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</front><body><![CDATA[ <p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/tp8.gif"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size="4">O <small>TEMPO DA CULTURA EM</small> N<small>IETZSCHE</small></font></b></p>     <p>Jos&eacute; Carlos Bruni</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b><font size=5>G</font></b>rande parte da fama do fil&oacute;sofo Friedrich    Nietzsche adv&eacute;m de sua concep&ccedil;&atilde;o do eterno retorno do mesmo.    Na verdade, grande enigma que desafia a compreens&atilde;o comum e que tem despertado    as mais engenhosas interpreta&ccedil;&otilde;es, no intuito de tornar aquela    id&eacute;ia um pouco mais clara. Esse ponto culminante das reflex&otilde;es    de Nietzsche sobre a quest&atilde;o do tempo tem deixado em segundo plano outros    aspectos de sua filosofia da temporalidade, alguns dos quais ser&atilde;o objeto    do presente texto, especialmente as no&ccedil;&otilde;es de pressa (<i>die Hast</i>)    e devagar (<i>langsam</i>).</p>     <p>Em v&aacute;rias ocasi&otilde;es, Nietzsche expressa sua prefer&ecirc;ncia    pelos leitores que s&atilde;o calmos e "amigos do lento". Nas confer&ecirc;ncias    "Sobre o futuro de nossos estabelecimentos de ensino", Nietzsche escreve:</p>     <blockquote>        <p>"O leitor de quem espero algo (...) deve ser calmo e ler sem pressa. (...)      O livro est&aacute; destinado aos homens que ainda n&atilde;o ca&iacute;ram      na pressa vertiginosa de nossa &eacute;poca rodopiante e que n&atilde;o sentem      um prazer id&oacute;latra em ser esmagados por suas rodas. Portanto para poucos      homens! Mas esses homens ainda n&atilde;o se habituaram a calcular o valor      de cada coisa pelo tempo economizado ou pelo tempo perdido, eles 'ainda t&ecirc;m      tempo'; a eles ainda est&aacute; permitido, sem que venham a sentir remorsos,      escolher e procurar as boas horas do dia e seus momentos fecundos e fortes      para meditar sobre o futuro de nossa cultura (<i>Bildung</i>), eles mesmos      podem se permitir ter passado um dia de maneira digna e &uacute;til na <i>meditatio      generis futuri</i>. Tal homem ainda n&atilde;o desaprendeu a pensar enquanto      l&ecirc;, compreende ainda o segredo de ler entrelinhas, tem mesmo o car&aacute;ter      t&atilde;o esbanjador que medita ainda sobre o que leu, mesmo muito tempo      depois de n&atilde;o ter mais o livro entre as m&atilde;os. E n&atilde;o para      escrever uma resenha ou outro livro, mas apenas e somente isso &#150; para      meditar! Conden&aacute;vel esbanjador!" <a name="top1"></a><a href="#back1">(1)</a>.</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>E em <i>Aurora</i> lemos:</p>     <blockquote>        <p>"Tal livro, tal problema n&atilde;o t&ecirc;m pressa; al&eacute;m disso somos      amigos do lento, eu tanto quanto meu livro; n&atilde;o se foi fil&oacute;sofo      em v&atilde;o, talvez &eacute;-se ainda, dir&iacute;amos, um professor de      leitura lenta &#150; finalmente, escreve-se tamb&eacute;m lentamente. Agora,      isso n&atilde;o s&oacute; faz parte dos meus h&aacute;bitos, como tamb&eacute;m      do meu gosto &#150; um gosto maldoso, talvez? Nada mais escrever que n&atilde;o      leve aquela esp&eacute;cie de homem que 'tem pressa' ao desespero. A filologia      &eacute; efetivamente essa arte vener&aacute;vel que exige de seu admirador      antes de tudo uma coisa: afastar-se, dar-se tempo, tornar-se silencioso, tornar-se      lento, como um conhecimento de ourives aplicado &agrave; palavra, que tem      de fazer seu trabalho fino e cuidadoso e nada alcan&ccedil;a se n&atilde;o      alcan&ccedil;a lentamente. &Eacute; precisamente nisso que ela &eacute; hoje      mais necess&aacute;ria do que nunca, &eacute; justamente nisso que ela nos      atrai e nos encanta no mais alto grau, numa &eacute;poca de 'trabalho', quero      dizer: na &eacute;poca da pressa, de indecente e suada velocidade, que quer      'acabar logo com tudo' e tamb&eacute;m com todos os livros, velhos ou novos.      Mas ela pr&oacute;pria [a filologia] n&atilde;o acaba logo com qualquer coisa,      ela ensina a ler bem, isto &eacute;, devagar &#150; profunda, cuidadosa, retrospectiva      e antecipadamente, descobrindo inten&ccedil;&otilde;es, com portas deixadas      abertas por dedos e olhos suaves... Meus pacientes amigos, este livro deseja      apenas leitores e fil&oacute;logos perfeitos: aprendei a ler-me bem!" <a name="top2"></a><a href="#back2">(2)</a>.</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>E na <i>Genealogia da moral</i>:</p>     <blockquote>        <p>"&Eacute; certo que, a praticar desse modo a leitura como arte, faz-se preciso      algo que precisamente em nossos dias est&aacute; bem esquecido (...) e para      o qual &eacute; imprescind&iacute;vel ser quase uma vaca e <i>n&atilde;o</i>      um 'homem moderno': <i>o ruminar</i>..." <a name="top3"></a><a href="#back3">(3)</a>.</p> </blockquote>     <p>&nbsp;</p>     <p>&Eacute; significativo que essas recomenda&ccedil;&otilde;es figurem sempre    nos pref&aacute;cios dos livros; parecem sugerir que a lentid&atilde;o &eacute;    a pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de inteligibilidade dos textos a serem    lidos, o primeiro pressuposto da atividade do esp&iacute;rito enquanto tal.    Mas tamb&eacute;m tendo a crer que muito nos enganar&iacute;amos se v&iacute;ssemos    nestes textos requisitos para a compreens&atilde;o somente dos escritos do pr&oacute;prio    Nietzsche, ou conselhos ditados pelo bom senso para o bom aproveitamento da    leitura em geral. A calma e o devagar (refor&ccedil;adas pelas imagens do professor    meditativo e da vaca) s&atilde;o antes exig&ecirc;ncias essenciais da forma&ccedil;&atilde;o    e da cultura, pressupostos que dizem respeito &agrave; pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia    da cultura. "A cultura diminui a cada dia porque a pressa torna-se maior." <a name="top4"></a><a href="#back4">(4)</a>.    A exig&ecirc;ncia que Nietzsche faz aos seus leitores &#150; que devem ser calmos    e saibam ler devagar &#150; &eacute; uma exig&ecirc;ncia dirigida &agrave; cultura    e n&atilde;o a este ou aquele leitor em particular. Com isso, Nietzsche mostra    que h&aacute; um tempo pr&oacute;prio &agrave; cultura, tempo este que n&atilde;o    deve ser confundido com nenhum outro e que faz da cultura exatamente o que ela    &eacute;. Concebendo a filosofia, as ci&ecirc;ncias e as artes como os tr&ecirc;s    campos principais nos quais a cultura se realiza, Nietzsche vai primeiramente    distinguir a cultura verdadeira (ou aut&ecirc;ntica) da pseudo-cultura, o que    historicamente coincide com a cultura grega antiga e a cultura moderna. Ele    vai se deter na cr&iacute;tica da cultura de sua &eacute;poca, ou mais precisamente,    a cultura moderna. Explorar com alguma pertin&ecirc;ncia o tema da modernidade    nesse fil&oacute;sofo &eacute; tarefa que excede em muito nossos limites. Lembremos    apenas que &eacute; justamente pela distin&ccedil;&atilde;o entre o tempo da    lentid&atilde;o e o tempo da pressa que os conceitos de cultura aut&ecirc;ntica    e de pseudo-cultura podem ser estabelecidos. Nietzsche entende por cultura aut&ecirc;ntica    ou verdadeira aquela que permite ao homem aceder ao seu pr&oacute;prio ser (ou    devir) e ao ser (ou devir) da natureza e construir assim uma vida em que a felicidade    seja poss&iacute;vel. Esse tipo de cultura s&oacute; pode ser alcan&ccedil;ado    "por muita aplica&ccedil;&atilde;o, auto-dom&iacute;nio, restri&ccedil;&atilde;o    a poucas coisas, por muita repeti&ccedil;&atilde;o, tenaz e fiel, do mesmo trabalho,    das mesmas ren&uacute;ncias; mas h&aacute; homens que s&atilde;o os herdeiros    e senhores dessa riqueza de virtudes e habilidades adquiridas lentamente &#150;    porque, em fun&ccedil;&atilde;o de um casamento feliz e razo&aacute;vel e tamb&eacute;m    de acasos felizes, as for&ccedil;as adquiridas e acumuladas ao longo de muitas    gera&ccedil;&otilde;es n&atilde;o se dispersam nem se dissipam, mas s&atilde;o    reunidas firmemente numa &uacute;nica alian&ccedil;a" <a name="top5"></a><a href="#back5">(5)</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p align="center"><img src="/img/fbpe/cic/v54n2/14809q1.jpg"></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>A cultura moderna constitui-se como nega&ccedil;&atilde;o da verdadeira cultura,    em primeiro lugar por instituir um tempo acelerado e agitado, oposto a qualquer    forma de tranq&uuml;ilidade. Em <i>Humano, demasiadamente humano</i>, Nietzsche    escreve no aforismo 285: "A intranq&uuml;ilidade moderna. &#150; &Agrave; medida    que andamos para o Ocidente, se torna cada vez maior a agita&ccedil;&atilde;o    moderna, de modo que no conjunto os habitantes da Europa se apresentam aos americanos    como amantes da tranq&uuml;ilidade e do prazer, embora se movimentem como abelhas    ou vespas em v&ocirc;o. Essa agita&ccedil;&atilde;o se torna t&atilde;o grande    que a cultura superior j&aacute; n&atilde;o pode amadurecer seus frutos; &eacute;    como se as esta&ccedil;&otilde;es do ano se seguissem com demasiada rapidez.    Por falta de tranq&uuml;ilidade, nossa civiliza&ccedil;&atilde;o se transforma    numa nova barb&aacute;rie. Em nenhum outro tempo os ativos, isto &eacute;, os    intranq&uuml;ilos, valeram tanto. Logo, entre as corre&ccedil;&otilde;es que    necessitamos fazer no car&aacute;ter da humanidade est&aacute; fortalecer em    grande medida o elemento contemplativo" <a name="top6"></a><a href="#back6">(6)</a>,    a ser alcan&ccedil;ado pelo esfor&ccedil;o acima mencionado. Mas como se pode    compreender o processo pelo qual o mundo moderno chegou a esse ponto? A resposta    est&aacute; "num dos dogmas da economia pol&iacute;tica mais caros do tempo    presente. Tanto conhecimento e tanta cultura quanto poss&iacute;vel &#150; portanto    tanta produ&ccedil;&atilde;o e tantas necessidades quanto poss&iacute;vel &#150;,    portanto tanta felicidade quanto poss&iacute;vel: eis mais ou menos a f&oacute;rmula.    N&oacute;s temos aqui como objetivo e finalidade da cultura a utilidade ou mais    exatamente o lucro, o maior ganho poss&iacute;vel de dinheiro (...) 'A uni&atilde;o    da intelig&ecirc;ncia e da propriedade' que &eacute; posta como princ&iacute;pio    nessa concep&ccedil;&atilde;o de mundo toma valor de exig&ecirc;ncia moral.    Chega-se a odiar toda cultura que favorece o solit&aacute;rio, que prop&otilde;e    fins al&eacute;m do dinheiro ou do lucro, que exige muito tempo. (...) A moral    que est&aacute; aqui em vigor exige claramente qualquer coisa de inverso, a    saber uma cultura r&aacute;pida, para que se possa tornar-se um ser que ganhe    dinheiro, mas tamb&eacute;m uma cultura suficientemente aprofundada para que    se possa tornar-se um ser que ganhe <i>muito</i> dinheiro." <a name="top7"></a><a href="#back7">(7)</a>.    Mas n&atilde;o &eacute; apenas o af&atilde; de lucro que representa um perigo    mortal para a cultura. Nietzsche fala do "ego&iacute;smo do Estado" para designar    as tentativas dessa institui&ccedil;&atilde;o de submeter a cultura aos seus    objetivos pr&oacute;prios que nada t&ecirc;m a ver com a natureza da verdadeira    cultura. E no que diz respeito &agrave; ci&ecirc;ncia, o fil&oacute;sofo lamenta    a degrada&ccedil;&atilde;o a que &eacute; levado o homem de ci&ecirc;ncia. "Este    paradoxo vivo que &eacute; o homem de ci&ecirc;ncia, caiu recentemente na Alemanha    em tal pressa como se a ci&ecirc;ncia fosse uma f&aacute;brica e cada minuto    desperdi&ccedil;ado exigisse um castigo. Agora ele trabalha t&atilde;o duro    quanto o quarto estado, o estado dos escravos, seu estudo n&atilde;o &eacute;    mais uma ocupa&ccedil;&atilde;o, mas uma pena, ele n&atilde;o se v&ecirc; nem    &agrave; direita nem &agrave; esquerda, e passa por todos os neg&oacute;cios    e hesita&ccedil;&otilde;es que a vida traz em seu seio, com aquela semi-aten&ccedil;&atilde;o    ou com aquela lament&aacute;vel necessidade de repouso pr&oacute;prias do trabalhador    esgotado." <a name="top8"></a><a href="#back8">(8)</a>.</p>     <p>Enfim, al&eacute;m de refletir tamb&eacute;m sobre as condi&ccedil;&otilde;es    psicol&oacute;gicas que levam &agrave; pressa <a name="top9"></a><a href="#back9">(9)</a>,    &eacute; no aforismo 329 de <i>A gaia ci&ecirc;ncia</i> que Nietzsche alcan&ccedil;a    a formula&ccedil;&atilde;o mais abrangente de toda essa problem&aacute;tica    que ao mesmo tempo a resume e a amplia num enfoque propriamente sociol&oacute;gico:    "Lazer e &oacute;cio. &#150; H&aacute; uma selvageria pele-vermelha, pr&oacute;pria    do sangue ind&iacute;gena, no modo como os americanos buscam o ouro: e a asfixiante    pressa com que trabalham &#150; o v&iacute;cio peculiar ao Novo Mundo &#150; j&aacute;    contamina a velha Europa, tornando-a selvagem e sobre ela espelhando uma singular    aus&ecirc;ncia de esp&iacute;rito. As pessoas j&aacute; se envergonham do descanso;    a reflex&atilde;o demorada quase produz remorso. Pensam com o rel&oacute;gio    na m&atilde;o enquanto almo&ccedil;am, tendo os olhos voltados para os boletins    da bolsa &#150; vivem como algu&eacute;m que a todo instante poderia '<b>perder    algo</b>'. '<b>Melhor fazer qualquer coisa do que nada</b>' &#150; este princ&iacute;pio    &eacute; tamb&eacute;m uma corda, boa para liquidar toda cultura e gosto superior.    Assim como todas as formas sucumbem visivelmente &agrave; pressa dos que trabalham,    o pr&oacute;prio sentido da forma, o ouvido e o olho para a melodia dos movimentos    tamb&eacute;m sucumbem. A prova disso est&aacute; na rude clareza agora exigida    em todas as situa&ccedil;&otilde;es em que as pessoas querem ser honestas umas    com as outras no trato com amigos, mulheres, parentes, crian&ccedil;as, professores,    l&iacute;deres e pr&iacute;ncipes &#150; elas n&atilde;o t&ecirc;m mais tempo    para as cerim&ocirc;nias, para os rodeios da cortesia, para o <i>esprit</i>    na conversa e para qualquer <i>otium</i> (&oacute;cio), afinal. Pois viver continuamente    &agrave; ca&ccedil;a de ganhos obriga a despender o esp&iacute;rito at&eacute;    a exaust&atilde;o, sempre fingindo, fraudando, antecipando-se aos outros: a    aut&ecirc;ntica virtude, agora, &eacute; fazer algo em menos tempo que os demais.    (...) Se ainda h&aacute; prazer com a sociedade e as artes, &eacute; o prazer    que arranjam para si os escravos exaustos de trabalho. Que l&aacute;stima essa    modesta 'alegria' de nossa gente culta ou inculta! Que l&aacute;stima essa desconfian&ccedil;a    crescente de toda alegria! Cada vez mais o trabalho tem a seu lado a boa consci&ecirc;ncia:    a inclina&ccedil;&atilde;o &agrave; alegria j&aacute; chama a si mesma 'necessidade    de descanso' e come&ccedil;a a ter vergonha de si. 'Fazemos isso por nossa sa&uacute;de'    &#150; &eacute; o que dizem as pessoas quando s&atilde;o flagradas numa excurs&atilde;o    ao campo. Sim, logo poder&iacute;amos chegar ao ponto de n&atilde;o mais ceder    ao pendor &agrave; vida contemplativa (ou seja, a passeios com pensamentos e    amigos) sem autodesprezo e m&aacute; consci&ecirc;ncia." <a name="top10"></a><a href="#back10">(10)</a>.    Nietzsche parece dizer que o mundo moderno &eacute; um mundo sem esp&iacute;rito    porque &eacute; um mundo sem tempo para o esp&iacute;rito.</p>     <p>Toda essa vis&atilde;o sombria que se depreende dos textos citados e de muitos    outros que analisam as formas da cultura moderna e sua organiza&ccedil;&atilde;o    n&atilde;o devem nos conduzir &agrave; conclus&atilde;o apressada de que a verdadeira    cultura &eacute; totalmente imposs&iacute;vel no mundo moderno. Nietzsche, em    <i>O viandante e sua sombra</i>, aforismo 189 ("A &aacute;rvore da humanidade    e a raz&atilde;o") nos convida a comparar a humanidade a uma grande &aacute;rvore    que d&aacute; bons frutos se for bem cuidada e tratada. E por mais que os homens    ainda sejam governados por instintos cegos, sempre haver&aacute; indiv&iacute;duos    que, de alguma maneira, alcan&ccedil;am a sabedoria &#150; e conclui: "Nossa    tarefa grandiosa consiste em preparar a terra para receber uma planta da maior    e mais formosa fecundidade &#150; uma tarefa da raz&atilde;o para a raz&atilde;o!"    <a name="top11"></a><a href="#back11">(11)</a>.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><i><b>Jos&eacute; Carlos Bruni</b> &eacute; professor do programa de p&oacute;s-gradua&ccedil;&atilde;o    em Sociologia da USP e professor do Departamento de Filosofia da Unesp.</i></p>     <p>&nbsp;</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Notas</b></p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="back1"></a><a href="#top1">1</a> Nietzsche, F. <i>Kritische Studienausgabe</i>.    M&uuml;nchen, DTV/de Gruyter: Herausgegeben von Giorgio Colli und Mazzino Montinari,    vol. 21, pp. 648-9, 1988.</p>     <p><a name="back2"></a><a href="#top2">2</a> idem, ibidem, vol. 23, p. 17.</p>     <p><a name="back3"></a><a href="#top3">3</a> id., ib., vol. 25, p. 256.</p>     <p><a name="back4"></a><a href="#top4">4</a> id., ib., vol. 27, p. 717 (Cf. tamb&eacute;m:    "Somente o fil&oacute;logo l&ecirc; lentamente e medita meia hora sobre seis    linhas" (id., ib., vol. 8, p. 332), isto &eacute;, m&eacute;dia de cinco minutos    para cada linha!).</p>     <p><a name="back5"></a><a href="#top5">5</a> id., ib., vol. 31, p. 260.</p>     <p><a name="back6"></a><a href="#top6">6</a> id., ib., vol. 22, p. 232.</p>     <p><a name="back7"></a><a href="#top7">7</a> id., ib., vol. 21, pp. 667-8.</p>     <p><a name="back8"></a><a href="#top8">8</a> id., ib., vol. 21, p. 202.</p>     <p><a name="back9"></a><a href="#top9">9</a> id., ib., vol. 21, p. 379.</p>     <p><a name="back10"></a><a href="#top10">10</a> id., ib., vol. 23, pp. 556-7.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p><a name="back11"></a><a href="#top11">11</a> id., ib., vol. 22, p. 636.</p>     <p>&nbsp;</p>     <p><b>Bibliografia consultada</b></p>     <p>Obras de Nietzsche em portugu&ecirc;s</p>     <p>- <i>Ecce Homo</i> (tr. Paulo C&eacute;sar Souza). S&atilde;o Paulo: Max Limonad,    1985.</p>     <p>- <i>Genealogia da moral</i> (tr. Paulo C&eacute;sar Souza). S&atilde;o Paulo:    Brasiliense, 1987.</p>     <p>- <i>O nascimento da trag&eacute;dia</i> (tr. Jacob Guinsburg). S&atilde;o    Paulo: Cia. das Letras, 1992.</p>     <p>- <i>Al&eacute;m do bem do mal</i> (tr. Paulo C&eacute;sar Souza). S&atilde;o    Paulo: Cia. das Letras, 1992.</p>     <p>- <i>A gaia ci&ecirc;ncia</i> (tr. Paulo C&eacute;sar Souza). S&atilde;o Paulo:    Cia. das Letras, 2001.</p>     <p>- <i>Humano, demasiado humano</i> (tr. Paulo C&eacute;sar Souza). S&atilde;o    Paulo: Cia. das Letras, 2002.</p>     ]]></body>
<body><![CDATA[<p>Obras sobre o tema "tempo e cultura"</p>     <!-- ref --><p>Wenndorff, R. <i>Zeit und Kultur Geschichte des Zeitbewu&szlig;tseins in Europa</i>.    Opladen: West deutscher Verlag, 1985.<!-- ref --><p>Chau&iacute;, M. <i>Escritos sobre a universidade</i>. S&atilde;o Paulo: Ed.    Unesp, 2001.<!-- ref --><p>Bruni, J. C. " Tempo e trabalho intelectual". <i>In: Tempo Social &#150; Revista    de Sociologia da USP</i> (S&atilde;o Paulo, 3 (1-2) , 1991, pp 155-68. ]]></body><back>
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