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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tp8.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><B><font size="4"><a name="top1"></a>O <small>TEMPO NAS CIDADES</small></font></B><font size="4"><B><a href="#back1">*</a></B></font></p>     <p>Milton Santos</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>O </font></b>texto que segue &eacute; um esbo&ccedil;o de    uma velha ambi&ccedil;&atilde;o que jamais pude realizar (espero poder realiz&aacute;-la    ainda) que &eacute; oferecer um curso de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    sobre o tempo. Ainda que n&atilde;o seja fil&oacute;sofo, sou ge&oacute;grafo,    parto da id&eacute;ia de que a Geografia &eacute; uma filosofia das t&eacute;cnicas,    considerando a t&eacute;cnica como a possibilidade de realiza&ccedil;&atilde;o    da Hist&oacute;ria, de mudan&ccedil;a da Hist&oacute;ria, de visibilidade dessas    rupturas.</p>     <p>A Geografia pretende utilizar como um de seus campos de trabalho ou como uma    das geografias poss&iacute;veis, aquela que se preocupa com a apreens&atilde;o    do contexto dos atuais e diferentes momentos, o que faz dela, de alguma maneira,    a hist&oacute;ria de cotidianos sucessivos. O entrosamento entre t&eacute;cnica    e Hist&oacute;ria permite o entendimento do que se passou, do que se passa e    eventualmente do vai se passar, quando as t&eacute;cnicas se tornam um conjunto    unificado e &uacute;nico, movidas por um motor tamb&eacute;m &uacute;nico, o    que permite uma visibilidade do futuro.</p>     <p>O tempo pode ser encarado das mais diversas maneiras; eu, como n&atilde;o sou    fil&oacute;sofo, repito, apenas vou tomar alguns fil&oacute;sofos como ponto    de partida, como ajuda na minha conversa. Eu lembraria, por exemplo, o que li    em Baillard, quando ele divide o tempo em tr&ecirc;s tipos: o tempo c&oacute;smico,    o tempo hist&oacute;rico e o tempo existencial. O tempo c&oacute;smico, da natureza,    objetivado, sujeito ao c&aacute;lculo matem&aacute;tico; o tempo hist&oacute;rico,    objetivado, pois a Hist&oacute;ria o testemunha, mas no qual h&aacute; cesuras,    em vista de sua profunda carga humana; e o tempo existencial, tempo &iacute;ntimo,    interiorizado, n&atilde;o externado como extens&atilde;o, nem objetivado, &eacute;    o tempo do mundo da subjetividade e n&atilde;o da objetividade. Mas, esses tempos    todos se comunicam entre eles, na medida em que o tempo &eacute; social. Parafraseando    Heidegger, para quem sem o homem n&atilde;o h&aacute; tempo, &eacute; desse    tempo do homem, do tempo social cont&iacute;nuo e descont&iacute;nuo, que n&atilde;o    flui de maneira uniforme, que temos de tratar. E &eacute; por a&iacute; que    se v&ecirc; que esses diversos tipos de tempo convergem e divergem. Convergem    na experi&ecirc;ncia humana e divergem na an&aacute;lise.</p>     <p>Do tempo matem&aacute;tico, tempo c&oacute;smico, tempo do rel&oacute;gio,    ao tempo hist&oacute;rico, vai toda uma evolu&ccedil;&atilde;o que &eacute;    assinal&aacute;vel ao longo da Hist&oacute;ria. O rel&oacute;gio que &eacute;    descoberto num determinado momento da Hist&oacute;ria, &eacute; redescoberto    neste s&eacute;culo com o taylorismo e depois com o fordismo; um tempo que &eacute;    medida do rel&oacute;gio, se n&atilde;o o enchermos dessa subst&acirc;ncia social.    O tempo individual, tempo vivido, sonhado, vendido e comprado, tempo simb&oacute;lico,    m&iacute;tico, tempo das sensa&ccedil;&otilde;es, mas com significa&ccedil;&atilde;o    limitada, n&atilde;o &eacute; suscet&iacute;vel de avalia&ccedil;&atilde;o se    n&atilde;o referido a esse tempo hist&oacute;rico, tempo sucess&atilde;o, tempo    social, o ontem, o hoje, o amanh&atilde;. Essas sequ&ecirc;ncias, que nos d&atilde;o    as mudan&ccedil;as que fazem hist&oacute;ria, criam as periodiza&ccedil;&otilde;es,    isto &eacute;, as diferen&ccedil;as de significa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Nesse momento, eu gostaria de me referir a um fil&oacute;sofo latino-americano,    S&eacute;rgio Bag&uacute;, que distingue entre o tempo como seq&uuml;&ecirc;ncia    - o transcurso &#150; o tempo como raio de opera&ccedil;&otilde;es &#150; o espa&ccedil;o    &#150; e o tempo como rapidez de mudan&ccedil;as, como riqueza de opera&ccedil;&otilde;es.    A&iacute; se v&ecirc; que o tempo aparece como sucess&atilde;o, permitindo uma    periodiza&ccedil;&atilde;o; depois aparece como raio de opera&ccedil;&otilde;es,    isto &eacute;, o tempo que nos &eacute; concomitante, que nos &eacute; coet&acirc;neo,    ou que foi coet&acirc;neo de uma outra gera&ccedil;&atilde;o, e essas duas acep&ccedil;&otilde;es    do tempo nos permitem trabalhar n&atilde;o s&oacute; o espa&ccedil;o geogr&aacute;fico    como um todo, mas a cidade em particular. H&aacute; uma ordem do tempo que &eacute;    a das periodiza&ccedil;&otilde;es, que nos permite pensar na exist&ecirc;ncia    de gera&ccedil;&otilde;es urbanas, em cidades que se sucederam ao longo da Hist&oacute;ria,    e que foram constru&iacute;das segundo diferentes maneiras, diferentes materiais    e tamb&eacute;m segundo diferentes ideologias.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Na cidade atual, essa id&eacute;ia de periodiza&ccedil;&atilde;o &eacute; ainda    presente; &eacute; presente nas cidades que encontramos ao longo da Hist&oacute;ria,    porque cada uma delas nasce com caracter&iacute;sticas pr&oacute;prias, ligadas    &agrave;s necessidades e possibilidades da &eacute;poca, e &eacute; presente    no presente, &agrave; medida que o espa&ccedil;o &eacute; formado pelo menos    de dois elementos: a materialidade e as rela&ccedil;&otilde;es sociais. A materialidade,    que &eacute; uma adi&ccedil;&atilde;o do passado e do presente, porque est&aacute;    presente diante de n&oacute;s, mas nos traz o passado atrav&eacute;s das formas:    basta passear por uma cidade, qualquer que seja, e nos defrontaremos nela, em    sua paisagem, com aspectos que foram criados, que foram estabelecidos em momentos    que n&atilde;o est&atilde;o mais presentes, que foram presentes no passado,    portanto atuais naquele passado, e com o presente do presente, nos edif&iacute;cios    que acabam de ser conclu&iacute;dos, esse presente que escapa de nossas m&atilde;os.    Na realidade, a paisagem &eacute; toda ela passado, porque o presente que escapa    de nossas m&atilde;os, j&aacute; &eacute; passado tamb&eacute;m. Ent&atilde;o,    a cidade nos traz, atrav&eacute;s de sua materialidade, que &eacute; um dado    fundamental da compreens&atilde;o do espa&ccedil;o, essa presen&ccedil;a dos    tempos que se foram e que permanecem atrav&eacute;s das formas e objetos que    s&atilde;o tamb&eacute;m representativos de t&eacute;cnicas. &Eacute; nesse    sentido que eu falei que a t&eacute;cnica &eacute; sin&ocirc;nimo de tempo:    cada t&eacute;cnica representa um momento das possibilidades de realiza&ccedil;&atilde;o    humana e &eacute; por isso que as t&eacute;cnicas t&ecirc;m um papel t&atilde;o    importante na preocupa&ccedil;&atilde;o de interpreta&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica    do espa&ccedil;o.</p>     <p>Ora, essas t&eacute;cnicas que nos trazem as periodiza&ccedil;&otilde;es, que    nos permitem reconstituir como aquele palimpsesto, que &eacute; a paisagem,    a acumula&ccedil;&atilde;o de tempos desiguais, que &eacute; a paisagem urbana,    como ela chega at&eacute; n&oacute;s, permitem-nos tamb&eacute;m passar dos    tempos justapostos aos tempos superpostos. Se considerarmos a hist&oacute;ria    do espa&ccedil;o e do tempo ao longo da Hist&oacute;ria, vamos ver que ela &eacute;    o passar de momentos que se propuseram justapostos, isto &eacute;, em que cada    sociedade que criava o seu tempo atrav&eacute;s de suas t&eacute;cnicas, atrav&eacute;s    do seu espa&ccedil;o, atrav&eacute;s das rela&ccedil;&otilde;es sociais que    elaborava, atrav&eacute;s da linguagem que conjuntamente criava tamb&eacute;m,    a tempos que n&atilde;o s&atilde;o mais justapostos, tempos que s&atilde;o superpostos,    isto &eacute;, aquele momento que o capitalismo entroniza, no qual h&aacute;    uma tend&ecirc;ncia &agrave; internacionaliza&ccedil;&atilde;o de tudo e que    vai se realizar plenamente nos tempos dos quais somos n&oacute;s contempor&acirc;neos,    onde h&aacute; uma verdadeira mundializa&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>Esse momento no qual vivemos, para repetir Chesnaux, &eacute; de uma sociedade    sincr&ocirc;nica, integral, na qual o homem vive sob a obsess&atilde;o do tempo,    sociedade essa que &eacute;, ao mesmo tempo, cronof&aacute;gica. Nessa sociedade    cronof&aacute;gica, &agrave; qual o tempo cede, n&oacute;s encontraremos a cidade,    tal como descrita por Baillard, no seu Cron&oacute;polis: dizia ele que, no    seu esplendor, essa cidade era como um organismo fantasticamente complexo. Transportar    a cada dia quinze milh&otilde;es de empregados de escrit&oacute;rio, manter    o servi&ccedil;o de eletricidade, de &aacute;gua, de televis&atilde;o, administrar    essa nossa popula&ccedil;&atilde;o, tudo isso dependia de um s&oacute; fator:    o tempo! Esse organismo n&atilde;o poderia subsistir sen&atilde;o sincronizando    estritamente cada passo, cada refei&ccedil;&atilde;o, cada chamada telef&ocirc;nica.    Da&iacute;, houve necessidade de descongestionar os hor&aacute;rios, segundo    a zona da cidade. Os carros tinham placas de cores diferentes, de acordo com    o hor&aacute;rio em que podiam circular, e assim o sistema se generalizou. S&oacute;    se podia ligar a m&aacute;quina de lavar, postar uma carta ou tomar um banho,    durante uma faixa determinada de tempo. Um sistema de cartas coloridas e uma    s&eacute;rie de quadros publicados a cada dia, assim como programas de televis&atilde;o,    permitiam a cada pessoa sua localiza&ccedil;&atilde;o dentro daquela faixa de    tempo. Caso contr&aacute;rio, os fus&iacute;veis saltavam e a recupera&ccedil;&atilde;o    do sistema seria muito cara. No edif&iacute;cio que, antigamente, era um dos    maiores parlamentos do mundo, isto &eacute;, o lugar onde se faziam leis, nesse    <i>d&eacute;cor</i>, de estilo g&oacute;tico perpendicular, uma esp&eacute;cie    de minist&eacute;rio do tempo estava pouco a pouco se constituindo, em torno    de um rel&oacute;gio gigantesco. Os programadores eram, de fato, os senhores    absolutos da cidade. E a totalidade da exist&ecirc;ncia de cada um era impressa    nos boletins expedidos a cada m&ecirc;s pelo Minist&eacute;rio do Tempo.</p>     <p>Num retrato de uma obra orientada para o futuro, vemos o retrato das cidades    em que vivemos. S&atilde;o Paulo que conheci quando jovem tinha rel&oacute;gios,    mas aqueles rel&oacute;gios eram apenas uma mostra da modernidade. S&atilde;o    Paulo ainda n&atilde;o era uma grande cidade, mas imitava os grandes centros    para parecer tamb&eacute;m uma grande cidade. Nesse entretempo, os rel&oacute;gios    desapareceram de S&atilde;o Paulo, e reapareceram agora, quando S&atilde;o Paulo    se torna cron&oacute;polis. S&atilde;o Paulo se torna cron&oacute;polis como    qualquer outra grande cidade do mundo, ao mesmo tempo em que as assincronias    e as dessincronias se estabelecem. O imp&eacute;rio do tempo &eacute; muito    grande sobre n&oacute;s, mas &eacute;, sobre n&oacute;s, diferentemente estabelecido.    N&oacute;s, homens, n&atilde;o temos o mesmo comando do tempo na cidade; as    firmas n&atilde;o o t&ecirc;m, assim como as intitui&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m    n&atilde;o o t&ecirc;m. Isso quer dizer que, paralelamente a um tempo que &eacute;    sucess&atilde;o, temos um tempo dentro do tempo, um tempo contido no tempo,    um tempo que &eacute; comandado, a&iacute; sim, pelo espa&ccedil;o.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14802q1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>Nesse momento em que o tempo aparece como havendo dissolvido o espa&ccedil;o,    e algumas pessoas o descreveram assim, a realidade &eacute; exatamente oposta.    O espa&ccedil;o impede que o tempo se dissolva e o qualifica de maneira extremamente    diversa para cada ator. Certo que Kant escreveu tamb&eacute;m que o espa&ccedil;o    aparece como uma estrutura de coordena&ccedil;&atilde;o desses tempos diversos.    O espa&ccedil;o permite que pessoas, institui&ccedil;&otilde;es e firmas com    temporalidades diversas, funcionem na mesma cidade, n&atilde;o de modo harmonioso,    mas de modo harm&ocirc;nico. Tamb&eacute;m atribui a cada indiv&iacute;duo,    a cada classe social, a cada firma, a cada tipo de firma, a cada institui&ccedil;&atilde;o,    a cada tipo de institui&ccedil;&atilde;o, formas particulares de comando e de    uso do tempo, formas particulares de comando e de uso do espa&ccedil;o. N&atilde;o    fosse assim, a cidade n&atilde;o permitiria, como S&atilde;o Paulo permite,    a conviv&ecirc;ncia de pessoas pobres com pessoas ricas, de firmas poderosas    e firmas fracas, de institui&ccedil;&otilde;es dominantes e de institui&ccedil;&otilde;es    dominadas. Isso &eacute; poss&iacute;vel porque h&aacute; um tempo dentro do    tempo, quer dizer, o recorte sequencial do tempo; n&oacute;s temos um outro    recorte, que &eacute; aquele que aparece como espa&ccedil;o.</p>     <p>Essa temporaliza&ccedil;&atilde;o, digamos assim, pr&aacute;tica, como Althusser    havia sugerido, aparece nos contextos, que &eacute; o que a n&oacute;s ge&oacute;grafos    interessa estudar, os contextos, a sucess&atilde;o de contextos, onde o tempo,    &agrave; imagem de Einstein, se confunde com o espa&ccedil;o, &eacute; espa&ccedil;o.    O espa&ccedil;o &eacute; tempo, coisa que somente &eacute; poss&iacute;vel atrav&eacute;s    desse trabalho de empiria que nos &eacute; admiss&iacute;vel, concebendo a t&eacute;cnica    como tempo, incluindo entre as t&eacute;cnicas, n&atilde;o apenas as t&eacute;cnicas    da vida material, mas as t&eacute;cnicas da vida social, que v&atilde;o nos    permitir a interpreta&ccedil;&atilde;o de contextos sucessivos. De tal maneira    que o espa&ccedil;o aparece como coordenador dessas diversas organiza&ccedil;&otilde;es    do tempo, o que permite, por conseg&uuml;inte, nesse espa&ccedil;o t&atilde;o    diverso, essas temporalidades que coabitam no mesmo momento hist&oacute;rico.</p>     <p>&Eacute; esta a pesquisa que eu desejaria realizar, n&atilde;o sei se poderei    faz&ecirc;-la, estou trazendo para discuss&atilde;o aqui neste semin&aacute;rio    de trabalho, para ver se h&aacute; viabilidade. De tal maneira que n&atilde;o    ter&iacute;amos apenas, como Fernand Braudel, nosso mestre, que foi o fundador    da escola de Hist&oacute;ria e Geografia da USP, as no&ccedil;&otilde;es de    tempo longo e de tempo curto. Eu, modestamente, proporia que ao lado dos tempos    curto e longo, fal&aacute;ssemos de tempos r&aacute;pidos e tempos lentos.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>A cidade &eacute; o palco de atores os mais diversos: homens, firmas, institui&ccedil;&otilde;es,    que nela trabalham conjuntamente. Alguns movimentam-se segundo tempos r&aacute;pidos,    outros, segundo tempos lentos, de tal maneira que a materialidade que possa    parecer como tendo uma &uacute;nica indica&ccedil;&atilde;o, na realidade n&atilde;o    a tem, porque essa materialidade &eacute; atravessada por esses atores, por    essa gente, segundo os tempos, que s&atilde;o lentos ou r&aacute;pidos. Tempo    r&aacute;pido &eacute; o tempo das firmas, dos indiv&iacute;duos e das institui&ccedil;&otilde;es    hegem&ocirc;nicas e tempo lento &eacute; o tempo das institui&ccedil;&otilde;es,    das firmas e dos homens hegemonizados. A economia pobre trabalha nas &aacute;reas    onde as velocidades s&atilde;o lentas. Quem necessita de velocidades r&aacute;pidas    &eacute; a economia hegem&ocirc;nica, s&atilde;o as firmas hegem&ocirc;nicas.    &Eacute; para esta classe que tem significa&ccedil;&atilde;o uma avenida como    a dos Bandeirantes, ou estradas como a dos Bandeirantes e a Anhanguera, que    s&atilde;o estradas que sobretudo interessam aos agentes hegem&ocirc;nicos e    &agrave;s pessoas ricas que usam melhor, do seu ponto de vista, essas estradas.    Do aeroporto ao centro da cidade vai-se muito depressa, criam-se condi&ccedil;&otilde;es    materiais para que o tempo gasto na viagem seja curto. J&aacute; entre os bairros    vai-se mais devagar, no sentido de que n&atilde;o h&aacute; uma materialidade    que favore&ccedil;a o tempo r&aacute;pido.</p>     <p>Aqui, a materialidade imp&otilde;e um tempo lento. Isso quer dizer que os pobres    vivem dentro da cidade sob tempos lentos. S&atilde;o temporalidades concomitantes    e convergentes que t&ecirc;m como base o fato de que os objetos tamb&eacute;m    t&ecirc;m uma temporalidade, os objetos tamb&eacute;m imp&otilde;em um tempo    aos homens. A partir do momento em que eu crio objetos, os deposito num lugar    e eles passam a se conformar a esse lugar, a dar, digamos assim, a cara do lugar,    esses objetos imp&otilde;em &agrave; sociedade ritmos, formas temporais do seu    uso, das quais os homens n&atilde;o podem se furtar e que terminam, de alguma    maneira, por domin&aacute;-los. N&atilde;o naquele sentido a que Maffesoli se    reportou, quando disse que os objetos deixaram de ser obedientes e passaram    a nos comandar. Os objetos nos comandam de alguma maneira, mas esse comando    dos objetos sobre o tempo consagra, no meu modo de ver, essa uni&atilde;o entre    o espa&ccedil;o e o tempo, tal como n&oacute;s ge&oacute;grafos o vemos, mas,    evidentemente n&atilde;o o espa&ccedil;o e o tempo dos fil&oacute;sofos <i>tout    court</i>. Era o que eu tinha a dizer, pedindo ajuda e sugest&otilde;es para    o projeto de pesquisa.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Milton Santos</b> foi professor titular de Departamento de Geografia,    da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci&ecirc;ncias Humanas da Universidade de    S&atilde;o Paulo, falecido em 24 de junho de 2001.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><a name="back1"></a><a href="#top1">*</a> Texto extra&iacute;do da transcri&ccedil;&atilde;o    da confer&ecirc;ncia do autor na mesa-redonda "O tempo na Filosofia e na Hist&oacute;ria",    promovida pelo Grupo de Estudos sobre o Tempo do Instituto de Estudos Avan&ccedil;ados    da USP em 29 de maio de 1989. A transcri&ccedil;&atilde;o completa foi publicada    na <i>Cole&ccedil;&atilde;o Documentos</i>, s&eacute;rie <i>Estudos sobre o    Tempo</i>, fasc&iacute;culo 2, em fevereiro de 2001.</p>      ]]></body>
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