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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tp8.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">F<small>INITUDE, MUTA&Ccedil;&Otilde;ES E GOZO</small></font></b></p>     <p>Ronilda Iyakemi Ribeiro</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>C</font></b><i>ada qual enxerga o meio dia da porta de sua    casa</i>, diz o ad&aacute;gio africano. Fato sobejamente conhecido &eacute;    esse: a experi&ecirc;ncia social ou cultural interfere na concep&ccedil;&atilde;o    de tempo. Goldschmidt (1) observa que as defini&ccedil;&otilde;es de mundo s&atilde;o    distintas, n&atilde;o apenas pelo fato de serem diferentes os costumes e as    cren&ccedil;as dos povos: "&Eacute;, antes, que os mundos de povos diferentes    t&ecirc;m formas diferentes. Os pr&oacute;prios pressupostos metaf&iacute;sicos    variam: o espa&ccedil;o n&atilde;o se conforma &agrave; geometria euclidiana,    o tempo n&atilde;o constitui um fluxo cont&iacute;nuo de sentido &uacute;nico,    as causas n&atilde;o se conformam &agrave; l&oacute;gica aristot&eacute;lica...    como no nosso mundo".</p>     <p>Quanto ao tempo, se pretendemos conceitu&aacute;-lo, temos que considerar seus    aspectos de tempo hist&oacute;rico, cronol&oacute;gico, f&iacute;sico, psicol&oacute;gico,    entre outros. O <b>tempo hist&oacute;rico</b>, pass&iacute;vel de divis&atilde;o    em intervalos curtos ou longos, pode ser concebido como um processo de ritmo    vari&aacute;vel e n&atilde;o uniforme. As dire&ccedil;&otilde;es desse tempo    variam segundo diferentes padr&otilde;es culturais, que exprimem atitudes valorativas:    o processo temporal representado como um percurso linear progressivo, caracter&iacute;stico    da representa&ccedil;&atilde;o crist&atilde; de tempo, tem contraponto no percurso    c&iacute;clico, que re&uacute;ne fases ou per&iacute;odos recorrentes, caracter&iacute;stico,    por exemplo, das representa&ccedil;&otilde;es negro-africana e chinesa. O <b>tempo    cronol&oacute;gico</b>, que regula nossa exist&ecirc;ncia cotidiana, pode ser    considerado tempo socializado ou <b>p&uacute;blico</b>. Opondo o <b>tempo f&iacute;sico</b>,    natural ou c&oacute;smico ao tempo psicol&oacute;gico ou tempo vivido, temos    que o primeiro, pode ser entendido como a medida do movimento, como a express&atilde;o    de rela&ccedil;&atilde;o entre anterior e posterior e, ainda, como o pr&oacute;prio    processo das muta&ccedil;&otilde;es, que independe da consci&ecirc;ncia do sujeito.    O <b>tempo psicol&oacute;gico</b> ou tempo vivido (dura&ccedil;&atilde;o interior),    por sua vez, n&atilde;o coincide com as medidas temporais objetivas. Variando    de indiv&iacute;duo para indiv&iacute;duo, sendo subjetivo e qualitativo, sujeita-se    apenas ao registro de momentos imprecisos, que se aproximam ou tendem a fundir-se,    numa organiza&ccedil;&atilde;o determinada por sentimentos e lembran&ccedil;as,    que definem "intervalos heterog&ecirc;neos incompar&aacute;veis" (2).</p>     <p>Na clepsidra escoa a &aacute;gua e na ampulheta, a areia, marcando intervalos    de tempo, <b>dura&ccedil;&otilde;es menores</b>, em cada dia solar. Uma vez    constatado que os fatos ocorrem em dada ordem, configurando unidades org&acirc;nicas,    com princ&iacute;pio, meio e fim, temos uma rela&ccedil;&atilde;o entre o come&ccedil;o    e o fim de movimentos que se sucedem no vasto <i>continuum</i> temporal, como    que preenchendo o tempo de <b>conte&uacute;dos</b>. Essa representa&ccedil;&atilde;o,    segundo a qual os eventos <b>preenchem</b> um continente temporal do mesmo modo    que objetos preenchem continentes espaciais, n&atilde;o &eacute; pouco freq&uuml;ente.    Berthelot (3) assinala que a ordena&ccedil;&atilde;o do tempo costuma proceder    da ordena&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o, em especial a da semana. A ordem    no tempo se originaria da considera&ccedil;&atilde;o de sete dire&ccedil;&otilde;es    espaciais &#150; duas para a largura, duas para o comprimento e duas para a altura,    mais o centro. Correspondendo o s&aacute;bado ao centro e, expressando o centro    a imobilidade, define-se esse dia como o de descanso e os demais como dias din&acirc;micos.    E, pela rela&ccedil;&atilde;o que une entre si todos os centros e estes ao Centro    Primordial, &agrave; origem divina, tem esse dia um car&aacute;ter sagrado.    A id&eacute;ia de que o tempo &#150; a semana &#150; prov&eacute;m da organiza&ccedil;&atilde;o    do espa&ccedil;o pode ser substitu&iacute;da pela no&ccedil;&atilde;o de que    ambos resultam de um mesmo princ&iacute;pio. Nesse caso, o espa&ccedil;o pode    ser considerado conjuntamente com o tempo e neles se produzem as fases que constituem    o ciclo da vida: n&atilde;o-manifesta&ccedil;&atilde;o / manifesta&ccedil;&atilde;o    / n&atilde;o-manifesta&ccedil;&atilde;o.</p>     <p>"... primeiramente apresenta-se em geral aquilo que preenche uma fase do tempo    e n&atilde;o a pr&oacute;pria fase temporal correspondente em si mesma. S&oacute;    a apresenta&ccedil;&atilde;o daquilo que preenche o tempo, conduz ent&atilde;o    &agrave; apresenta&ccedil;&atilde;o do tempo assim preenchido (4)."</p>     <p>Nunes (5) observa que os diversos conceitos de tempo compartilham as no&ccedil;&otilde;es    de ordem, dura&ccedil;&atilde;o e dire&ccedil;&atilde;o, interligadas pelo conceito    mais geral de mudan&ccedil;a &#150; muta&ccedil;&atilde;o &#150; ao qual n&atilde;o    se pode reduzir a natureza do tempo, quest&atilde;o filos&oacute;fica mais radical.    E sobre esse conceito nos detemos a seguir.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>M<small>UTA&Ccedil;&Otilde;ES SEGUNDO A CONCEP&Ccedil;&Atilde;O CHINESA</small></b></p>     <p align="right">N&atilde;o h&aacute; dois lugares, nem talvez duas horas, em    parte alguma,     <br>   exatamente iguais. Qu&atilde;o diferente &eacute; o cheiro do meio-dia do     <br>   da meia-noite, o cheiro do outono do cheiro do inverno, o de um momento de brisa    de outro de calma!     <br>   O mundo &eacute; na verdade um festim da vida!    <br>   <i>Walt Whitman</i></p>     <p>As mudan&ccedil;as ou muta&ccedil;&otilde;es, entendidas como passagem ou transi&ccedil;&atilde;o    entre estados que perduram, constitu&iacute;ram o fator central da vis&atilde;o    de mundo consolidada na China no per&iacute;odo imediatamente anterior &agrave;    Dinastia Chou (1150-29 a.C.). A observa&ccedil;&atilde;o do mundo, em torno    de si e em seu pr&oacute;prio interior, levou o homem chin&ecirc;s a constatar    um fluir cont&iacute;nuo do qual nada escapa e a constatar que, embora incont&aacute;veis    e distintos uns dos outros, todos os fen&ocirc;menos, em suas tend&ecirc;ncias    de mudan&ccedil;a, s&atilde;o regidos pelos mesmos e constantes princ&iacute;pios.    Uma vez apreendidos tais princ&iacute;pios, descobre-se o simples por detr&aacute;s    do complexo, e f&aacute;cil se torna o percurso de tudo o que acompanha o ciclo    em vig&ecirc;ncia pois, segundo o pensamento tao&iacute;sta, fluindo em acordo    com as circunst&acirc;ncias encontra-se um caminho f&aacute;cil, duradouro e    espont&acirc;neo, como o da &aacute;gua que, "descendo a montanha, diante de    nada recua, diante de nada insiste: mergulha, desvia, contorna, adapta-se sem    resist&ecirc;ncia e chega, pois, infalivelmente, ao que lhe corresponde (6)."</p>     <p>Dois estados opostos e fundamentais de ser s&atilde;o expressos na China pelo    Wu Chi, representado por um c&iacute;rculo dividido em luz e escurid&atilde;o    &#150; <i>yang</i> e <i>yin</i>, significando <i>yi</i>n, o nebuloso, o sombrio    e <i>yang</i> (literalmente <b>estandartes tremulando ao sol</b>), algo que    brilha, ou o luminoso, que tamb&eacute;m s&atilde;o interpret&aacute;veis como    o firme e o male&aacute;vel. Entendida a muta&ccedil;&atilde;o como a cont&iacute;nua    altern&acirc;ncia entre essas for&ccedil;as opostas e, simultaneamente, como    um ciclo fechado de acontecimentos complexos conectados entre si e sujeitos    ao Tao (Lei Universal), t&ecirc;m-se os estados da exist&ecirc;ncia como decorrentes    da muta&ccedil;&atilde;o e da intera&ccedil;&atilde;o dessas for&ccedil;as.</p>     <p>Considerando o fato de ser a exist&ecirc;ncia finita, cabe perguntar: ao longo    do processo de cont&iacute;nuas muta&ccedil;&otilde;es ocorridas ao longo do    tempo de vida individual, que lugar &eacute; reservado ao gozo? E aqui, novamente,    nos defrontamos com m&uacute;ltiplas respostas poss&iacute;veis, dependendo    dos pressupostos metaf&iacute;sicos adotados. Dentre eles recortaremos o enfoque    chin&ecirc;s tal qual &eacute; apresentado por Lin Yutang (7), fil&oacute;sofo    e romancista da d&eacute;cada de 40.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>&nbsp;</p>     <p><b>F<small>INITUDE E GOZO</small></b></p>     <p align="right">At&eacute; a feira mais gloriosa, com suas tendas estendendo-se    sobre    <br>   mil milhas, mais cedo ou mais tarde, deve chegar a seu fim    <br>   <i>(Ad&aacute;gio popular chin&ecirc;s)</i></p>     <p>A consci&ecirc;ncia a respeito da muta&ccedil;&atilde;o cont&iacute;nua e da    finitude da exist&ecirc;ncia pode favorecer uma atitude de busca da felicidade.    Lin Yutang aborda o tema da felicidade enfatizando que o sentimento da evanesc&ecirc;ncia    do tempo &#150; somos "colocados nessa linda terra como h&oacute;spedes transit&oacute;rios"    &#150; favorece uma postura existencial caracterizada pela busca do gozo. Recorrendo    a outras met&aacute;foras, o autor refere-se a n&oacute;s humanos como viajantes    que navegam sobre o eterno rio do tempo, embarcando em certo ponto e desembarcando    em outro, a fim de deixar lugar aos que, rio abaixo, esperam sua vez de subir    a bordo. Refere-se &agrave; vida como um palco em que os atores, que raramente    se d&atilde;o conta de estarem representando pap&eacute;is, a eles se apegam    em demasia e, esquecidos do ato de estarem apenas representando, confundem-se    com a personagem.</p>     <p>Considera que, sendo limitado o prazo de vida, seu conte&uacute;do deva ser    ordenado tendo em vista a obten&ccedil;&atilde;o da maior felicidade poss&iacute;vel    o que, a seu ver, envolve antes uma quest&atilde;o de ordem pr&aacute;tica,    semelhante ao planejamento das atividades de um s&aacute;bado, por exemplo,    do que uma proposi&ccedil;&atilde;o metaf&iacute;sica atinente ao prop&oacute;sito    m&iacute;stico de nossa vida no plano geral do universo. Observa, por exemplo,    que mesmo se a vida fosse um sombrio calabou&ccedil;o, ter&iacute;amos que fazer    o poss&iacute;vel para torn&aacute;-lo mais c&ocirc;modo para nele habitar durante    um certo tempo. No entanto, como em lugar de um calabou&ccedil;o "temos essa    terra t&atilde;o linda para habitar durante boa parte de um s&eacute;culo",    por qu&ecirc; n&atilde;o usufruir, do modo mais prazeroso poss&iacute;vel, essa    estadia?</p>     <p>Considerando que o gozo da vida abrange o gozo de n&oacute;s mesmos, da vida    social e cultural, das mil e uma coisas da Natureza, "de tudo o que, sob uma    forma ou outra, vem a ser a comunh&atilde;o dos esp&iacute;ritos" e entendendo    que a felicidade humana &eacute; primordialmente sens&oacute;ria, o autor sugere    que se resgate a capacidade para o gozo das alegrias da vida no fluir cont&iacute;nuo    e ao longo das sucessivas muta&ccedil;&otilde;es. E que isso se realize a partir    do despertar ou reavivar da sensibilidade.</p>     <p>N&atilde;o se pense, entretanto, que haja aqui uma proposta de exalta&ccedil;&atilde;o    narc&iacute;sica e individualista de busca cont&iacute;nua de um prazer exclusivo    para si. A import&acirc;ncia atribu&iacute;da &agrave; corrente geracional e    ao sentido do fluir do tempo atrav&eacute;s das m&uacute;ltiplas gera&ccedil;&otilde;es,    caracter&iacute;stica do pensamento chin&ecirc;s, sup&otilde;e a obten&ccedil;&atilde;o    de gozo associada &agrave; felicidade de outros, tanto da gera&ccedil;&atilde;o    presente como das vindouras:</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="right">Junto &agrave; colina, que lindos campos de ouro!    <br>   Outros lavraram o que colhe agora o rec&eacute;m-chegado.    <br>   Oh! N&atilde;o te alegres somente com a colheita,    <br>   Que outro rec&eacute;m-chegado, por detr&aacute;s espera.    <br>   <i>(poeta chin&ecirc;s. Cita&ccedil;&atilde;o de Lin Yutang)</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Ronilda Iyakemi Ribeiro</b> &eacute; doutora em Psicologia e Antropologia;    docente e pesquisadora da USP e da UNIP; presidente da ONG Instituto Guatambu    de Cultura.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas e Refer&ecirc;ncias</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<!-- ref --><p>1 Goldschmidt, W. Pref&aacute;cio. <i>In:</i> Casta&ntilde;eda, C. <i>A erva    do diabo</i>, S&atilde;o Paulo: C&iacute;rculo do Livro, 1976.<!-- ref --><p>2 Pomian, K. <i>L' ordre du Temps</i>. Paris: Gallimard, 1984, p. 220, citado    por Nunes, B. &#150; <i>O tempo na narrativa</i>. S&atilde;o Paulo: Editora &Aacute;tica,    1995. S&eacute;rie Fundamentos, p. 19.<!-- ref --><p>3 Citado por Cirlot, Juan-E.. <i>Dicion&aacute;rio de s&iacute;mbolos</i>.    S&atilde;o Paulo: Editora Moraes, 1984, Trad. Frias, R. E.<p>4 Ingarden, R. <i>A obra de arte liter&aacute;ria</i>. Funda&ccedil;&atilde;o    Calouste Gulbenkian, 1973, p. 259 citado por Nunes, B. obra citada, p. 25.</p>     <!-- ref --><p>5 Nunes, B. <i>O tempo na narrativa</i>. S&atilde;o Paulo: Editora &Aacute;tica,    1995. S&eacute;rie Fundamentos.<!-- ref --><p>6 <i>I Ching - O Livro das muta&ccedil;&otilde;es</i>. S&atilde;o Paulo: Pensamento,    1970.<!-- ref --><p>7 Yutang, L. <i>A import&acirc;ncia de viver: a arte de ser feliz revelada    pela profunda sabedoria chinesa</i>. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1963, caps.    1, 5 e 6. ]]></body><back>
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