute;rio da Justi&ccedil;a. A pr&oacute;pria funda&ccedil;&atilde;o    refere-se, em seus documentos, a "comunidades remanescentes de quilombos" e    n&atilde;o a "remanescentes de comunidades de quilombos", apontando o direito    da coletividade e n&atilde;o dos indiv&iacute;duos. Por&eacute;m, a funda&ccedil;&atilde;o    pediu o veto porque o projeto de lei n&atilde;o a coloca como respons&aacute;vel    pelo reconhecimento das terras.</p>     <p><b>Alc&acirc;ntara</b> Uma das comunidades que vive o problema da falta de    titula&ccedil;&atilde;o de suas terras &eacute; a de Alc&acirc;ntara, no Maranh&atilde;o.    O Centro de Lan&ccedil;amentos de Alc&acirc;ntara (CLA), objeto de acordo com    os EUA para o uso comercial da base de foguetes, fica exatamente nessa comunidade.    Ocupando a regi&atilde;o h&aacute; mais de 200 anos, quando os produtores de    algod&atilde;o faliram e abandonaram a terra e seus escravos, os quilombolas    locais mant&eacute;m um modo de vida tradicional, com o uso comunal da terra.    Com a constru&ccedil;&atilde;o da base, 312 fam&iacute;lias foram realocadas    compulsoriamente para agrovilas, ainda nos anos 80, o que perturbou um sistema    de vida que alternava a pesca e o cultivo de ro&ccedil;as comunit&aacute;rias.    Ainda vivem mais de 500 fam&iacute;lias no local, em 276 povoados. "Existe uma    rede social que implica numa divis&atilde;o de trabalho, servi&ccedil;os e troca    de produtos entre os povoados", afirma o antrop&oacute;logo Alfredo Wagner de    Almeida, que estuda essa comunidade. O problema &eacute; t&atilde;o grave que,    at&eacute; hoje, a base n&atilde;o conseguiu aprovar sua licen&ccedil;a ambiental    &#150; o EIA-RIMA - para funcionamento, devido ao impacto causado no meio antr&oacute;pico.</p>     <p>Para as entidades que trabalham na regi&atilde;o, a situa&ccedil;&atilde;o    em Alc&acirc;ntara &eacute; de clara viola&ccedil;&atilde;o de direitos humanos.    A ONG brasileira Justi&ccedil;a Global encaminhou uma den&uacute;ncia &agrave;    Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Americanos (OEA) e a Associa&ccedil;&atilde;o    Norte&#150; americana de Antropologia (AAA) enviou uma carta, a pedido da ABA,    ao secret&aacute;rio de Defesa norte-americano, Colin Powell. A carta pede aten&ccedil;&atilde;o    &agrave; comunidade quilombola durante eventual renegocia&ccedil;&atilde;o do    acordo para o uso do CLA e afirma que investigar&aacute; o caso por interm&eacute;dio    de sua comiss&atilde;o de direitos humanos.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="right"><i><b>Rafael Evangelista</b></i></p>      ]]></body>
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